1 LIÇÃO 2 TRI 22 O SERMÃO DO MONTE: O CARÁTER DO REINO DE DEUS

 

1 LIÇÃO 2 TRI 22 O SERMÃO DO MONTE: O CARÁTER DO REINO DE DEUS

 

1 LIÇÃO 2 TRI 22 O SERMÃO DO MONTE: O CARÁTER DO REINO DE DEUS

 

 

TEXTO ÁUREO

 

“Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós, por minha causa. (Mt 5.11)

 

VERDADE PRÁTICA

 

O Sermão do Monte revela a ética do Reino de Deus que forma o caráter do cristão. Para quem deseja ser chamado discípulo de Jesus, não há alternativa senão praticá-lo.

 

LEITURA DIÁRIA

 

 

Segunda – Mt 7.28; Lc 6.17 Um sermão para quem segue Jesus com sinceridade

 

Terça – 2 Co 5.17 Um sermão para quem nasceu de novo

 

Quarta – Ap 1.3; 14.13; 22.17 Um sermão que nos permite desfrutar da felicidade divina

 

Quinta – Mt 5.3; 12 .28; Mt 7.21,22 Aspectos presentes e futuros do Reino de Deus

 

Sexta – Mt 3.8-10 É preciso viver as beatitudes espirituais na vida cristã

 

Sábado – Gl 2.20; Fp 3.7,8; Rm 12.2 É preciso renunciar o “eu carne” e acolher o “eu espiritual”

 

 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

 

 

Mateus 5.1-12

 

1- Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;

 

2- e, abrindo a boca, os ensinava, dizendo:

 

3- Bem-aventurados os pobres d e espírito, porque deles é o Reino dos céus;

 

4- Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

 

5- Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

 

6- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

 

7- Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

 

8- Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

 

9- Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

 

10- Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus;

 

11- Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós, por minha causa.

 

12- Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.

 

 

Hinos Sugeridos: 126, 131, 232 da Harpa Cristã

 

 

PLANO DE AULA

 

1- INTRODUÇÃO

Vivemos uma degradação de valores em nossa sociedade. Por isso, neste trimestre, tem o privilégio de estudar os valores do Reino de Deus revelados no Sermão do Monte. O pastor Osiel Gomes, escritor, conferencista e líder da AD em Tirirical (São Luís/MA) é o comentarista deste trimestre. Ele nos ajudará a compreender a relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo nos dias atuais.

 

2- APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição:

I) Analisar a estrutura do Sermão do Monte;

II) Correlacionar as bem -aventuranças com o caráter cristão;

III) Afirmar a bem-aventurança do cristão.

B) Motivação: Qual é a visão de mundo que fundamenta a vida do seu aluno? Ele toma decisões no mundo com base em qual ética? Uma ética materialista, mundana? Ou com base na ética do Reino de Deus, conforme revelada no Sermão do Monte?

C) Sugestão de Método: Sugerimos que enriqueça a aula por meio de exemplos positivos de cristãos que buscaram viver pelo menos uma das oito bem-aventuranças do Sermão do Monte. O exemplo pode ser dado por meio de uma pessoa da própria igreja local, ou de notícias, livros etc.

 

3- CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: Sugerimos que ao final da aula, você faça um momento de meditação e oração. À luz das bem-aventuranças estudadas em aula, leve os alunos a meditar sobre a própria conduta e a suplicar a Deus a graça de viver as bem-aventuranças do Sermão do Monte.

 

4- SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas. Na edição 89, p.36, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará dois auxílios que darão suporte na preparação de sua aula:

1) O texto “O Segredo da Felicidade” é uma reflexão ampliada pelo teólogo Myer Pearman acerca do conceito de bem-aventuranças;

2) O texto “Dono da Maneira como Pensamos”, do pastor Stan Toler, traz uma proposta de aplicação a respeito do impacto que o ensino de Jesus pode trazer para a vida cristã.

 

 

Palavra-Chave: BEATITUDE

 

 

INTRODUÇÃO COMENTÁRIO

 

O tema deste trimestre é o Sermão do Monte, ou Sermão da Montanha. Considerado a alma do Evangelho, o ensino que Jesus transmitiu no monte se destaca pela sua dimensão prática e revela a essência de um verdadeiro seguidor de Cristo. Ao longo do trimestre, veremos que o Sermão do Monte traz um ensinamento que, em um primeiro instante, volta-se plenamente para Deus; e, noutro, revela o lado ético do divino reino: amar o próximo. Esses dois momentos perfazem os pilares da vida cristã (Mt 22.37,39). Assim, o Sermão do Monte é um convite para praticar o que Jesus ensinou.

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Não se pode renegar a grande influência e leitura que se faz do Sermão da Montanha, atribui-se a ele as mais diversas nomenclaturas: Cristianismo Essencial, Manifesto de Cristo, O Alvo da Vida, A Vida Cristã Ideal, porém o que se pode realmente dizer é que nos capítulos 5–7 do Evangelho de Mateus o que se tem é a sinopse do ensino ético das exigências de Cristo para aqueles que desejavam fazer parte do seu Reino. Em suas partes há ensinos gerais e impactantes que abrangem as múltiplas áreas da vida religiosa.

Falando desse sermão, John Stott diz:

É provável que o Sermão do Monte seja a parte mais conhecida do ensino de Jesus, embora, discutivelmente seja a menos compreendida e, sem dúvida, ao que menos se obedece. Do que ele já proferiu é o que mais se aproxima de um manifesto, pois é sua própria descrição do que queria que seus seguidores fossem e fizessem.

Pelas palavras acima, compreendemos que o simples fato de ser o mais conhecido ensino de Cristo não garante plenamente sua compreensão e prática, pois disso resulta a necessidade da transformação divina, visto que só pode realmente valorizar aquilo que é espiritual, procedente de Cristo, quando se é espiritual (1Co 2.15). Essa espiritualidade só é possível por intermédio do novo nascimento, caso não seja assim, tais verdades etéreas serão de pouca monta, como bem foi falado por Jesus a Nicodemos (Jo 3.12). Apesar da mensagem do Mestre divino em Mateus, nos capítulos de 5 a 7, sua praticidade é quase impossível porque primeiramente deve ocorrer uma mudança interior para que se deseje as pepitas de ouro deixadas por Cristo.

Os ensinos propostos por Cristo no Sermão do Monte não são para ser apenas venerados, estudados, analisados e discutidos, como muitos têm feito, antes, em sua difusão, o divino Mestre procura plasmar cada discípulo conforme seus ideais e caráter. Quem deseja alcançar esse padrão elevado ou a quintessência falada por Cristo, jamais conseguirá viver no periférico natural e carnal, antes, é preciso abrir sua alma, deixar-se amalgamar por inteiro pela presença do grande Mestre, e, nessa fundição com a trindade divina, é que se torna possível alcançar a perfeição desejada por Jesus aos seus discípulos (Mt 5.48), desabrochando as mais belas virtudes na vida dos novos conversos. “Eu neles, e Tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.23, NAA).

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 13-14.

 

 

Talvez uma rápida análise do Sermão ajude a demonstrar a sua relevância para nós, no século vinte.

O caráter do cristão (5:3-12) As bem-aventuranças enfatizam oito sinais principais da conduta e do caráter cristãos, especialmente em relação a Deus e aos homens, e as bênçãos divinas que repousam sobre aqueles que externam estes sinais.

A influência do cristão (5:13-16). As duas metáforas do sal e da luz indicam a influência que os cristãos devem exercer para o bem na comunidade se (e tão somente se) mantiverem o seu caráter distinto, conforme descrito nas bem-aventuranças.

A justiça do cristão (5:17-48) Qual deve ser a atitude do cristão para com a lei moral de Deus? Ficaria a lei propriamente dita abolida na vida cristã, como estranhamente afirmam os advogados da filosofia da “nova moralidade” e da escola dos “não-mais-sob-a-lei”? Não. Jesus não tinha vindo para abolir a lei e os profetas, disse ele, mas para cumpri-los. E mais, ele chegou a declarar que a grandeza no reino de Deus se media pela conformidade com os ensinamentos morais da lei e dos profetas, e que até mesmo entrar no reino era impossível sem uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus (5:17-20). Jesus deu, então, seis ilustrações desta justiça cristã melhor (5:21-48), relacionando-a com o homicídio, com o adultério, com o divórcio, com o juramento, com a vingança e com o amor. Em cada antítese (“Ouvistes que foi dito … eu, porém, vos digo…”), rejeitou a acomodada tradição dos escribas, reafirmou a autoridade das Escrituras do Velho Testamento e apresentou as decorrências plenas e exatas da lei moral de Deus.

A piedade do cristão (6:1-18) Em sua “piedade” ou devoção religiosa, os cristãos não devem se acomodar nem com o tipo hipócrita dos fariseus, nem com o formalismo mecânico dos pagãos. A piedade cristã deve destacar-se acima de tudo pela realidade, pela sinceridade dos filhos de Deus que vivem na presença de seu Pai celestial.

A ambição do cristão (6:19-34) O “mundanismo” do qual os cristãos devem fugir pode ter aparência religiosa ou secular. Por isso, devemos ser diferentes dos não-cristãos, não apenas em nossas devoções, mas também em nossas ambições. Cristo modifica especialmente a nossa atitude para com a riqueza e os bens materiais.

É impossível adorar a Deus e ao dinheiro; temos de escolher um dos dois. As pessoas do mundo estão preocupadas com a busca do alimento, da bebida e do vestuário. Os cristãos devem ficar livres destas ansiedades materiais ego-centralizadas e, em lugar disso, devem dedicar-se à expansão do governo e da justiça de Deus. É o mesmo que dizer que a nossa ambição suprema deve ser a glória de Deus e não a nossa própria glória, nem mesmo o nosso próprio bem-estar material. É uma questão do que buscamos “em primeiro lugar”.

Os relacionamentos do cristão (7:1-20) Os cristãos estão presos em uma complexa teia de relaciona-mentos, todos eles partindo do nosso relacionamento com Cristo. Quando nos relacionamos devidamente com ele, os nossos demais relacionamentos são todos afetados. Novos relacionamentos surgem, e os antigos se modificam. Assim, não devemos julgar o nosso irmão, mas servi-lo (vs. 1-5). Devemos também evitar oferecer o evangelho àqueles que decididamente o rejeitam (v. 6); devemos continuar orando ao nosso Pai celestial (vs. 7-12) e tomar cuidado com os falsos profetas, que impedem que muita gente encontre a porta estreita e o caminho difícil (vs. 13-20).

Uma dedicação cristã (7:21-27) O último item apresentado pelo todo do Sermão relaciona-se com a autoridade do pregador. Não basta chamá-lo de “Senhor” (vs. 21-23) ou ouvir os seus ensinamentos (vs. 24-27). A questão básica é se nós somos sinceros no que dizemos e se fazemos o que ouvimos. Deste compromisso depende o nosso destino eterno. Só quem obedece a Cristo como Senhor é sábio. Pois quem assim procede está edificando a sua casa sobre o alicerce da rocha, que as tempestades da adversidade e do juízo não serão capazes de solapar. As multidões ficaram perplexas com a autoridade com que Jesus ensinava (vs. 28, 29). É uma autoridade à qual os discípulos de Jesus de cada geração devem submeter-se. A questão do senhorio de Cristo é relevante hoje em dia, tanto com referência a princípios como à aplicação prática, da mesma maneira que o era quando originalmente ele pregou o Sermão do Monte.

STOTT, John. Contracultura cristã. A mensagem do Sermão do Monte. Editora: ABU, 1981, pag. 11-12.

 

 

SERMÃO DO MONTE, O. Um termo aplicado por Agostinho (cerca de 400 d.C.) a Mateus 5-7 em seu comentário em latim, e estabelecido no uso em inglês por uma anotação na Coverdale Bible (1535) a qual passou para o português.

MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 5. pag. 569-570.

 

 

I- A ESTRUTURA DO SERMÃO DO MONTE

 

 

1- Por que Sermão do Monte?

 

A introdução do capítulo 5 de Mateus (os dois primeiros versículos) anuncia o título do Sermão do Monte. De acordo com Mateus 8.1,5 e Lucas 7.1 é admissível que esse monte estivesse perto de Cafarnaum. Geograficamente, diz-se que ele estava situado a 6,5 quilômetros a oeste do Mar da Galileia e 13 quilômetros a sudeste de Cafarnaum. No monte do sermão, nosso Senhor assentou que ensinou aos seus discípulos.

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Antes de adentramos especificamente na questão da estrutura do Sermão da Montanha, vamos começar falando sobre o porquê do Sermão do Monte. Na parte de Lucas 6.20-49, o sermão é sucinto e o nome que recebe é Sermão da Planície. Isso se deve à questão da diferente localidade (Lc 6.17). Fazendo um paralelo com Mateus, está escrito que Jesus subiu a um monte, do qual passou a dar suas instruções (Mt 5.1). No texto grego, Mateus começa assim: Ἰδὼν δὲ τοὺς ὄχλους ἀνέβη εἰς τὸ ὄρος, Vendo Jesus as multidões, subiu para a montanha (Mt 5.1). Assim, o título sermão é julgado por alguns estudiosos como sendo infeliz.

Em relação à aparente discordância existente em Mateus e Lucas, não se pode em momento algum assegurar tal desarmonia, o que é bem explicado no Comentário Bíblico de William Hendriksen, que diz:

De acordo com Lucas, o sermão foi pronunciado “num lugar plano” (6.17), mas, de acordo com Mateus, “sobre um monte”. Aparamente contradição desaparece, seja admitindo que Jesus pronunciou seu discurso num planalto ou que, tendo escolhido seus discípulos no cume do monte, desceu com eles para a planície onde curou os enfermos e, em seguida, com os discípulos, voltou para o cume do monte (ver Mc 3.13; Lc 6.17 e Mt 5.1, nessa ordem). Se o segundo ponto de vista for adotado, tudo indica que na planície ele parou para curar os enfermos; no alto do monte ele se sentou, segundo o costume da época (Mc 4.1; 9.35; 13.3; Lc 4.20), para pronunciar o sermão. Seja qual for o ponto de vista que alguém adote, é evidente que nenhum conflito entre Mateus e Lucas pode ser provado.

Particularmente, posso julgar que alguns acham indevido o uso da palavra “sermão” para os capítulos 5–7 de Mateus. Em primeiro lugar, pelo fato de não constar no próprio texto. Em segundo lugar, os ensinos de Cristo foram diversos discursos abrangendo temáticas diferentes, ao passo que o singular sermão estaria atrelado à prédica de um sacerdote, um pastor, inclusive pelo aspecto figurado, que pode carregar o peso de uma mensagem moralista, por exemplo: não me venha com sermão. No latim, a palavra sermão é “sermo, onis” e tem o sentido de conversa ou das palavras familiares trocadas em uma conversa. R. V. G. Tasker, falando sobre o assunto esclarece:

A expressão “sermão do monte”, pela qual esta seção é geralmente conhecida, é algo enganosa, desde que parece mais provável que nestes capítulos o evangelista não esteja registando um discurso único pronunciado de uma só vez, mas, sim, reunindo e organizando pequenos grupos de ditos de Jesus sobre o discipulado, exarados em várias ocasiões durante seu ministério. O fato de que muitos dos ditos aqui registrados são encontrados em diferentes contextos na narrativa de Lucas confirma esta conclusão. Tal confirmação vem também da opinião generalizada de que dificilmente qualquer mestre condensaria tanta instrução em um único sermão. É pouco convincente a opinião de Chapman de que o sermão original pode ter durado tanto quanto uma hora inteira, na sua forma condensada, e até três horas, havendo necessidade de desenvolvimentos e explanações.

Há que se dizer que em relação à questão se o assunto foi abordado de uma só vez ou se aconteceu em várias ocasiões no ministério de Cristo, o duelo é grande, pois de um lado existem aqueles que são categóricos em afirmar que há sim unidade nesse sermão, ao passo que outros apresentam seus argumentos assegurando que não existe unidade. Esse debate continua ainda hoje e jamais se chegou a um consenso definitivo. Uma análise meticulosa é apresentada na conhecida5 Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filoso seus ensinos, de modo que é compreensível que isso gerou narrativas diferentes com situações ínclitas.

Ainda se acrescenta que é falsa a ideia de que os escritores dos evangelhos contaram tudo o que sabiam e que não contaram o que não sabiam. Alegam aqueles da teoria editorial que Lucas desenvolveu sua narrativa firmado no pano de fundo palestino-judaico, e que se pode crer que Mateus fez sua narração seguida de tais minúcias.

Assim, o resultado é que se têm duas fontes distintas para o relato dos capítulos 5–7 de Mateus, de modo que Jesus fez junção do material dos dois sermões que havia ensinado, de maneira que os ensinamentos que chegaram a Mateus foram aqueles que Jesus apresentou naqueles dias.

O último ponto apresentado é o da questão da elaboração temática. Nesse particular, assegura-se que o sermão segue um curso normal, ele tem começo, meio e fim. O Sermão do Monte tem uma ideia central que se espalha no seu todo, sendo desenvolvida até chegar ao seu clímax final, nisso consiste sua unidade. Essa ideia é o Evangelho do Reino (Mt 4.23), de modo que Reino dos céus e Reino de Deus são semelhantes, sendo a primeira usada por Mateus, e a segunda por Lucas.

Importante ressaltar que há um propósito específico para o uso da palavra reino, tanto presente em Mateus como em Lucas. Nela há um aspecto escatológico, pois, por intermédio do ensino de Cristo nesse monte, a ideia que se tem é da concretização do Reino literal, e, com o uso do termo justiça, como falado por Daniel e Lucas (Dn 9.24).

Escatologicamente há uma espera pela implantação do Reino literal em que Cristo governará, porém, no Sermão do Monte, ensinado por Cristo, tem-se uma alusão ao Reino no seu aspecto espiritual, o qual se torna presente na vida do cristão quando aceita a Cristo como seu Senhor e Salvador (Lc 17.21). Os que desejavam viver o Reino espiritual precisam viver segundo os princípios divinos exarados no Sermão do Monte, conforme Cristo ensinara.

Em oposição à unidade do Sermão do Monte, os que se manifestam asseveram que tais ensinos não foram dados de uma só vez ou em um único sermão, por isso apresentam três argumentos: a questão da natureza do material, as porções desconexas e os paralelos em Lucas. No aspecto material, assegura-se que o que se tem em Mateus 5–7 são sumários dos ensinos de Jesus, o que depois seria examinado mais prolongadamente.

Na questão da desconexão, parece haver certas divisões que não se harmonizam bem, tanto antes como posteriormente. A título de exemplo, pode se notar Mateus 5.31,32 e 7.7-11; 6.1-6 e 6.16-18.

Possivelmente, essas partes separadas demonstram que não há ligação entre ambas, mas são pequenas seções de sermões. Nessa concepção, haveria mais ou menos vinte discursos diferentes apresentados por Jesus.

Quanto ao paralelo de Lucas, àqueles que afirmam que com a passagem lucana (Lc 6.17-49), denominada de Sermão da Planície, o que se busca é dizer que tal narrativa é um elemento preponderante para se refutar a unidade do Sermão da Montanha. A primeira coisa a se observar é que boa parte do que consta em Mateus não aparece em Lucas. Enquanto em Mateus encontra-se 107 versículos, Lucas menciona somente 30 destes, além do fato de que há 47 versos de Mateus que não tem qualquer ligação com Lucas. Com essa análise, o que se procura dizer é que não há qualquer unidade do Sermão da Montanha, de modo que de Agostinho até a Reforma Protestante julga-se que o Sermão da Montanha de Mateus é diferente do Sermão da Planície de Lucas.

Para fecharmos esse primeiro ponto quanto ao porquê do Sermão do Monte, nada melhor do que fazer uso do Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal (2009, p. 36), que diz:

Mateus 5–7 é chamado de Sermão do Monte porque foi proferido por Jesus sobre um monte perto de Cafarnaum. É provável que esse sermão seja resultado de vários dias de pregação. Nele, Jesus revelou sua atitude em relação à lei de Moisés, explicando que ela exige uma fiel e sincera obediência, não uma religião cerimonial. O Sermão do Monte desafiava os ensinos dos orgulhosos e legalistas líderes religiosos daquela época. Ele conclamava o povo para ouvir as mensagens dos profetas do Antigo Testamento que, como Jesus, haviam ensinado que Deus quer obediência sincera, e não mera e legalista obediência às leis e rituais.

Portanto, ainda que perdurem os debates quanto à unidade literária de Mateus 5–7, se Jesus proferiu tal sermão em um só momento ou em diversas outras ocasiões, nada disso retira o brilho dos conteúdos ensinados. Se nos prendermos somente aos detalhes da unidade, deixaremos de perceber as riquezas dos ensinos contidos no Sermão do Monte, os quais nos desafiam a sair de uma vida meramente religiosa e hipócrita para desenvolvermos uma vida de atitudes verdadeiras que partem de corações transformados pelo novo nascimento.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 15-21.

 

 

MONTE DAS BEM-AVENTURANÇAS.

Uma encosta na praia noroeste do Mar da Galileia, onde Jesus pronunciou as Bem-aventuranças, uma pequena porção do Sermão do Monte, ou da planície (Mt 5.3-12; Lc 6.20-23). Afora as afirmações de Mateus, de que Jesus estava num monte (5.1; 8.1) e o relato de Lucas, de que o Sermão do Monte foi em um lugar elevado (6.17), a única outra ajuda para localizar o local é o registro de que Jesus foi dali diretamente a Cafamaum.

Um local mais antigo sugerido era Horns de Hattim, a c. 11 km a oeste de Tiberíades, agora, o local mais popular é a escarpa do Mar da Galiléia a sudoeste de Cafamaum. Existe uma igreja católica nesse local. R. L. Alden

MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 4. pag. 368-369.

 

 

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo… (5:1, 2) Não há dúvida de que o propósito principal de Jesus ao subir uma colina ou montanha para ensinar era fugir das “numerosas multidões” da Galileia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e dalém do Jordão, que o seguiam. Ele passara os primeiros meses do seu ministério público vagando por toda a Galileia, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”. Como resultado, “sua fama correu por toda a Síria”, e o povo vinha em grandes multidões, trazendo os seus doentes para serem curados.

Por isso Jesus precisava fugir, não só para ter uma oportunidade de ficar sozinho e orar, mas também para dar uma instrução mais concentrada aos seus discípulos. Além disso, parece (conforme muitos comentaristas antigos e modernos têm sugerido) que ele deliberadamente subiu ao monte para ensinar, a fim de traçar um paralelo entre Moisés (que recebeu a lei no Monte Sinai) e ele próprio (que então explicou aos seus discípulos as consequências dessa lei, no chamado “Monte das Bem-aventuranças”, o local tradicional do Sermão, junto às praias ao norte do Lago da Galileia). Pois, embora Jesus fosse maior do que Moisés, e embora a sua mensagem fosse mais evangelho do que lei, ele também escolheu doze apóstolos para formar o núcleo de um novo Israel, em correspondência aos doze patriarcas e tribos da antiguidade. Ele também proclamou ser Mestre e Senhor, deu a sua própria interpretação autorizada da lei de Moisés, enunciou mandamentos e esperou obediência. Até mesmo convidou, mais tarde, os seus discípulos a tomarem o seu “jugo”, ou submeterem-se aos seus ensinamentos, assim como anteriormente carregaram o jugo do Torá.

Alguns mestres desenvolveram esquemas muito elaborados para demonstrar este paralelo. B. W. Bacon, em 1918, por exemplo, argumentou que Mateus deliberadamente estruturou o seu Evangelho em cinco partes, cada uma terminando com a fórmula “quando Jesus acabou…” (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1), a fim de que os “cinco livros de Mateus” correspondessem aos “cinco livros de Moisés” e fossem uma espécie de Pentateuco do Novo Testamento. Um paralelismo diferente foi sugerido por Austin Farrer, a saber, que Mateus 5-7 teve por modelo Êxodo 20-24, as oito bem-aventuranças correspondendo aos dez mandamentos, com o restante do Sermão dissertando sobre as mesmas e aplicando-as, assim como os mandamentos também foram dissertados e explicados. Estas tentativas engenhosas de descobrir paralelos são compreensíveis porque em muitas passagens do Novo Testamento a obra salvadora de Jesus está descrita como um novo êxodo, e a vida cristã como uma alegre celebração disso: “Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso celebremos a festa.”

Embora Mateus não compare explicitamente Jesus a Moisés, e não possamos reivindicar mais do que isso no Sermão, “a essência da Nova Lei, o Novo Sinai, o Novo Moisés estão presentes”. Em todos os eventos, Jesus assentou-se, assumindo a posição de um rabi ou legislador, e seus discípulos aproximaram-se dele, para aprender dos seus ensinamentos. Então ele passou (uma expressão que indica a solenidade do seu pronunciamento) a ensiná-los. Três perguntas básicas formam-se imediatamente na mente do leitor moderno, ao estudar o Sermão do Monte. Tal pessoa não se sentirá receptiva para com os ensinamentos desse sermão se não receber respostas satisfatórias às seguintes perguntas: Primeiro, o Sermão do Monte é um autêntico pronunciamento de Jesus? Foi realmente pregado por ele? Segundo, o seu conteúdo é relevante para o mundo contemporâneo, ou é totalmente fora de moda? Terceiro, os seus padrões são atingíveis, ou devemos esquecê-los por serem em larga escala um ideal impraticável?

STOTT, John. Contracultura cristã. A mensagem do Sermão do Monte. Editora: ABU, 1981, pag. 9-10.

 

 

2- A estrutura do Sermão do Monte.

 

Para alguns estudiosos, o Sermão do Monte se fundamenta na narrativa que começa em Mateus 1.4-16. O desdobramento dela envolve a genealogia de Jesus e os sete cumprimentos proféticos que aparecem nesse Evangelho:

1) Emanuel (1.23);

2) Nascimento em Belém (2.6);

3) O chamado do Egito (2.15);

4) O choro de Raquel (2.18);

5) Chamado de Nazareno (2.23);

6) João Batista: uma voz no deserto (3 -3);

7) Uma grande luz (4.14-16).

 

Assim, toda essa estrutura precede os cinco grandes discursos do Sermão do Monte:

1) As Bem-Aventuranças (5.3-12);

2) Sal e luz (5.13-16);

3) Jesus é o cumprimento da Lei (5.17-4 8);

4) Os atos de justiça (6 .1-18);

5) Declarações de sabedoria (6.19-7.27).

Como um desdobramento em toda narrativa messiânica do evangelista Mateus, o Sermão do Monte deve ser compreendido e valorizado a partir da autoridade e a messianidade de Jesus para chamar pessoas a viver uma vida nova no Reino de Deus.

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Para compreendermos com precisão a estrutura do Sermão do Monte, é necessário que se esteja atento à expressão que sempre fecha os cinco discursos como aparecem em Mateus, que é: “Quando Jesus acabou…”. O sermão do Monte é um dos primeiros desses discursos, depois há que se atentar para a narrativa que continua, como bem se nota dos capítulos 8 e 9 em diante. Robert H. Gundry nos dá uma visão muito ampla do que sejam esses cinco discursos:

Os discursos constantes em Mateus são “sermões” mais ou menos longos, aos quais foram acrescentados ditos isolados de Jesus, em lugares apropriados.

Cada discurso termina com esta fórmula: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras…” Os discursos e seus temas respectivos são conforme mostramos abaixo: 1) O Sermão da Montanha (Capítulos 5-7), significado da verdadeira (interna) retidão. 2) A Comissão dos Doze (capítulo 10): Significado do Testemunho em Prol de Cristo (perseguição e Galardões). 3) As parábolas (capítulo 13): Significado do Reino. 4) Sem qualquer título geral (capítulo 18): Significado da Humildade e do perdão. 5) A Denúncia contra os Escribas e Fariseus (capítulo 23 e o Discurso dom monte das Oliveiras, frequentemente chamado “O Pequeno Apocalipse” (capítulos 24 e 25): Significado da Rejeição de Israel. Deus rejeitou a Israel, por haver a nação rejeitado a Jesus, O Messias; ocorrerá um hiato de tempo, Jerusalém será destruída, as nações serão evangelizadas, e então Cristo retornará.

No aspecto teológico, pode se observar que da parte do Mateus há uma ligação com o Pentateuco, trazendo destaque especial ao Reino e à forma como o evangelista começa a narrativa sobre Cristo, como criança, envolvendo os diversos desafios enfrentados por seus pais.

Esses fatos assemelham-se à história que envolve o libertador de Israel, Moisés, e logo ficará ainda mais claro quando Jesus expõe seus ensinos no Monte, declarando que veio para cumprir toda a Lei (Mt 5.17). É importante observar que Jesus não seria apenas cumpridor da Lei, mas daria uma nova interpretação a esta, a qual, seria plenamente verdadeira, daí o motivo constante de suas palavras: “Eu, porém, vos digo”.

Nessa estrutura do Sermão da Montanha, Mateus mostra que Jesus faz uma ponte entre o Reino e a justiça (Mt 5.20; 6.33), sendo o arrependimento a condição para a entrada nesse Reino, não a justiça própria, mas a justiça de Cristo. Em seguida, Jesus passa a falar das bem-aventuranças, e podemos notar que o motivo da segunda cláusula é dependente da primeira, por exemplo: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu”. Há uma promessa do Reino para os que são bem-aventurados, sendo essa a agudez das mesmas.

Em prosseguimento, quanto ao aspecto teológico, pode-se perceber o peso desse Sermão no âmbito geral, mas há que se fazer menção a três temáticas que exercem grande impacto e influência na vida do povo de Deus, tanto na consciência como na parte litúrgica, são elas: as bem-aventuranças, a oração do Pai Nosso e a regra áurea (Mt 7.12).

Por intermédio das bem-aventuranças, compreendemos como realmente devem viver os discípulos de Cristo. Por isso que se fala de exigências éticas; elas são condições para que se possa entrar no Reino, envolvendo o aspecto escatológico. Ademais, as exigências éticas dão seguimento a outros temas que irão se desenvolver no corpo do Sermão ensinado por Jesus.

Como acima mencionado, a primeira parte destacada do Sermão da Montanha dirige-se especialmente à consciência, ao passo que a segunda está relacionada à questão da liturgia, na qual Cristo esclarece que a oração feita ao Pai deve ser simples, reconhecer a soberania divina, o endereço da oração e a duplicidade do perdão.

Perdão esse que o orante recebe primeiramente de Cristo para com o Pai, sendo agora capaz de perdoar a qualquer pessoa. Na terceira parte, encontramos a regra áurea, que trata do relacionamento envolvendo as pessoas. Já na altura dos ensinos anteriores feitos por Cristo, nesse ponto central seria como um destaque especial para se cumprir tudo cabalmente. Por meio do ensino de Cristo sobre essa regra, o destaque baseava-se em Levítico 19.18, fazendo então uma ligação com Mateus 22.39, que na visão de Cristo seria o grande mandamento e todo o cumprimento da Lei, e dos profetas.

O Mestre divino estava combatendo o sistema de julgamento criado pelos judeus, que era um tipo de estratégia para não cumprir com as responsabilidades assumidas, não agindo com sinceridade e verdade nos negócios. Em Marcos 8.12, podemos ver que o próprio Jesus fez um juramento. Porém, alguns têm se valido da questão da não resistência para se opor à força militar e policial (Mt 5.39), porém, não era sobre tal procedimento que Jesus estava falando, mas a questão envolvia a forma em que se dava o tratamento entre duas pessoas.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 21-24.

 

 

Os discursos agrupados em um só bloco cobrem grande número de temas, o que um único sermão, enunciado numa só ocasião, dificilmente poderia fazer. Apresento isso na forma de esboço.

As bem-aventuranças (com paralelo em Luc. 6:17-23, onde o número é menor): 5:3-12. Estes ditos nos informam certas verdades básicas sobre a espiritualidade e o viver espiritual, sendo “qualidades da alma” do homem piedoso. Há um artigo separado sobre esta matéria.

Os ditos de Jesus contrastados com a compreensão comum da lei de Moisés: 5:17-48. Os temas são homicídio, adultério, divórcio, juramentos, retaliação e amor ao próximo.

Os elementos do culto: 6: 1-18. As colunas do culto judaico eram esmolas, oração e jejum. Jesus comentou sobre esses elementos, espiritualizando-os, e mostrou que o culto genuíno deve ser uma devoção exclusiva a Deus, que tem resultado em nossas atitudes e atos em relação a outros.

Temas variados demonstrando elementos da vida espiritual: o homem bom evita a crítica dirigida a outros (Mat. 7: 1-5); o homem bom deve ser discreto quando apresenta seus ensinos aos profanos (7:6); o homem bom deve ser uma pessoa de oração ardorosa (7:7-11); a regra áurea: trate os outros como você quer que os outros o tratem (7:12); metáforas que contrastam o bom e o mau: as duas estradas (7:13,14); os dois frutos (7:15-23); os dois fundamentos (7:24-29).

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 6. pag. 170.

 

 

O Sermão do Monte começa com uma série de exclamações com respeito à felicidade das pessoas que se colocaram sob o governo soberano de Deus. Albright-Mann chama as bem-aventuranças de “a carta magna do reino” ou a constituição espiritual do reino (p. 68). A forma literária empregada por Mateus é comum no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos e na literatura sapiencial (p.e., Salmo 1:1, “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”; cp. Salmo 84:4-5,12).

ROBERT H. MOUNCE. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Baseado na Edição Contemporânea de Almeida. Editora Vida Nova. pag. 48-49.

 

 

Cada bem-aventurança consta de três partes: a. uma atribuição da bem-aventurança (“Bem-aventurados”), b. uma descrição da pessoa a quem se aplica a atribuição, isto é, de seu caráter ou condição (“os pobres de espírito”, “os que choram”, etc.), e c. uma declaração da razão desta bem-aventurança (“porque deles é o reino dos céus”, “porque eles receberão consolação” …).

HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento. Mateus. Editora Cultura Cristã. pag. 342.

 

 

3- A quem se destina o Sermão do Monte?

 

Os ensinos do Sermão do Monte podem ser considerados os princípios esboçados por Cristo, que revelam a verdadeira característica do seu reino messiânico. A princípio, podemos dizer que o Sermão do Monte foi direcionado aos discípulos (Lc 6.20), mas também à boa parte da multidão que o ouvia (Mt 7.28; Lc 6.17). Portanto, o Sermão do Monte é destinado a todo crente que nasceu de novo (2 Co 5.17).

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Quanto à questão da destinação do Sermão do Monte, isto é, a qual público Jesus o direcionou, foi e é ainda algo que muitos se digladiam quanto ao assunto. Exegetas, hermeneutas e teólogos têm debatido incansavelmente quanto ao tema, pois alguns julgam que os princípios exarados por Cristo são padrões tão elevados, absolutos, que se questionam se realmente seriam para os cristãos comuns desta terra. Os luteranos davam um conceito elevadíssimo para o Sermão do Monte, mas faziam isso dizendo que seus ideais eram tão belos que não poderiam ser realizados, de modo que Jesus os ensinou para mostrar a insuficiência humana, servindo apenas como um recurso para preparar os homens para receberem o evangelho de Cristo.

A Igreja Católica no período Medieval via tais ensinos como “conselhos evangélicos”, os quais estavam destinados para poucas pessoas, somente aquelas que procuravam a perfeição, mas não eram mandamentos para todos os cristãos. Por †m, há que se dizer ainda que, para os dispensacionalistas, os ensinos de Jesus no Sermão do Monte seriam para tempos futuros, quando escatologicamente acontecerá a chegada do seu Reino. De modo bem direto podemos dizer que o Sermão do Monte foi destinado tanto para os discípulos de Cristo em particular como também para a multidão que estava em torno dEle.

Lendo Mateus 5.1, parece que somos levados a crer que Jesus abandonou a multidão e foi ao monte e lá apresentou tais ensinos aos discípulos em particular, entretanto quando olhamos para Mateus 7.28, o que se julga é que a multidão ouviu os seus ensinamentos. O mais importante aqui é compreender o real sentido do Sermão do Monte, para que de fato entendamos a quem realmente foi dirigido.

Se analisarmos algumas citações dos versos finais do Sermão de Cristo, entenderemos que Ele desejava que todos tivessem acesso a tais ensinos, razão pela qual faz sua exigência para aqueles que são salvos (Mt 7.13,14,17,21,24,25), para os que não são (Mt 7.13,14,26,27) e incluía também os que fingem ser (Mt 7.15-20,21-23).

Os que foram transformados pelo ensino de Cristo e que desejam viver no seu Reino procuram desenvolver sua vida e conduta segundo os ensinos expostos no Sermão do Monte, sem qualquer hipocrisia e fingimento.

Muitas teorias e correntes passaram a dar suas interpretações ao Sermão do Monte, como se prova bem pelo aspecto histórico. Por isso, faz-se necessário frisarmos aqui para não enveredarmos pelo mesmo caminho. Os anabatistas entendiam que as exigências de Jesus eram tão absolutas que os que de fato quisessem obedecer-lhes jamais teriam como fazer parte de instituições políticas e sociais, isso lamentavelmente foi aceito por alguns. Outros julgavam que tais ensinos só poderiam ser desenvolvidos na prática pelo poder oriundo da cruz de Cristo, não pela capacidade humana.

Na concepção de Lutero, era possível que os cristãos colocassem todos os ensinos do Sermão em prática, por isso sua ênfase de que eles deveriam ser guardados. A interpretação da ala do protestantismo liberal é que esses ensinos seriam o coração do evangelho e que tais exposições seriam as bases fundamentais para a reforma da sociedade, conforme a visão de Jesus Cristo.

Amados irmãos, entendemos que a ética de Cristo presente no Sermão do Monte pode ser vivida e praticada por cada um de nós; claro, não por nossa própria força, capacidade, mas, sim, por meio da graça de Deus em nossa vida, pela nova posição que desfrutamos por causa da justiça de Jesus implantada em nós, de modo que não podemos jamais olhar para tais palavras como sendo impossíveis de serem cumpridas.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 24-26

 

 

Três erros

O mais importante é a interpretação do sermão do monte. Há três erros graves amplamente cometidos pela igreja no processo de compreensão do sermão. O primeiro erro ensina que nenhum mandamento ético nele aplica-se a nós hoje. Assim, o sermão é visto como uma referência à ética do reino de Deus, e, uma vez que o reino de Deus ainda não veio, o sermão é irrelevante para nós agora. Esta é uma séria distorção que parte de um equívoco igual- mente grave acerca do conceito do reino de Deus no Novo Testamento.

Jesus subiu ao céu para assumir a função de Rei dos reis; portanto, embora a consumação do seu reino esteja no futuro, pensar que ele está completamente no porvir é uma atitude que negligencia um dos principais pontos do Novo Testamento. Creio que o conteúdo do sermão do monte é muito relevante para nós hoje, bem como para os cristãos de todas as gerações. Com efeito, as virtudes nele expressas também são apresentadas nos ensinamentos dos apóstolos.

O segundo erro é considerar o sermão do monte apenas como uma nova declaração de lei na qual uma ética impossível é apresentada diante de nós a fim de revelar a necessidade do evangelho. Isso é, de fato, uma das coisas que a lei faz – expor a necessidade desesperadora que temos do evangelho – mas acredito que esta seja uma interpretação errônea da essência básica do sermão.

A pior distorção possivelmente surgiu em meio ao liberalismo do século 19. De acordo com ela, o sermão do monte trata do evangelho social. Logo, a ética de Jesus não diz respeito à redenção pessoal, mas tem apenas o objetivo de ensinar comportamento ético à igreja para que a missão dela seja servir como agente de um mero humanitarismo. Isso, naturalmente, suprime não apenas a relevância do sermão do monte, mas de todo o Novo Testamento.

Se atentarmos para 0 conteúdo do sermão do monte, veremos que, nele, Jesus designa nossa resposta a ele como o teste derradeiro pelo qual todos nós seremos julgados etemamente. Portanto, cuidemos para não sermos pe- gos na armadilha de tais concepções falsas. O sermão é a Palavra de Deus para nós hoje e para os cristãos de todos os tempos.

Sproul., RC. Estudos bíblicos expositivos em Mateus. 1° Ed 2017 Editora Cultura Cristã. pag. 57-58.

 

 

SINOPSE I

O Sermão do Monte está estruturado em cinco grandes discursos proferidos por Jesus Cristo e tem como público-alvo todos os crentes que nasceu de novo.

 

 

II- AS BEM-AVENTURANÇAS E O CARÁTER DOS FILHOS DE DEUS

 

 

1– O que são as Bem-Aventuranças?

 

A expressão “bem-aventurados” é um adjetivo plural grego, makarioi, que significa “felizes”. Essa expressão trata das qualidades presentes na vida dos que dependem de Deus, que estão sob seu domínio e soberania e seguem a Jesus com sinceridade. Ela ainda se refere tanto ao presente quanto ao futuro. Nesse sentido, o salvo está consciente das promessas divinas para o futuro, a fim de que viva piedosamente em Cristo e desenvolver as virtudes presentes no Sermão do Monte. Assim, nas palavras de nosso Senhor (Mt 5.1-11), as bem-aventuranças são o resultado da fidelidade do crente a Deus que, em qualquer circunstância, perseverar no caminho e, com isso, participa das bênçãos divinas da salvação (Ap 1.3; 14.13; 22.17).

 

 

COMENTÁRIO

 

 

O Comentário Pentecostal Bíblico do Novo Testamento7 concede uma bela definição do que sejam as bem-aventuranças: Estes pronunciamentos de Jesus obtêm o nome da palavra latina beatitudo, do substantivo relacionado com beatus, que é como a Vulgata traduz o termo grego makarios (Mt 5.3-11). Essa forma de discurso não se originou com Jesus; ocorre frequentemente nos Salmos e na literatura sapiencial do Antigo Testamento, e até os gregos tinham tais discurso. A forma se origina da literatura hebraica e judaica com que Jesus estava familiarizado […]. Ainda que a forma e espírito das bem-aventuranças provenham dos judeus, a singularidade dos ensinos de Jesus mostra que Ele cumpriu sua forma e espírito. Cada beatitude abrange três seções: o estado (i.e., bem-aventurança), a condição e a recompensa.

Pela definição dada, ainda que a forma de tal discurso não seja inovadora, Cristo a cumpriu de modo diferente, não se coadunando ao espírito dos judeus em sua forma literária. A expressão bem-aventurado, que do grego é o adjetivo makários, cuja forma prolongada vem do poético makar (significando o mesmo), quer dizer feliz. Tal expressão não pode ser totalmente compreendida no nosso português, como procede tanto do hebraico como do grego, isso em sua essência, pois a palavra significa uma benção que aquele que a pronuncia, caso realmente tenha sido transformado por Cristo, sabe do seu valor, que se revela pela virtude e no viver diário neste mundo.

Essas bem-aventuranças apontam para um novo estilo de vida que se expressa em ações e virtudes que brotam de um coração renovado por Cristo, ou seja, daquele que a vida de Cristo foi implantada em seu ser, que não vive mais segundo os padrões do mundo, mas conforme a política do Reino de Deus. É por meio dessas beatitudes que podemos realmente entender as demais mensagens desenvolvidas no corpo do Sermão do Monte, compreendendo tanto seu sentido como substância.

Há que se dizer desde então que o Sermão do Monte se tornou grandemente influente. Essa parte do evangelho tem causado grande impacto desde o segundo século. Historicamente, sabe-se que no período pré-niceno as passagens desse ensino tinham peso, elas eram citadas mais do que qualquer outra parte das Sagradas Escrituras.

Quando afirmamos que a palavra bem-aventurança traduzida para o português não revela sua verdadeira essência é porque alguns a veem simplesmente como uma pessoa feliz, pois os verdadeiramente bem-aventurados são conscientes que as beatitudes só são possíveis para quem vive a salvação em Cristo Jesus.

Nas palavras de Hunter, alguém pode expressar uma certa felicidade, ao passo que quando se fala de beatitude, é a felicidade do homem que, em comunhão com Deus, vive a vida que é realmente vida.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 27-28.

 

 

As bem-aventuranças descrevem o caráter equilibrado e diversificado do povo cristão. Não existem oito grupos separados e distintos de discípulos, alguns dos quais são mansos, enquanto outros são misericordiosos e outros, ainda, chamados para suportarem perseguições. São, antes, oito qualidades do mesmo grupo de pessoas que, ao mesmo tempo, são mansas e misericordiosas, humildes de espírito e limpas de coração, choram e têm fome, são pacificadoras e perseguidas. Além disso, o grupo que exibe estes sinais não é um conjunto elitista, uma pequena aristocracia espiritual distante da maioria dos cristãos. Pelo contrário, as bem-aventuranças são especificações dadas pelo próprio Cristo quanto ao que cada cristão deveria ser. Todas estas qualidades devem caracterizar todos os seus discípulos. Da mesma forma que o fruto do Espírito, descrito por Paulo, deve amadurecer em seus nove aspectos no caráter de cada cristão, também as oito bem-aventuranças que Cristo menciona descrevem o seu ideal para cada cidadão do reino de Deus. Ao contrário dos dons do Espírito, que ele distribui a diferentes membros do corpo de Cristo a fim de equipá-los para diferentes espécies de serviço, o mesmo Espírito está interessado em produzir todas estas graças cristãs em todos nós. Não podemos fugir à nossa responsabilidade de cobiçá-las todas.

STOTT, John. Contracultura cristã. A mensagem do Sermão do Monte. Editora: ABU, 1981, pag. 14-15.

 

 

BEM·AVENTURANÇA

No grego, Makarismo, felicidades. O substantivo aparece somente em Rom. 4:6,9 e Gâl. 4:15. O verbo, em Luc. 1:48 e Tia. 5:11, e o adjetivo por cinquenta vezes, desde Mat. 5:3 até Apo, 22:14.

Para os gregos antigos, ser bem-aventurado ou feliz (makârios) era viver livre de sofrimentos e preocupações. Os judeus entendiam a bem-aventurança principalmente em termos de bem-estar material, mas também como recompensa pela observância fiel da lei. Para o crente entretanto, a felicidade consiste na participação no reino de’ Deus. Esse último conceito ajusta-se perfeitamente à doutrina de Cristo.

Como em quase tudo o mais, Jesus veio ensinar-nos noções contrárias aquilo que os homens concebem, em seu estado de perdição e embotamento espiritual. Aquilo que o Senhor considerou bem-aventuranças ou felicidades invertem diametralmente o julgamento humano.

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 1. pag. 488.

 

 

2- O Reino de Deus e seu caráter.

 

No Evangelho de Mateus identificamos a chegada do Reino de Deus e a pregação de Jesus a respeito do Evangelho do Reino (3.2; 4.17,23). Mas o que seria o Reino de Deus? Na Bíblia, o Reino de Deus é comparado a uma semente, a qual se desenvolve ao longo do tempo (Mc 4.26-29), de modo que podemos falar a respeito de um Reino presente (Mt 5.3; 12.28; 19.14) e de um futuro (Mt 7.21,22; 25.34). A expressão Reino de Deus declara a soberania, reinado e governo de Deus atuando em tudo. Podemos ainda destacar pelo menos quatro conceitos que se referem a essa expressão na Bíblia:

a) O Reino no coração. Um reinado que ocorre dentro do coração da pessoa que se rende à soberania de Deus (Lc 17.21).

b) A chegada do Reino como salvação. Quando a pessoa passa pela experiência salvífica, desfruta de bênçãos, tanto espirituais quanto materiais, reconhece e obedece ao grande Rei (Mc 10.25,26).

c) Igreja: a expressão do Reino de Deus. Constituída de pessoas com o coração regenerado é transformado e que, por isso, reconhecem Deus como soberano, a Igreja é vista como a expressão do Reino de Deus (Mt 16.17-19). d) Toda a Criação e a volta do Senhor. A imagem bíblica do governo de nosso Senhor, em que o universo será redimido e, posteriormente, haverá novo céu e nova terra, traz consigo a dimensão do Reino de Deus (Rm 8.22,23; Ap 20.6; 21.1).

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Quando nos referimos ao caráter do Reino de Deus é preciso levar em consideração alguns pormenores. O primeiro deles é que não se trata de um reino de Deus em Cristo Jesus teocraticamente restaurado, como na visão prémilenista: um reino de Israel; nem tampouco se trata de uma nova condição social realizada por aquele que tem o Espírito Santo em sua vida, trazendo novas leis, educação, boas normas civis, como bem pensam os modernistas. Nenhuma dessas concepções figuram realmente o caráter do Reino de Deus.

Pelo aspecto bíblico, o que caracteriza o Reino de Deus é primeiramente o sentido escatológico. Porém, sabe-se também que o reino presente já acontece na vida e no coração de homens e mulheres que foram regenerados pelo Espírito Santo de Deus, os quais já podem desfrutar das bênçãos da salvação por intermédio de Cristo Jesus (Rm 14.17). Nas Palavras de Jesus, o conceito de Reino tanto tinha seu aspecto escatológico, para tempos futuros, como também para o presente (Lc 17.21). Nesse sentido, falava do Reino no âmbito espiritual.

No aspecto histórico, envolvendo alguns Pais da Igreja, a concepção que se tinha sobre o Reino era de uma realidade futura, afirmando que brevemente Jesus Iria governar em um determinado tempo, ou seja, no Milênio. Para Agostinho, contudo, o Reino tratava-se de uma realidade já presente por meio da Igreja; para os reformadores, porém, o conceito que se tem de Reino é que na presente dispensação ele está ligado à igreja invisível. É lamentável dizer, mas, o conceito escatológico futuro, assim como o presente, vai sendo escamoteado de sua própria essência, visto que por intermédio das concepções de Kant e Ritschl o Reino deixa de ter um conceito religioso, sendo visto tão somente como um reino ético de fins.

Há ainda duas coisas a serem consideradas sobre o Reino e a igreja visível e invisível. Primeiramente, vamos tratar sobre a igreja visível. É considerável que jamais se tenha em mente a ideia proposta pela Igreja Católica quanto ao Reino de Deus e a igreja, pois nela afirma-se que a Igreja pode reclamar ter o poder e o domínio sobre todas as formas de instituições neste mundo, envolvendo o comércio, a arte, a indústria e as organizações políticas e sociais. Os reformadores propuseram também uma interpretação de que, afirmando que certas manifestações da igreja, como por exemplo, entidades cristãs como escolas, organizações de trabalhadores cristãos e organizações políticas cristãs são claramente manifestações da igreja como organismo vivo, dessa maneira, tudo passa a estar debaixo do controle da igreja visível e do controle de seus oficiais.

Entendemos que a Igreja tem sim suas responsabilidades e que pode até manter com elas certas relações, como por exemplo, escolas, hospitais e ONGs. Ao fazer isso, a Igreja está demonstrando o amor de Deus em diversos setores da vida, pois os servos de Deus, com princípios cristãos, passam a manifestar as questões de interesse do Reino de Deus. Entendemos que a Igreja visível não é o Reino, porém serve de instrumento para o estabelecimento e extensão do Reino. Na verdade, o Reino tem maior amplitude do que a Igreja, ele engloba o todo, busca o domínio sobre todas as esferas da vida e é o controle absoluto em todo o mundo.

Há uma ligação plena entre o Reino e a Igreja invisível; só pode fazer parte do Reino e da Igreja invisível aquele que já foi regenerado, de modo que para se estar no Reino é preciso primeiro estar no Corpo de Cristo Jesus. Por isso que, em certos momentos, os cristão são chamados de Reino e de Igreja. Podemos compreender isso da seguinte maneira: são Reino pelo fato de todos estarem ligados a Deus por meio de Jesus Cristo, sendo que Ele passa a ser visto como o Soberano de todos, o Governador; e são chamados de Igreja porque deixaram o mundo, ou seja, separaram-se dele para viverem piedosamente para Deus relacionando-se como membros do Corpo de Cristo.

A Igreja é consciente da existência do Reino presente e vindouro, por isso passa a ser um instrumento de Deus na terra para a introdução da nova ordem que virá, como Reino ela expressa a realização ou o prefácio da ordem ideal entre ambos.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 29-31

A criação inteira é o reino de Deus. Ele é o Deus do céu, retratado como quem está sentado no trono do governo do universal (Sal. 103:19; Eze. 1:26-28), Isso, Deus faz cercado pelas hostes celestes que O servem (I Reis 22:19), cuidando de tudo e governando tudo (Sal. 33:13 3S), como o Rei Eterno (Sal. 145:13; Dan, 4:3,4). O direito que Deus tem de ser Rei deriva-se do fato de que ele é Criador de todas as coisas (Sal. 95:3-5). Sua jurisdição abrange todas as nações (Sal. 22:28; ler. 46:18).’ Ele determina quem deve governar na terra (Dan. 2:37; 4:17). Ele determina todos os sistemas e condições (Sal. 29:10; 93:1-4). O seu governo caracteriza-se pela verdade e pela retidão (Sal. 96: 13; 99:4). Deus requer que todos os seus súditos O temam e respeitem (Sal. 99:1-3; lsa. 6:5; Mal. 1:14). Nesse ponto, encontramos uma metáfora antropológica, onde o poder e a majestade do Senhor são simbolizados pela grandiosidade das cortes orientais.

A nação hebréia é o reino de Deus. Por essa razão, aquela nação tomou-se um reino de sacerdotes (Êxo, 19:6). A glória de Deus manifestava-se no templo de Jerusalém, que era lugar da autoridade de Deus, com o intuito de refletir a sua gl6ria e autoridade celestial (11 Reis 19:15). Deus governava no monte Sião ou Jerusalém (Sal. 48:2; 99:1 as). É possível que o reino de Deus fosse celebrado anualmente, em uma festa especial da colheita (Salmos 47, 93, 96, 97 e 99. Ver também Salmos 68:24). Sem importar o sentido exato do conceito, Deus como o Rei de Israel é uma noção comum no Antigo Testamento (Deu. 33:5: I Sam, 12:12; Juí, 8:23).

O reino messiânico. Esse era o reino profetizado que os judeus esperavam, o qual, segundo a-doutrina cristã primitiva, tomou-se parte do ensino sobre o milênio (que vide). Ver os comentários sobre o primeiro ponto deste verbete” que ampliam a ideia.

Conceito geral. O reino de Deus abarca todas as coisas sobre as quais- Deus exerce poder, quer o mundo e tudo que nele existe, e as vidas, homens.

Portanto, O reino de Deus pode ter um significado puramente espiritual ou ético (Luc, 17:20,21; Rom. 14:17).

O reino de Deus pode indicar salvação, vida eterna. No evangelho de João, a expressão reino de Deus» é praticamente equivalente à salvação, ou vida eterna (10103:3-5). Nesse trecho, a expressão reino de Deus» aparece como a salvação transcendental, ou seja, a vida eterna que um homem não pode possuir sem o novo nascimento. Pelo tempo em que o evangelho de João foi escrito, isto é, depois da destruição de Jerusalém, para muitos crentes já havia desaparecido a esperança da inauguração de algum reino político no futuro previsível, ainda que muitos deles preservassem tal esperança sob a forma da doutrina do milênio, vinculada à parousia (que vide).

Por essa razão é que, no evangelho de João, o reino político não mais ocupa qualquer posição. Ali, a salvação no outro mundo é o reino de Deus.

À Igreja cristã. No trecho de Colossenses 1:13, a expressão «reino de Deus» indica a Igreja cristã, na qual estão investidas todas as esperanças humanas de participação no futuro reino celeste. Esse é o uso popular da expressão, em nossos dias.

A vida cristã. Quando bem vivida, no sentido de I Corlntios 4:20. Deus governa os corações humanos, através do seu Espírito, e assim infunde neles o seu reino.

As virtudes cristãs cardeais. Estão em foco a justiça, a paz e a alegria, mediante o poder do Espirito (Rom. 14:17). Esse uso é discutido em uma porção distinta deste artigo, a terceira porção.

Os crentes como o reino de Deus. Esse é um uso paralelo daquele descrito no segundo ponto deste verbete. A nação hebreia era o reino de Deus, e agora os crentes, judeus ou gentios tornaram-se esse reino.

O futuro Governo de Deus. Esse governo será absolutamente universal. – Deus tornar-se-á então tudo para todos, preenchendo tudo (I Cor. 15:28). A restauração geral terá assim o seu cumprimento, e isso através da missão universal do Verbo de Deus (Efé. 1:10). Em última análise, coisa alguma ficará fora do poder remido e restaurador do Lagos, do que resultarão a unidade e a harmonia finais. Esse é o mistério da vontade de Deus (que vide).

CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 5. pag. 623-624.

 

 

A ética do reino. Reconheceu o reino de Deus implica na aceitação do tipo de comportamento que ele prescreve. Isso significa submissão às exigências concretas do rei (Mt 5.19) e a produção de um caráter mais reto do que o de homens como os fariseus e escribas (5.20; cp. 13.43). Deve haver uma resoluta determinação de vencer a tentação, (Mc. 9.47) e a disposição de estender aos outros o perdão que Deus concede a seu povo (Mt 18.23ss.). O escriba, que reconheceu a primazia do amor por Deus proveniente do coração e por seu próximo acima dos sacrifícios, foi declarado não estar longe do reino (Mc 12.34).

Weiss e Scweitzer erraram em pensar que essa ética de Jesus era um ensino condicionado puramente pela iminente aproximação do fim do mundo, um conjunto de regras rígidas a serem observadas em um tempo de crise, mas impróprio para o dia a dia. Mas não é a proximidade de uma crise que determina o conteúdo da ética de Jesus, mas antes a proximidade de Deus; e o que é requerido não é algo que possa ser cumprido somente por homens que são estimulados pela expectativa de crise iminente, porém é antes a imutável exigência de Deus ao seu povo. A ética vem com nova força no contexto da pregação do reino, e é mais radicalmente expressa do que seria possível no código legal do Pentateuco, mas ela permanece a mesma ética que é encontrada no AT.

Mais uma vez deve-se tomar o cuidado de considerar que a ética é uma “condição” de entrada no reino, como se Deus estivesse declarando certas qualidades de caráter como requisitos para a entrada. A mensagem de Jesus era o Evangelho da graça, e a ética expressa a resposta que os homens deveriam dar ao Evangelho. E o modo de vida para aqueles que já aceitaram o governo de Deus e experimentado suas bênçãos e que agora olham esperançosos para a consumação de seu governo.

MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 1. pag. 121-122.

 

 

3- Os súditos do Reino de Deus.

 

A primeira seção do Sermão do Monte (5.1-12) destaca oito qualidades que formam o caráter dos súditos do Reino de Deus:

1) O quebrantamento;

2) O choro;

3) A mansidão;

4) A retidão (justiça);

5) A misericórdia;

6) A pureza;

7) A pacificação;

8) A perseguição por causa dos valores do Reino.

Logo, espera-se que os filhos de Deus manifestem essas qualidades espirituais na vida cristã pois, sem elas, não poderemos participar do reinado divino (Mt 3.8-10). Portanto, ao praticar essas qualidades do Reino, seremos chamados de “bem-aventurados”, isto é, verdadeiramente felizes.

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Aqueles que desejam fazer parte do Reino de Deus precisam primeiramente se submeter ao seu querer, à sua vontade, por isso Jesus nos ensinou a orar assim: “venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu (Mt 6.10, ARA). Só pode fazer essa oração aquele que realmente já passou pelo novo nascimento, que é a condição necessária para ser admitido no Reino (Jo 3.3,5). O novo nascimento trata da conversão em relação ao Reino (Mt 18.3) e, como anteriormente mencionamos, não se pode fazer parte do Reino nem da Igreja se não estivermos ligados a Cristo, o que só é possível pelo novo nascimento.

Os súditos do Reino evidenciarão as mais belas qualidades, ou melhor, as beatitudes, porque já passaram pela regeneração, atenderam à mensagem e se arrependeram, o que pode ser bem compreendido por meio da palavra metánoia, a qual mostra que mudaram suas ideias, pensamentos, abandonaram as más ações, estando prontos para viver uma nova vida e andar em um novo caminho, pois tomaram conhecimento de seus pecados e os rejeitaram de uma vez, fazendo como bem falou o profeta Isaías, para deixar seus pecados, sair dos maus caminhos (Is 1.16,17; 55.7).

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 31-32.

 

 

As bem-aventuranças, como são geralmente chamadas, são descrições numa forma exclamatória das qualidades que devem ser encontradas, todas elas, e de fato o são, em vários graus, na vida dos que se submetem ao domínio soberano de Deus. Elas são também uma declaração das bênçãos que já experimentam em parte e que irão gozar mais plenamente na vida futura todos os que revelem tais virtudes, O tempo verbal futuro usado na descrição daquelas bênçãos nos versos 5 — 9 enfatiza sua certeza, e não simplesmente o seu aspecto futuro. Os que choram serão certamente consolados, etc. As bem-aventuranças em Mateus parecem ser oito em número, pois no verso 11 Jesus abandona a forma exclamatória “ bem-aventurados são” e aborda os discípulos diretamente com as palavras Bem-aventurados sois (vós). As oito qualidades aqui indicadas, quando integradas umas às outras (nenhuma delas pode sequer existir de fato sem as demais) formam o caráter daqueles que, únicos, serão aceitos pelo divino Rei como seus súditos (3, 10), os únicos que o poderão ver, sendo ele invisível (8), os únicos dignos de serem seus filhos (9).

Consequentemente, qualquer pessoa que se diga filho de Deus, ou que diz conhecê-lo, ou pertencer ao seu reino, ou ser membro de seu corpo, a Igreja; em suma, todos aqueles em que seja notória a ausência destas qualidades, é “mentiroso e não conhece a verdade”. Muitas destas qualidades já haviam sido consideradas como benditas pelo salmista. Mas quando foram combinadas por Jesus, formando uma espécie de mosaico do caráter cristão, ele realizou um benefício ímpar.

TASKER, R.V. G. Mateus: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, pag. 47-48.

 

 

Diante da pergunta a quem se dirige o sermão do Monte, respondemos que se dirige aos discípulos. São eles os interpelados. Por isso o Senhor, de acordo com Lucas (6.20), dirige “seus olhos” para eles e diz: “Felizes são vocês”! E Mateus diz: “Aproximaram-se dele os seus discípulos”. Entretanto, como Jesus gostaria que também as multidões ouvissem o que ele diz, ele abre a sua boca, o que significa que falou em voz alta. Todos eles devem saber o que Jesus diz àqueles que são seus discípulos e espera deles. Quanto às multidões, o final do sermão do Monte diz: “Estavam assustadas da sua doutrina, porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como seus escribas”. Os ouvintes do sermão do Monte, portanto, são dois grupos: os discípulos e o povo.

Porém o ensino dirige-se aos discípulos. Por isso o sermão do Monte é doutrina para os seguidores. Expõe diante dos olhos de todos os discípulos, e por extensão também diante da comunidade de Jesus na terra, os princípios pelos quais precisa guiar-se a nova vida de fé. – Por ser doutrina para os discípulos, é injustificada qualquer generalização das exigências do discurso do monte para além do círculo dos seguidores. O não-cristão estaria sobrecarregado. Mas não somente ele. O próprio cristão que está no discipulado não pode cumprir a partir de si as exigências de Jesus. Com a constatação de que somos totalmente incapazes de realizar o que o Senhor requer, avançamos para o verdadeiro ponto central da nova vida. Todas as religiões do mundo esforçam-se por estabelecer normas cujo cumprimento permanece nas esferas do humanamente alcançável. Jesus, e com ele o NT, exigem algo humanamente impossível. Por que o Senhor faz isso? Para que fique revelado que, a partir de nós próprios, não somos nem podemos nada.

Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Mateus. Editora Evangélica Esperança. 1° Ed. 1998.

 

 

SINOPSE II

Cada bem-aventurança é um traço do caráter de quem vive os valores do Reino de Deus.

 

 

AUXÍLIO TEOLÓGICO

O Segredo da Felicidade

“A expressão ‘bem-aventurado’ oferece a chave para a verdadeira felicidade oferecida pelo Mestre. A palavra, no original grego, significa a bênção divina em contraste com a felicidade humana. Esta bem-aventurança descreve o estado de vidas em retidão: aqueles humildes, mansos, misericordiosos, puros de coração e pacíficos. Jesus ensina não depender da felicidade por Ele oferecida do que temos ou fazemos, mas do que somos; e não pode ser importada, mas precisa nascer da alma. O mundo tem o seu próprio conceito de bem-aventurança, onde feliz é o homem forte, rico, popular e satisfeito consigo mesmo. Quando Jesus anunciou seu segredo, aquelas palavras soaram de forma estranha a muitas pessoas, pois descreviam um modo de viver que lhes parecia impraticável” (PEARLMAN, Myer. Mateus: O Evangelho do Grande Rei. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p.30).

 

 

III- SOMOS BEM-AVENTURADOS

 

 

1- A beatitude na vida dos salvos.

 

Salvo em Cristo, o seguidor de Jesus vive a beatitude (isto é, estado permanente de perfeita satisfação e plenitude; estado de felicidade e serenidade) do Sermão do Monte de maneira bem-aventurada. Isso ocorre porque o discípulo de Jesus desfruta do favor de Deus e manifesta atitudes que mostram coerência com a ética do Reino de Deus: humildade, mansidão, retidão, misericórdia, pureza, pacificação, disposição para o perdão (Mt 5.1-12). É possível todo crente agir por meio dessas atitudes, pois quem passou pela experiência da salvação é transformado interiormente pela Palavra de Deus (Hb 4.12).

 

 

COMENTÁRIO

 

 

Passando pela regeneração, o cristão salvo irá evidenciar qualidades que expressam sua real condição em Cristo Jesus, do íntimo do seu ser trará para o lado externo o que foi implantado por Cristo. Essas bem-aventuranças mostram doravante o quanto tal pessoa vive dentro da vontade do Senhor, o que prova sua nova vida. Quando lemos o Salmo 1, ele descreve o homem bem-aventurado que rejeita todo o procedimento daqueles que não vivem segundo à vontade do Senhor.

O substantivo masculino ‘esher, felicidade, bem-aventurança, como consta em Salmos 1.1, na verdade, trata-se de um construto plural, as felicidades de… Pela leitura do Salmo, essa felicidade resulta não de um esforço próprio do homem, mas, sim, da confiança plena que deposita grandemente em Deus, vivendo segundo a sua Palavra (Sl 34.8; 119.1,2). Importante ressaltar que quando dissemos que esse termo no português não dá a precisa definição que consta tanto no hebraico como no grego, é que fora de Deus não se pode ter a verdadeira felicidade, e que ela acompanha também a santidade.

Há pessoas que podem expressar ter sua felicidade por meio de uma filosofia ou estilo de vida, todavia, a bem-aventurança do cristão resulta de sua comunhão e fidelidade para com Deus, de modo que ela pode ser vivida e expressada em qualquer circunstância da vida, pois quem faz isso é o poder operante do Espírito Santo na vida do crente salvo.

A felicidade do crente não resulta de seu próprio esforço e não está dentro de si mesmo o que ele deseja, ela vem de cima, a partir de uma nova natureza que é implantada no seu ser (Jo 3.5). Assim, procedendo conforme a Palavra de Deus e obedecendo-lhe, o crente desfruta das bençãos que acompanham a salvação e na sua vida as bem-aventuranças estarão presentes (Ap 1.3; 14.13; 16.15; 19.9; 20.6; 22.7,14).

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 32-33.

 

 

Abençoados

O início do sermão do monte é repleto de bem-aventuranças. Elas também são chamadas de “beatitudes” porque, na versão latina do Novo Testamento, a palavra beati – traduzida como “abençoado” – significa simplesmente um pronunciamento de bem-aventurança àqueles que es- tão inclusos nas categorias citadas. Vemos esta expressão, “Bem-aventurados [..] sendo empregada várias vezes por Jesus nas beatitudes e no sermão do monte. Algumas traduções modernas usam a expressão “Felizes […]”, a qual é uma escolha insatisfatória, porque não abrange a intensa profundidade espiritual – ou seja, este é um aspecto ausente na palavra feliz. A felicidade certamente é um elemento da bem-aventurança, mas não um elemento exaustivo.

Os profetas do Antigo Testamento e Jesus, 0 profeta do Novo Tes- tamento, utilizam uma forma literária específica de discurso. Quando faziam um anúncio, ele era considerado “a palavra do Senhor”, porque Deus havia colocado suas palavras na boca desses homens. Os profetas anunciavam desgraça e prosperidade, ou o que chamamos de “oráculos de julgamento” e “oráculos de salvação”. Estes oráculos eram pronuncia- mentos divinos, semelhantes aos que os gregos acreditavam receber do oráculo de Delfos. Os profetas hebreus utilizavam o oráculo para anunciar a palavra de Deus. O oráculo de julgamento era introduzido pela palavra ai. Jesus faz uso da mesma forma literária ao advertir os fariseus sobre o juízo iminente: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas” (Mt 23.13). Em seguida, ele os castiga por sua pecaminosidade. No livro de Apocalipse, quando a grande hora do juízo chega, um anjo aparece voando e diz: “Ai! Ai! Ai […]” (Ap 8.13). Quando Deus anuncia julga- mento, não é possível imaginar pior calamidade. As bem-aventuranças, por outro lado, são oráculos de salvação, não de julgamento, e a forma literária empregada pelos profetas para descrever este favorecimento divino era a expressão “bem-aventurado”.

Essa expressão aparece em toda a Escritura Sagrada. O livro de Salmos começa com uma bem-aventurança: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escamecedores. Antes, 0 seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite” (SI 1.1 -2). A consequência da bem-aventurança não é algo que se ganhe ou conquiste; ela flui da devoção à Palavra de Deus.

Quando Gabriel foi até Maria e anunciou que ela seria mãe do Filho de Deus, ele disse: “Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo” (Lc 1.28). Quando Maria visitou Isabel, a criança que esta levava no ventre – João Batista – pulou de alegria com a proximidade de Jesus. Isabel disse a Maria: “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1.42). Uma parte do terço católico romano diz assim: “Ave Maria, cheia de graça, bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”. Ave Maria é uma simples saudação, uma saudação feita por Gabriel a Maria para comunicar-lhe que ela era bendita entre as mulheres. Embora os protestantes não adotem a teologia que apoia a veneração de Maria na Igreja Católica Romana, nós certamente concordamos com o fato de que a mulher mais bendita na história foi a mãe de Jesus. O Novo Testamento está correto ao registrar Isabel dizendo: “Bendita és tu”. Ser “bendita entre as mulheres” significa receber um favor singular da graça de Deus, e todos aqueles que recebem a visita do Espírito Santo experimentam esse estado de bem-aventurança.

A bênção hebraica clássica, expressa em uma forma poética chamada paralelismo, faz uma descrição da bem-aventurança bíblica. Ela é composta por três versículos, sendo que cada um deles repete a afirmação do primeiro com palavras diferentes. Esta benção é uma bem-aventurança:

O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz (Nm 6.24-26).

A bênção suprema prometida a nós no Novo Testamento é que, no céu, veremos Deus face a face. A isso chamamos “visão beatífica”, uma visão que inundará nossa alma com o mais elevado grau de bem-aventurança imaginável. É por tudo isso que não me satisfaço com a palavra feliz como tradução para os pronunciamentos de Jesus no sermão do monte. Ser abençoado por Deus é receber benefícios espirituais que duram para sempre, e é isto o que Jesus anuncia aos diversos grupos mencionados no sermão.

Sproul., RC. Estudos bíblicos expositivos em Mateus. 1° Ed 2017 Editora Cultura Cristã. pag. 58-60.

 

 

“Bem-aventurados”. A palavra bendito traduz mais precisamente o verbal grego, como em Lucas 1.68 (no louvor de Zacarias a Deus: “bendito”); ou o particípio passivo perfeito como em Lucas 1.42 (na saudação de Isabel a Maria: “bendita”) e em Mateus 21.9 (o clamor das multidões enquanto Jesus entrava em Jerusalém: “bendito”). Ambas as formas vêm de “falar bem de”. Maxápim é um adjetivo que significa “feliz”. “Claro que bem-aventurança é algo infinitamente mais sublime e melhor que mera felicidade”, segundo afirmou Weymouth. Desta forma, elevamos o termo bem-aventurados (ou benditos) a um patamar mais alto que felizes.

Mas o que Jesus disse foi “felizes”. A palavra grega é tão antiga quanto Homero e Píndaro. Era usada para caracterizar os deuses gregos e também os homens, mas na maioria das vezes em alusão à prosperidade externa. Em Apocalipse 14.13, é aplicada aos que morreram no Senhor. O Antigo Testamento na versão LXX usa a palavra para referir-se à qualidade moral. “Livrando-se de todos os pensamentos de bem exterior, toma-se o símbolo expresso de uma felicidade identificada com o caráter puro. Por trás disso, acha-se a cognição clara do pecado, como a origem principal de toda miséria, e da santidade, como a cura final e eficaz para toda desgraça. Quanto ao conhecimento como a base da virtude e, portanto, da felicidade, essa palavra substitui a fé e o amor.” Jesus põe a palavra felizes em um ambiente repleto de significado. “Esta é uma das palavras que foram transformadas e enobrecidas pelo uso do Novo Testamento; por associação, como nas Beatitudes, a situações incomuns, consideradas ruins pelo mundo, ou por associação a situações raras e difíceis.” Pena que não mantivemos a palavra felizes no patamar alto e santo onde Jesus a colocou.

“Já que vocês conhecem esta verdade, serão felizes se a praticarem” (Jo 13.17, NTLH). “Felizes são os que não viram, mas assim mesmo creram!” (Jo 20.29, NTLH). Paulo aplica esse adjetivo a Deus: “Conforme o evangelho da glória do Deus feliz” (1 Tm 1.11, tradução minha; ver também Tt 2.13). O termo beatitude (latim, beatus) chega perto do significado que Jesus dá aqui. Será recompensador fazermos um estudo meticuloso de todas as “beatitudes” no Novo Testamento, onde consta a palavra. Ocorre nove vezes em Mateus 5.3-11, embora as beatitudes nos versículos 10 e 11 sejam muito semelhantes. Nestas nove ocorrências não constam o elemento de ligação. Em cada caso, é dada uma razão para a beatitude, “porque”. Isso mostra a qualidade espiritual envolvida em cada beatitude. Algumas das frases que Jesus emprega aqui ocorrem nos Salmos; outras estão no Talmude, um escrito judaico rabínico surgido depois do Novo Testamento. Este fato não é de pouca monta. “A originalidade de Jesus acha-se em dar o devido valor a estes pensamentos, reunindo-os e tornando-os tão proeminentes quanto os Dez Mandamentos. Não há maior serviço que se faça à humanidade do que resgatar da obscuridade os conceitos morais comuns que são menosprezados.” Jesus repetia as suas declarações muitas vezes, como fazem os grandes mestres, mas este sermão tem unidade, progresso e acabamento. Não contém tudo que Jesus ensinou, mas se destaca como o maior sermão de todos os tempos em sua perspicácia, pungência e poder.

T. ROBERTSON. Comentário Mateus & Marcos. À Luz do Novo Testamento Grego. Editora CPAD. pag. 66-67.

 

 

2- A prova de que o cristão é bem-aventurado.

 

O cristão que pratica as oito beatitudes do Sermão do Monte domina o “eu carnal”, vive em Cristo, entra numa nova dimensão espiritual e vive a bondade de Deus (G12.20; Fp 3.7-8; Rm 12.2). Assim, no Sermão do Monte, Jesus Cristo ensina que a verdadeira felicidade nada tem a ver com o que o homem moderno deseja: dinheiro, ambição e poder. A felicidade bíblica se revela em quem ama o seu inimigo, bendiz o que maldiz, faz o bem ao que o odeia e orai pelos que o maltratam e perseguem (Mt 5.44).

 

 

COMENTÁRIO

 

 

É por meio das bem-aventuranças que se pode constatar que o crente realmente é uma nova pessoa, pois elas descrevem sua verdadeira condição espiritual, não esboçando qualquer atitude de grandeza, superioridade ou orgulho, mas, sim, de humildade, o que é aprovado por Deus (Tg 4.6). Os humildes de espírito sempre reconhecem sua pobreza espiritual, por isso voltam-se para Cristo, que supre tais necessidades e os faz herdeiros do Reino.

Aqueles que realmente estão vivendo a nova vida proposta por Cristo continuam a expressar tais condições no seu viver diário, evidenciando fome e sede de justiça, ou seja, paixão profunda pela justiça pessoal, não desejando proceder espiritualmente como os escribas e fariseus (Lc 18.9), mas tendo uma nova justiça (Mt 5.20), a qual vem de Cristo Jesus.

Mais provas de que o crente é realmente abençoado são primeiramente por seus atos de misericórdia (Sl 18.25), ou seja, são sempre piedosos para com todos e fazem isso porque seus corações estão limpos de todos os pecados. Na verdade, isso se dá porque a natureza pura de Deus foi implantada em seu interior, de modo que não demorará para vê-lo em breve (1Co 13.12).

O cristão salvo é um pacificador, porque tem no seu ser a natureza de Deus em Cristo Jesus. Por esse motivo, sempre será honrado (Is 9.6; Hb 13.20). Por fim, por causa da justiça, é perseguido, mas não se entristece, porquanto conhece pela Palavra que, quando da implantação do Reino messiânico, toda essa injustiça será desfeita, tendo plena consciência de que a vingança pertence a Deus (Rm 12.19).

Todas essas qualidades são as provas reais de que o crente realmente é bem-aventurado, assim podemos fechar esse ponto citando John Stott,8 que falando sobre as bem-aventuranças pontua:

As bem-aventuranças definem o caráter de um cristão, um seguidor de Cristo.

Não se trata de oito tipos separados e distintos de discípulos – alguns que são humildes, outros que são misericordiosos e ainda outros que são chamados a sofrer perseguição. Em vez disso, são oito qualidades a serem encontradas na mesma pessoa – uma que seja humilde e misericordiosa, pobre em espírito e pura de coração, chore e tenha fome, seja pacificadora e perseguida, tudo ao mesmo tempo. Além disso, aqueles que exibem essas marcas não são precisamente um grupo elitista, um conjunto de santos espirituais ou líderes da Igreja que vivem acima dos cristãos comuns. Pelo contrário, as bem-aventuranças são a própria especificação de Jesus sobre o que cada cristão deveria ser. Todas essas qualidades devem ser características de todos os seus seguidores.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 34-35.

 

 

Porque é grande o vosso galardão nos céus. Disso poderíamos deduzir que a comunidade sofre tantas coisas porque, afinal, será recompensada, porque em última análise representa o pensamento de mérito e recompensa dos fariseus, devotando-se novamente à justificação pelas obras. Mas esse é um grande erro. O texto não se refere ao consolo por uma recompensa no além. Na expressão “nos céus” podemos certamente interpretar: “reinado dos céus”. Como já dissemos, esse reinado dos céus consiste de duas esferas, uma já iniciada e outra ainda futura. Ambas existem simultaneamente, sobrepõem-se, situam-se lado a lado e não uma depois da outra.

Logo, não se deveria falar de um sequência temporal das duas esferas e da posterior recompensa, mas da simultaneidade do sacrifício de sofrimento dos discípulos e da aceitação pelo Senhor já agora. Em outras palavras: Quando aqui se está rejeitando, lá se está reconhecendo. Enquanto aqui em baixo as pessoas ferem os discípulos, o Senhor os trata e cura. Enquanto aqui as pessoas lhes causam injustiça, o Senhor lhes faz o bem sem cessar, já aqui e agora, mas de forma inicial (incógnita). Porém então o fará de modo pleno (público), glorioso e grandioso, para todas as eternidades.

Seria melhor traduzir a palavra “recompensa” com retribuição no sentido de gratidão, de presentear com glória divina imerecida. Esse presente da glória de Deus será conferido ao seguidor de Cristo realmente, i. é, visivelmente para todas as eternidades, sem fim, em crescente plenitude. Um presente desses não está em nenhuma proporção com nosso sofrimento e trabalho para o Senhor. Por isso não se pode falar de interpretar a palavra “recompensa” no sentido de “pagamento por um serviço prestado”!

Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Mateus. Editora Evangélica Esperança. 1° Ed. 1998.

 

 

SINOPSE III

O Sermão do Monte esclarece que as bem-aventuranças são a verdadeira felicidade para quem nasceu de novo.

 

 

AUXÍLIO VIDA CRISTÃ

“DONO DA MANEIRA COMO PENSAMOS

Como cristãos, temos de entregar a mente de forma que Jesus se torne o dono do modo como pensamos os. Mas entregar a mente não significa que paramos de pensar. Nada disso. Os cristãos podem e devem estar entre as pessoas mais lógicas, racionais e intelectualmente curiosas do mundo. Lembre-se de que Deus criou a mente, e ele espera que a usem os no máximo das nossas habilidades! […] Entregar a mente para Cristo significa escolher Jesus como mentor ou mestre. Significa confiar na sua sabedoria com o guia para a vida. Significa confiar que o modo como Ele entende e tornar entendível o mundo é verdade, preciso e suficiente. Se você escolhe crer no que Jesus crê, ordenar a vida de acordo com os princípios que Ele ensina e oferecer a vida a serviço dEle, você está entregando a mente a Cristo” (TOLER, Stan. Repense a Vida: Uma Dieta Incomparável para Renovar a Mente. 1°ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p.26).

 

 

CONCLUSÃO

O Sermão do Monte é a base ética do Reino de Deus. Nele, constatamos o lado divino de uma atitude amorosa do cristão para com Deus, bem como para com o próximo. Se cada crente fizesse do Sermão do Monte o seu norte ético de vida, as polêmicas não teriam lugar entre nós, não haveria espaço para meras opiniões intelectuais, visto que o propósito deste sermão é que cada crente seja como Deus quer que ele seja.

 

 

VOCABULÁRIO

Intelectiva: relativo ao intelecto, à inteligência; intelectual, mental.

 

 

REVISANDO O CONTEÚDO

 

1- O que a introdução do capítulo 5 de Mateus anuncia?

A introdução do capítulo 5 de Mateus (os dois primeiros versículos) anuncia o título do Sermão do Monte.

 

2- Como podemos considerar os ensinos do Sermão do Monte?

Os ensinos do Sermão do Monte podem ser considerados princípios esboçados por Cristo que revelam a verdadeira característica do seu reino messiânico.

 

3– Qual o significado da expressão “Bem-aventurados”?

A expressão “bem-aventurados” é um adjetivo plural grego, makarioi, que significa “felizes”. Essa expressão trata das qualidades presentes na vida dos que dependem de Deus, estão sob seu domínio e soberania e seguem a Jesus com sinceridade.

 

4- O que podemos identificar no Evangelho de Mateus?

No Evangelho de Mateus identificamos a chegada do Reino de Deus e a pregação de Jesus a respeito do Evangelho do Reino (3.2; 417,23).

 

5- Com o que o Reino de Deus é comparado na Bíblia?

Na Bíblia, o Reino de Deus é comparado a uma semente, a qual se desenvolve ao longo do tempo (Mc 4.26-29), de modo que podemos falar a respeito de um Reino presente (Mt 5.3; 12.28; 19.14) e de um futuro (Mt 7-21,22 ; 25.34).

 

 

 

ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

 

 

Acesse mais:  Lições Bíblicas do 1° Trimestre 2022 

 

                                  Acesse nossos grupos e tenha mais conteúdo:

Muito conteúdo sobre a Supremacia das Escrituras sem sobrecarregar seu celular.
Grupo no Telegram
Acesse mais Conteúdo pelo Telegram
Grupo no WhastsApp
Mais conteúdo pelo WhatsApp
Please follow and like us:
Pin Share

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *