4 LIÇÃO 2 TRI 22 RESGUARDANDO-SE DE SENTIMENTOS RUINS

 

 

4 LIÇÃO 2 TRI 22 RESGUARDANDO-SE DE SENTIMENTOS RUINS

 

TEXTO ÁUREO

 

“Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo (Mt 5.22)

 

 

VERDADE PRÁTICA

 

A cólera e a ira não podem dominar o coração do crente. Elas devem ser evitadas e vencidas com o ensino do Evangelho

 

LEITURA DIÁRIA

 

Segunda – Mt 5.21 Um mandamento que preserva e sacraliza a vida

 

Terça – Mt 5.22 O verdadeiro alcance do sexto mandamento

 

Quarta – 1 Jo 3.15 Quem aborrece o seu irmão é homicida

 

Quinta – 1 Jo 4.20 Quem diz amar a Deus, mas aborrece seu irmão, é mentiroso

 

Sexta – SI 66.13-20 Entregue a sua oferta com um coração puro

 

Sábado – 1 Co 6.1,5 Os cristãos devem ter maturidade para resolver as desavenças

 

 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

 

Mateus 5.21-26

 

21 – Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.

 

22 – Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raça será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno.

 

23 – Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,

 

24 – deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem, e apresenta a tua oferta.

 

25 – Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão.

 

26 – Em verdade te digo que, de maneira nenhuma, sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil.

 

 

Hinos Sugeridos: 35,4. 2,4.6 da Harpa Cristã

 

PLANO DE AULA

1- INTRODUÇÃO

A presente lição mostrará que o Evangelho do Senhor Jesus tem uma dimensão moral muito bem delimitada. Nesse sentido, essa dimensão moral não abre margem para que sentimentos hostis ao Evangelho façam parte da vida interior do crente. Veremos que evitar a cólera é uma atitude sábia para evitar pecados trágicos como o do homicídio.

 

 

2- APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição:

I) Expor que o Evangelho não é Antinomista;

II) Pontuar que a cólera é o primeiro passo para o homicídio;

III) Correlacionar o ato de ofertar com a desavença.

B) Motivação: Muitas pessoas praticam ações trágicas por causa dos atos precipitados e impensados. Se houvesse uma pausa, ou se desviasse o pensamento por alguns instantes, o mal não ocorreria. As consequências da cólera, da ira estão por todos os lados: trânsito, banco, filas de espera etc.

C) Sugestão de Método: Selecione cenas de agressividade no trânsito ou numa fila. Apresente essas cenas em classe e solicite os alunos que as analisem. Pergunte-lhes se vale mesmo a pena desperdiçar energia com coisas que, geralmente, uma boa e educada conversa resolveria. Contraste sempre essas cenas com os valores opostos que a lição apresenta.

 

 

3- CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: Ao final da aula, solicite aos alunos a realizarem uma autoanálise. Como tem sido o comportamento no trânsito? Quantas vezes no dia eles perceberam a presença do sentimento de ira ou da cólera? Eles têm consciência de que esses sentimentos fazem mal à saúde emocional? Por que no lugar dessas emoções ruins e pesadas, não cultivar sentimentos nobres da Palavra de Deus?

 

 

4- SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas. Na edição 89, p.38, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final dos tópicos, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula:

1) O auxílio localizado ao final do segundo tópico traz um aprofundamento da questão tratada no tópico a respeito do sentimento da raiva;

2) O texto que encontra-se ao final do terceiro tópico é uma proposta que pode auxiliar você na aplicação da lição, pois ele revela as dimensões práticas que o seguidor de Jesus deve observar na caminhada cristã.

 

 

INTRODUÇÃO COMENTÀRIO

 

Nesta lição aprenderemos com o Mestre Divino que o Evangelho não é antinomista (a partir da explicação desse conceito), que a cólera é a antessala do homicídio e que para devotar na nossa vida a Deus, precisamos nos reconciliar com o próximo. Veremos que o nosso Senhor colocou em alta conta o valor da pessoa humana e, por isso, a seção bíblica de Mateus 5.21-26 será o objeto de nosso estudo.

 

 

COMENTÀRIO

 

 

Neste capítulo, abordaremos a primeira temática dos seis pontos importantes que serão tratados por Cristo Jesus. A forma como Ele introduz os seus ensinos deixa claro o que quis dizer aos seus discípulos sobre a justiça deles ultrapassar a dos escribas e fariseus. Outro ponto relevante nos versículos que analisaremos é que Jesus faz uma distinção clara entre a forma como Ele e os seus opositores interpretavam a Lei.

É preciso entender que em momento algum Jesus será antagonista a Moisés, pois, como dito anteriormente, Ele tinha consciência de que a Lei e os profetas eram a Palavra de Deus. Sua intenção era mostrar a fragilidade da interpretação dos escribas e dos fariseus.

Podemos declarar que a partir de agora a lâmina de Cristo será bem afiada e o corte profundo, atingirá o âmago da essência humana, o coração, de onde procede o pecado (Mt 15.19). Ele atacará a interpretação mórbida dos escribas e dos fariseus, condenando-os, depois mostrará o que de fato a Lei de Deus propõe ao homem. No teor desse capítulo, nosso alvo é mostrar que o evangelho não é contra a Lei e que toda ação positiva ou negativa realizada pelo homem começa primeiramente no coração.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 71-72.

 

 

Até então, Jesus falara sobre o caráter do cristão e sobre a influência que este teria no mundo, caso manifestasse tal caráter, produzindo, assim, o fruto de “boas obras”. Agora, ele prossegue definindo melhor este caráter e estas boas obras em termos de justiça. Ele explica que a justiça, já duas vezes mencionada, e da qual os seus discípulos têm fome (v. 6) e por cuja causa eles sofrem (v, 10), é uma correspondência à lei moral de Deus e ultrapassa a justiça dos escribas e fariseus (v. 20). As “boas obras” são obras da obediência. Ele começou o seu Sermão com as bem-aventuranças na terceira pessoa (“Bem-aventurados os humildes de espírito”); continuou na segunda pessoa (“Vós sois o sal da terra”); e, agora, muda para a primeira pessoa, usando, pela primeira vez, sua fórmula característica e dogmática: Porque… (eu) vos digo (vs. 18 e 20). Este parágrafo é de grande importância, não só por causa da definição que ele dá da justiça cristã, mas também por causa da luz que lança sobre a relação entre o Novo e o Velho Testamento, entre o Evangelho e a lei. Divide-se em duas partes: primeiro, Cristo e a lei (vs. 17, 18) e, segundo, o cristão e a lei (vs. 19, 20).

STOTT, John. Contracultura cristã. A mensagem do Sermão do Monte. Editora: ABU, 1981, pag. 33.

 

 

John C. Maxwell diz que “o caráter nos permite fazer o que é certo mesmo quando parece difícil. A perspectiva nos permite entender o que deve acontecer para que um objetivo seja atendido. A coragem nos permite tomar iniciativa e correr riscos para andar na direção de um objetivo que valha a pena. A consideração nos permite atrair e dar poderes aos outros para se juntarem a nós na causa”.

Creio que é o nosso caráter que nos leva a praticar o Sermão do Monte proclamado pelo nosso Senhor Jesus. Sozinhos não conseguimos ser fiéis, verdadeiros nas atitudes, sem espírito de vingança e com um coração puro. Diante dessa realidade, vejamos as dicas de Jesus sobre a prática da justiça na vida diária.

Alcindo Almeida,. Vida sincera, O Sermão do Monte. São Paulo: Editora Fôlego, 1 Ed 2013.

 

 

Palavra-Chave: SENTIMENTO

 

 

I- O EVANGELHO NÃO É ANTINOMISTA

 

 

1- O que é Antinomismo?

 

A palavra nos fornece a própria definição: constituída do grego Anti, que quer dizer “contra”; e nomos, “lei”; diz respeito a tudo contrário à lei, normas e regras. A palavra traz a ideia de que os cristãos não precisam obedecer à lei moral do Antigo Testamento. Defensores antinomistas dizem que a Lei não teve origem em Deus Pai e que, por isso, ela deve ser rejeitada. Há os que dizem que Deus havia determinado por decreto a existência do pecado, de modo que jamais se pode evitá-lo, por isso, não há razão para a existência da Lei. Por fim, outros ainda defendem simplesmente que a Lei é oposta ao Evangelho. Entretanto, veremos que esse ensino violam as Escrituras que o Antinomismo é um desvio da Palavra de Deus (Rm 6.15,16).

 

 

COMENTÀRIO

 

 

O termo antinomismo, ou antinomianismo, foi cunhado por Martinho Lutero e é definido como uma declaração que, sob a dispensação do evangelho da graça, a lei moral é de nenhum uso ou obrigação, porque somente a fé é necessária para a salvação.

Sendo bem direto, os que adotam a posição antinomista dizem que o cristão que vive em Jesus não precisa mais da lei moral como padrão ou regra de vida, mas não somente isso, passam a negar outras leis e são dominados por suas concepções subjetivas, emitindo pareceres e julgamentos propriamente seus como sendo os mais corretos.

Essa posição é por demais perigosa por dois motivos: o primeiro, é que uma pessoa com tal atitude pode pensar que suas noções interiores são as mais corretas, negando outras verdades, mas tendo as suas como se realmente fossem inspiradas; em segundo lugar, cria-se a ideia de que não existem leis que possam ser observadas como obrigatórias, dessa forma, cada pessoa acaba padronizando por si mesma um estilo de vida conforme seus desejos e interesses.

Compreendemos que uma pessoa que se julga antinomista criará suas próprias concepções, não atentando para aquelas que são formuladas para o nosso bem, agirá segundo o próprio entendimento. Essa verdade está presente naqueles crentes que são carnais, cujas vidas não estão sob o poder do Espírito Santo, de modo que são dirigidos por suas próprias leis, fazendo o que bem entendem (Ef 5.19-21).

Lendo os textos de duas passagens de Juízes (Jz 17.6; 21.25), é dito o seguinte: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos” (ARA). Isso mostra que nesse tempo as irregularidades eram grandes pelo desprezo às leis, e, quando isso acontece, coisas indesejáveis surgem, causando grandes males.

Queridos irmãos, sabemos o quanto são importantes as leis humanas e a obediência a elas, e, como cristãos, jamais devemos agir negando as leis morais do Antigo Testamento, nem agir como se vivêssemos sem leis, na baderna, motins, confusões, gritaria (Ef 4.31).

Afinal, tal procedimento não faz parte do comportamento de um cristão sincero que está com sua vida firmada em Cristo, posto que Ele mesmo não se manifestou como um ser contrário às normas, antes, disse que veio para cumpri-las (Mt 5.17,18), e suas palavras foram: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 72-73.

 

 

Qual é esta antítese? Está claro quem é o eu (egõ) enfático. Mas com quem Jesus está se contrastando? Torna-se essencial considerar esta pergunta agora, antes de, nos próximos três capítulos, examinarmos mais detalhadamente as seis antíteses propriamente ditas. Muitos comentaristas têm defendido que, nestes parágrafos, Jesus está se colocando contra Moisés; que está, aqui, deliberadamente inaugurando uma nova moralidade, e contradizendo e repudiando a antiga; e que sua fórmula introdutória poderia ser assim parafraseada: “Vocês sabem o que ensinava o Velho Testamento… Mas eu ensino uma coisa totalmente diferente.” Por mais popular que esta interpretação possa ser, não hesito em dizer que está errada. E mais do que errada; é insustentável. O que Jesus contradisse não foi a lei propriamente dita, mas certas perversões da lei, das quais os escribas e fariseus eram culpados. Longe de contradizer a lei, Jesus a endossa, insiste sobre a sua autoridade e fornece a sua verdadeira interpretação. Quatro argumentos serão suficientes para provar que isso é verdade.

STOTT, John. Contracultura cristã. A mensagem do Sermão do Monte. Editora: ABU, 1981, pag. 36.

 

 

Antinomianismo é a negação da lei; é o “anti lei”. O antinomiano nega a necessidade do crente em guardar a lei de Deus. Essa heresia surgiu muito cedo nas igrejas primitivas e os apóstolos tiveram que exortar que o crente deve observar a lei de Deus como expressão de nosso amor.

A Lei de Deus é única, mas com bases morais, sociais e cerimoniais, conforme já vimos no estudo 1.7 A Lei de Deus. As leis sociais são para o povo de Israel, a lei cerimonial se cumpriram em Cristo e se tornaram obsoletas e desnecessárias. Mas a parte moral de Lei são eternas e todo Cristão deve guardar. A parte moral da Lei tem como base o perfeito caráter de Deus e está exposta nos Dez Mandamento (Êxodo 20) e nas ordenanças, mandamentos e exortações dos profetas, Jesus Cristos e dos apóstolos por toda a Escrituras Sagradas. Todo Cristão deve guardar a lei moral de Deus. Nas leis morais estão expostas a santidade e a vontade de Deus. O cristão verdadeiro deve amar a lei moral de Deus e guardá-la. Quem ama a Deus, guarda sua lei (João 14.15; 1 João 2.3-6; 1 João 5.1-3).

Uma grande confusão tem acontecido desde cedo na igreja entre a relação da lei e a graça. A lei estabelece o padrão moral que devemos seguir, no entanto, ela em si mesma não nos salva. A lei foi criada apenas para dizer o que devemos fazer, mas sem o poder de nos capacitar de obedecê-la. A lei expõe a vontade de Deus e quando não seguimos a lei, cometemos pecado (1João 3.4.) A lei revela o pecado, é fundamento para decência na sociedade e é um guia para vida cristão. A graça de Deus é seu favor imerecido, que pela ação do Espírito Santo, nos regenera e nos capacita para guardar a lei de Deus. Cada uma está em campos diferentes. Ambas são necessárias, mas uma não anula a outra. Somos dependentes da lei de Deus e quando nós guardamos a sua lei, demonstramos que o amamos (João 14.15).

Existem dois tipos mais comuns de antinomismo, o antinomianismo dualístico e o antinomianismo “espiritual”. O antinomianismo dualístico ensina que a salvação é somente para alma e não importa o que fazemos com o nosso corpo em nossas ações e comportamento. A conclusão do antinomianismo dualístico era que não precisamos guardar a lei de Deus e que poderíamos viver desenfreadamente em pecado. O antinomianismo “espiritual” atribui a confiança total a ação do Espírito Santo para guiá-lo, rejeitando e negando a lei como um guia para nossa conduta. A conclusão do antinomianismo “espiritual é que a lei deve ser rejeitada e que o “Espírito” diz a cada pessoa o que é certo e errado, deste modo, fazer a vontade de Deus se torna subjetiva, segunda a revelação “espiritual” de cada indivíduo. Ambas posições antinomistas são malignas heresias.

Outro ponto da heresia antinomiana é que Jesus nos libertou da lei e que agora vivemos pela graça. A correta resposta a essa heresia é que Jesus cumpriu a lei cerimonial que apontava para sua vida e obra, mas a lei moral é eterna, nunca passará. A graça de Deus não anula sua lei moral, mas nos capacita a guardá-la. O apóstolo Paulo lutou contra essa heresia e nos ensina em suas cartas que apesar da nossa salvação ser pela graça mediante a fé, sua graça não anulou a lei moral, “de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei” (Romanos 3.31). Paulo combate em Romanos 6 a heresia de que os salvos pela graça devem viver em pecado para que a graça de Deus seja mais abundante e nos exorta que de modo alguma devemos viver em pecado, desobedecendo a lei moral de Deus e que mortos para pecado, devemos viver em santidade, assim como Cristo viveu e guardou toda lei de Deus (Leia Romanos 6).

A lei nos desnuda diante de Deus e de nós mesmos o nosso pecado, e a graça nos ajudar a revestirmos de justiça, da justiça de Cristo. Não somos salvos pelas obras da lei, porque como pecadores e corruptos que somos em nosso ser, não conseguimos guardá-la como deveríamos, mas aqueles que foram regenerados e justificados por Deus, buscam diariamente guardar sua lei como expressão de amor.

Mascolo F.

Fonte: https://sites.google.com/site/verdadesessenciaisdafecrista/9-a-espiritualidade-e-vida-crista/9-15-antinomianismo

 

 

2- A Lei e o Evangelho.

 

Conforme visto na lição anterior, Jesus não desprezou a Lei. Em Mateus 5.21 vemos claramente isso. A expressão “Ouvistes o que foi dito aos antigos” aponta para uma retrospectiva de um ponto da Lei de Moisés. Diferentemente dos escribas e fariseus, nosso Senhor deu ênfase à autoridade da Lei e revelou a real intenção de Deus presente nela. Atente para os mandamentos “ Não matarás” (Êx 20.13). Enquanto os escribas e fariseus interpretavam esse mandamento de maneira restrita ao ato literal de matar uma pessoa, nosso Senhor o ampliou e aprofundou, demonstrando que o homicídio tem início no coração do ser humano a partir da ira, do ódio, da cólera (cf. M t 5.22).

 

 

COMENTÀRIO

 

 

Pela estrutura teológica do antinomismo, evangelho e Lei não combinam, visto que o primeiro, se firma na graça, ao passo que o segundo, tem sua base na Lei mosaica. Assim, como o cristão já foi justificado por Cristo e vive sob a lei do Espírito, é desnecessário o cumprimento da Lei de Moisés. A citação de Romanos 6.14, “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”, é uma verdade paulina incontestável. Quando ele a escreve, não está querendo dizer que o cristão deve manifestar total desprezo à Lei; seu propósito aqui é tão somente enfatizar que os que vivem em Cristo não procuram mais viver sob o antigo regime da Lei mosaica com o propósito de alcançar a salvação.

Na busca por essa compreensão de Lei e evangelho, o teólogo e escritor bíblico F. F.13 Bruce disse que a Lei exigia obediência, mas a graça dá poder para obedecer. Daí a graça rompe o domínio do pecado, coisa que a Lei não era capaz de fazer.

Paulo procura esclarecer a todos os cristãos que eles deveriam manifestar alegria porque passaram a viver debaixo da graça de Deus em Cristo, porém, ele fala também que a Lei, os profetas e os Escritos, isto é, todo o Antigo Testamento, revelam o pecado do homem (Rm 3.20; 5.20), e, por meio dos ensinos de Jesus e de seus apóstolos, eles passam a ser compreendidos plenamente. Para esse apóstolo, o Antigo Testamento ensinava maravilhosos ensinos e grandes verdades cristãs sobre Deus; no demais, Paulo tinha plena consciência de que Cristo e seus ensinamentos tratavam da própria Lei. O que se compreende agora é que houve um entrosamento claro da Lei de Moisés na lei do Espírito Santo, ou seja, a primeira foi incorporada à segunda. Isso se deu de dois modos: primeiramente, por meio da lei do amor, em que o cristão manifesta obediência aos preceitos morais (Rm 13.9); em segundo lugar, diante de muitas passagens do apóstolo Paulo, que em seus diversos ensinamentos inclui mandamentos morais, os quais têm ligação com a lei moral, de modo que não se nota qualquer desavença ou negatividade quanto a isso, mas, sim, positividade. Tal paralelo pode ser compreensível na maneira que ele faz o contraste na ordem de mandamentos que são contra todo tipo de pecado e mandamentos que são exigidos por parte dos cristãos.

Como tudo o que a Lei e os profetas falaram era a Palavra de Deus, e que por isso não passam, na nova dispensação o Espírito Santo nos leva ao cumprimento do que o Antigo Testamento falava. Portanto, o cristão procura fazer o bem pela foça do Espírito de Deus e da comunhão com Ele, que agora passa a ser a fonte de inspiração e capacitação para fazer o bem, mas tudo isso é feito sem qualquer tipo de legalismo.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 73-75.

 

 

[..] temos a fórmula introdutória, começando com ouvistes que foi dito aos antigos (vs. 21, 33), ou ouvistes que foi dito (vs. 27, 38, 43); ou, mais resumidamente ainda, também foi dito (v. 31). As palavras comuns para estas fórmulas são foi dito, que representam o verbo grego errethé. Esta não era a palavra que Jesus usava quando citava as Escrituras. Ao apresentar uma citação bíblica, tanto o verbo como o tempo eram diferentes, isto é, gegraptai (perfeito, “está escrito”), e não errethé (aoristo, “foi dito”). Nas seis antíteses, o que Jesus contradizia não eram as Escrituras, mas a tradição; não a palavra de Deus que eles tinham “lido”, mas a instrução oral que fora dada “aos antigos” e que eles também tinham “ouvido”, uma vez que os escribas continuavam ensinando-a nas sinagogas. O Professor David Daube confirma isto com o seu conhecimento profundo da língua hebraica usada pelos rabinos. O verbo “ouvir” está associado, diz ele, com “o significado superficial, literal, das Escrituras”. Portanto, nas duas partes da fórmula introdutória, “a primeira apresenta uma regra bíblica rigorosamente interpretada, e a segunda, uma exigência mais ampla feita por Jesus”. E, de novo, “estas declarações: ‘Ouvistes… eu, porém, vos digo’, têm a intenção de provar que Jesus é o defensor da lei, não o destruidor… é a revelação de um significado mais completo para uma nova época. A segunda parte tem antes a intenção de revelar do que de revogar a primeira”. Poder-se-ia dizer que, em relação às distorções dos escribas, o termo “antítese” descreve corretamente o ensinamento de Jesus, enquanto que, em relação à lei propriamente dita, “exegese” seria a palavra mais exata. Sua disputa não era a respeito da lei, pois os líderes judeus e ele próprio aceitavam a autoridade divina daquela mas sobre a sua correta interpretação.

STOTT, John. Contracultura cristã. A mensagem do Sermão do Monte. Editora: ABU, 1981, pag. 37.

 

 

Ele começa cada seção dizendo: “Vocês ouviram o que foi dito”.[66] É possível que Jesus aqui use ou aluda a um método de ensino rabínico, no qual o rabi começaria com uma expressão similar, e então passaria a dar uma interpretação falsa, mas aparentemente possível, das Escrituras, após o que ele refutaria o erro e forneceria o que considerava o entendimento correto da passagem sob discussão.

Em todo caso, decerto Jesus não está contradizendo os mandamentos do Antigo Testamento nessas passagens, uma vez que ele havia acabado de dizer que não veio para os abolir, mas para cumpri-los, e que seus discípulos deveriam praticá-los e ensiná-los. Em seguida, ele começa dando esses exemplos logo depois de dizer que se deveria ter uma justiça superior àquela dos fariseus e escribas.

Cheung. Vincent,. O Sermão do Monte. Editora Monergismo. 1 ed, 2011.

 

 

3- Legalismo x Antinomismo.

 

O legalismo é uma atitude que se concentra na observância e prática rigorosa das leis com o elemento determinante para uma comunidade alcançar o favor de Deus. Por outro lado, o antinomismo rejeita todo tipo de normas morais, deixando a pessoa livre para pecar. Assim, o legalismo foi refutado duramente pelo apóstolo Paulo (Fp 3.3-4), e o antinomismo fere de morte a vocação dos cristãos para a santidade (Rm 1.7; 1 Pe 1.15,16). Como amamos todo o conselho de Deus revelado nas Sagradas Escrituras, afirmam os que os princípios morais divinos revelados na Bíblia, a Palavra de Deus, são atemporais, válidos em qualquer época e cultura. E, por isso, o cristão fiel à Bíblia tem cuidado tanto com o legalismo quanto com o antinomismo.

 

 

COMENTÀRIO

 

 

Facilmente se pode perceber a diferença entre legalismo e antinomismo. A primeira, teologicamente falando, refere-se a uma obediência à Lei de modo egoísta, pois sua prática estava firmada no propósito de alcançar a redenção por meio da conduta. Uma pessoa legalista prende-se totalmente à prática e obediência à Lei apenas no seu aspecto exterior, não atentando realmente para o seu espírito, sua essência, seu real desígnio. A segunda, o antinomianismo, nega a Lei, o que faz com que a pessoa viva totalmente descompromissada.

Os legalistas desprezam a graça divina e passam a afirmar que para se obter a salvação é preciso que a Lei seja observada. Note que essa concepção transforma a Lei em um alicerce da salvação. Desse modo despreza plenamente a justificação pela fé como foi ensinado por Paulo e a presença do Espírito na vida que passa a ser a lei que age no interior daquele que crê em Jesus (Rm 8.2).

Quando procuramos servir a Deus por nossos próprios esforços, confiando que por meio de nossas obras e justiça pessoal seremos aceitos por Ele, trocamos a alegria da salvação pelo medo. Foi isso que Paulo falou para alguns cristão de Filipos, que já sendo salvos por meio da fé em Cristo Jesus, procuravam estabilizar a salvação que tinham recebido pelo aperfeiçoamento de obras. Ele então reafirma que, quando se aceita a Jesus pela fé, confiando em sua justiça, todos passam a ser aceitos aos olhos de Deus, de modo que não precisam mais esforçar-se para serem perfeitos (Tt 3.5).

Quando dizemos que o cristão não deve ser legalista, jamais queremos afirmar com tal proposição que deve viver do seu jeito, ao seu querer, de modo libertino. Todavia, como já possuem o real crescimento por meio do conhecimento de Cristo, passam a ser maduros e perfeitos para desenvolverem uma vida de fé e obediência a Deus firmada no amor, fazendo tudo com alegria, sem temor algum de perder a salvação.

Entendemos que do lado legalista há uma extrema necessidade de se praticar a Lei para se obter a salvação. Ainda muitos crentes pensam que a salvação se dá por meio da prática de regras, obras, o que não é verdade, mas, por outro lado, aqueles que seguem o antinomianismo passam a ser contrários a todo tipo de lei, crendo que a salvação se dá somente pela fé, o que não é verdade, aliás, muitos se servem desse ponto para ter liberdade para pecar.

O apóstolo Paulo faz um contraste entre o legalismo e o antinomianismo de modo bem didático. Em Filipenses 3.2,3, ele diz que não confiava nem na circuncisão, nem na carne, pois isso era legalismo, e em 3.18 fala dos inimigos da cruz de Cristo. Na primeira citação, ele destaca a confiança na Lei para se obter a perfeição desejada, na segunda, fala do antinomianismo. Paulo compreendia que a perfeição não era o alicerce da salvação, mas procurava crescer na perfeição de Cristo Jesus, motivo pelo qual disse que esse era o seu alvo (Fp 3.13,14). O escritor aos Hebreus realça essa verdade falando que sempre devemos olhar para o Autor e Consumador de nossa fé (Hb 12.2). Assim, o cristão não pode ser nem legalista, para não desprezar a graça de Deus, nem ser antinomianista, para viver a vida do seu jeito.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 75-76.

 

 

Legalismo e antinomismo: dois males com a mesma origem

A mitologia grega nos fala de dois grandes monstros marinhos chamados Cila e Caríbdis, que se encontravam em margens opostas de um canal estreito. Quando os marinheiros tratavam de evitar Cila, era bem provável que se aproximassem demais de Caríbdis e vice-versa. Nenhum dos destinos era melhor que o outro, então era necessário ter muito cuidado para evitar o perigo que havia de ambos os lados. O mesmo acontece na vida cristã com o legalismo e o antinomismo, com a diferença de que não se trata de dois monstros mitológicos, mas de dois inimigos reais que devemos manter distantes se quisermos guardar a pureza do evangelho para a salvação dos perdidos e a edificação da Igreja.

De uma forma mais simples, podemos dizer que o legalismo consiste em tentar ganhar o favor de Deus através de nossa obediência a um conjunto de leis e normas. O legalismo coloca Deus na condição de um devedor que tem de nos abençoar se fizermos o que devemos fazer. Enquanto o evangelho nos move à obediência pelo fato de já termos sido aceitos por Deus sobre a base da obra redentora de Cristo, o legalismo diz que devemos obedecer para que sejamos aceitos. Tudo depende de nós: de nossa obediência, de nosso esforço pessoal, de nosso compromisso e de nossos méritos.

Quando partimos dessa premissa, cedo ou tarde começaremos a acrescentar algumas regras que não estão na Bíblia, porque queremos ter certeza de que estamos fazendo exatamente o que devemos fazer, e de que estamos apertamos os botões corretos. Quase certamente o que vai acontecer é que vamos voltar mais atenção ao aspecto externo do mandamento do que ao coração da Lei. Esse é um aspecto essencial do legalismo. O legalista está mais preocupado com a forma do que com aquilo que está no fundo, porque, no final das contas, é muito mais fácil conformar-se a uma regra externa do que tratar o coração. Essa é uma das razões pelas quais o legalista costuma acrescentar regras à lei de Deus: não para amplificá-la, mas para torná-la manuseável, porque é muito mais fácil apegar-se a um conjunto de regras externas do que obedecer à intenção da Lei.

Obviamente, tudo isso produz orgulho. Por isso o legalismo parece tão atraente, embora seja tão opressivo. O legalismo produz soberba e desprezo; os legalistas se orgulham de seu padrão e desprezam todos os que vivem segundo um padrão diferente. Transformam suas regras em uma lei universal, que querem impor a todo mundo, em qualquer situação ou circunstância. Suas regras, na prática, transformam-se na tábua de avaliação que determina a condição espiritual dos demais.

O antinomismo é o monstro que se encontra na outra margem do estreito canal da vida cristã. Esse é um vocábulo composto de anti, que significa “contra”, e nomos, que significa “lei”. O antinomismo assume que podemos relacionar-nos com Deus sem obedecer à sua Palavra, e desprezando sua Lei moral. Certamente, muitos antinomistas não veem a si mesmos desse modo, porque, com frequência, é muito mais uma atitude do que uma crença formal. É o pensamento: “Deus me aceita tal como sou, porque seu amor é incondicional.” […]

Apesar das diferentes manifestações externas, tanto o legalismo quanti o antinomismo surgem da mesma raiz, ou, como disse o teólogo Sinclair Ferguson, ambos são gêmeos não idênticos nascidos do mesmo ventre. Se não entendermos isso, de maneira instintiva trataremos de nos esquivar de um desses males, movendo-nos em direção ao outro.

Sugel Michelén, Da Parte de Deus e na Presença de Deus: Um guia para a pregação expositiva. Editora Fiel.

 

 

SINOPSE I

O Evangelho Não é antinomista, isto é, ele tem normas, regras e limites claros. O Evangelho também não é legalista, isto é, não está preso a observâncias rigorosas de datas, dietas e ou­tras práticas religiosas, esperando algum favor divino.

 

 

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

O que o antinomismo alega? “Alegam os antinomistas que, salvos pela fé em Cristo Jesus, já estamos livres da tutela de Moisés. Ignoram, porém, serem as ordenanças morais do Antigo Testamento pertencentes ao elenco do direito natural que o Criador incrusta na alma de Adão. […] Todo crente piedoso observar [as ordenanças morais da Lei]; pois Cristo não veio revogá-las; veio cumpri-las e sublimá-las. ” Amplie mais o seu conhecimento, lendo o Dicionário Teológico, editado pela CPAD, p.51.

 

 

II- A CÓLERA É 0 PRIMEIRO ATO PARA O HOMICÍDIO

 

 

1- Jesus e o sexto mandamento.

 

Jesus não anulou o sexto mandamento do Decálogo (Êx 20.13; Dt 5.17). Contudo, sua interpretação foi mais elevada e profunda, pois revelou que a ira ou cólera contra um irmão é um tipo de homicídio no coração, com o bem afirmou o apóstolo João: “ Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem permanente nele a vida eterna” (1 Jo 3.15). Não é por acaso que o verbo “irar” no grego, em Mateus 5.22, é orgizo, que significa provocar, incitar a ira, estar zangado, estar enfurecido. A fúria e a ira de Caim o levaram a cometer o primeiro homicídio contra o próprio irmão (Gn 4.5,8). Portanto, o sexto mandamento não envolve apenas um a sanção penal, mas elementos mais profundos como palavras, emoções, insultos e outras ações que se antecipam ao homicídio.

 

 

COMENTÀRIO

 

 

Para compreendermos bem o relacionamento de Jesus com o sexto mandamento exposto por Ele aqui em seus ensinos, devemos atentar para a expressão ouvistes o que foi dito (Mt 5.21,27,33,34,43). Com isso, Ele já começa a introduzir a superioridade da sua justiça, que é mais elevada do que aquela que ensinavam os escribas e fariseus.

Esse verbo “ouviste” tem grande significado aqui, ou melhor, um valor grandioso, isso porque naquele tempo o acesso à literatura era bem escasso, inclusive às Escrituras. A maioria do povo não sabia ler, assim, tudo o que eles conheciam era por meio do ouvir, e quem detinha o maior poder nesse particular eram os escribas, os quais atuavam nas sinagogas fazendo a exposição da Lei.

Quanto aos antigos, há vários debates conforme se pode notar em algumas versões. Em algumas consta aos antigos, enquanto em outras pelos antigos. Alguns tradutores preferiram pelos antigos, que nesse caso seria uma referência direta àqueles que faziam a interpretação das Escrituras, Moisés, os escribas e os mestres daquele tempo. A expressão aos antigos, por outro lado, estaria se direcionando ao povo, a quem falou Moisés e outros que vieram depois dele.

O que se pode entender é que pela forma como Jesus fala dos antigos, é bem possível que Ele esteja tanto com o passado marcado por intérpretes falsos, que estiveram presentes como mestres no meio do povo judeu, como também com os que viviam durante o ministério de Cristo (Rm 9.12,26).

Jesus fala do sexto mandamento, “Não matarás”, conforme consta em Êxodo 20.13, mas, lendo Gênesis 9.5,6, vemos que ele havia sido dito antes da Lei. Da forma que Jesus irá introduzir seus seis exemplos da justiça mais elevada que a dos escribas e fariseus, contrastando o Antigo com o Novo Testamento, oriundo de seus lábios, o destaque especial e a superioridade se vê na expressão “eu, porém, vos digo” (22, 28, 32, 34, 39, 44), que também aparece seis vezes. O que se compreende é que aqui Jesus não quer demonstrar ser alguém prepotente, egoísta, superior, mas o que pode se entender é que está em voga sua autoridade divina como Filho de Deus, por isso desafia, ataca, ensina.

A questão importante da citação de Jesus quanto ao sexto mandamento é gloriosa porque a forma como interpretará tal assunto é totalmente diferente de como faziam os escribas e os fariseus. Estes ensinavam quanto à questão de não matar, viam como algo errado tirar a vida de uma pessoa, porém, tudo se resumia apenas a esse ato exterior, inclusive havia um processo que era formado para a execução de quem praticasse o homicídio (Lv 24.17).

Nas palavras de Cristo, tudo não se resumia apenas ao ato de matar.

A Lei de Deus era mais do que isso, ela apontava para a causa interna que levava alguém a praticar tal crime. Nesse sentido, podemos entender que Jesus não via o sexto mandamento apenas como um elemento presente em um código penal, ou seja, apenas uma lei, mas a questão era muito mais profunda, pois estava no âmago do coração perverso (Mt 5.19). O escritor aos Hebreus fala do poder da Palavra que discerne tudo (Hb 4.12). Portanto, para Jesus, o cumprimento da Lei vai muito além, não se conforma apenas com o que é exterior.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 78-80.

 

 

A interpretação de Jesus sobre o homicídio (5.21-26)

C. Sproul ajuda-nos a compreender essa passagem, quando escreve:

Os rabinos acreditavam que o mandamento para não matar era cumprido quando não se cometia assassinato em primeiro grau, mas Jesus mostra que este mandamento é muito mais profundo do que o ato externo de homicídio. Cristo indica que a lei foi dada por intermédio de Moisés de forma elíptica – isto é, nem todo o conteúdo inerente ao mandamento foi expresso em palavras. Sempre que nos deparamos com três ou quatro pontos no meio de uma frase ou um parágrafo, isto indica que determinado conteúdo foi deliberadamente deixado de fora. Estes pontos são chamados de “elipses”. Quando há elipses na lei, isto significa que, além da proibição específica, a lei também proíbe o contexto mais amplo relacionado ao ato em questão. Assim, quando Deus diz que não devemos matar, isto consequentemente significa que nós não devemos fazer qualquer coisa que prejudique a vida do próximo. O homicídio começa com raiva e ódio sem motivo, incluindo ofensas, calúnias e desavenças entre pessoas.

E por isso que Jesus disse que ninguém escapa do peso da lei simplesmente abstendo-se do assassinato em si […]. O outro aspecto da elipse é este: mesmo sem afirmá-lo, a lei ordena o contrário daquilo que proíbe e proíbe o contrário daquilo que ordena. Portanto, Jesus está dizendo aqui que, além de não devermos jamais matar o próximo por causa da importância da vida humana, também devemos promover a segurança, o bem-estar e a santidade da vida O que foi dito aos antigos não é a lei, porque sempre que a Palavra de Deus está em destaque, lê-se: “Está escrito, assim diz o Senhor”. O que está, portanto, em relevo aqui com a expressão: “Ouvistes o que foi dito aos antigos” é a interpretação dos rabinos acerca do sexto mandamento.

Estes reduziam o significado da proibição divina apenas ao ato do homicídio. Também atenuavam a penalidade da transgressão dizendo que “quem matar está sujeito a julgamento”.

Jesus amplia a abrangência do pecado, destacando que a ira, o insulto e as palavras de desprezo implicam a quebra do sexto mandamento (5.22). Jesus aqui assume um tom de superioridade em relação aos regulamentos mosaicos e aos seus intérpretes. Ele vai mais fundo, ao próprio âmago da questão. Ele encontra o princípio por trás do preceito e o endossa. Warren Wiersbe está correto quando interpreta: “Jesus não diz que a ira conduz ao homicídio, mas sim que a ira é uma forma de homicídio”. Robert Mounce destaca que a cólera que Jesus menciona aqui é orge, uma fúria interna que se multiplica, em comparação com thymos, uma fúria passageira.

Os rabinos limitavam o sexto mandamento ao ato do homicídio; Jesus, porém, deixa claro que o espírito da lei se liga não apenas ao ato, mas também à motivação. A lei perscruta não apenas as ações exteriores, mas também as motivações interiores. Embora os tribunais da terra não tenham competência para julgar a ira e palavras insultuosas, o tribunal de Deus julga o foro íntimo. Daremos contas a Deus não apenas de nossos atos, mas também de nossas palavras e intenções.

LOPES. Hernandes Dias. Mateus Jesus, O Rei dos reis. Editora Hagnos. pag. 198-199.

 

 

A explicação deste mandamento sobre o qual os professores judeus discutiam. O seu comentário era: “Aquele que matar, correrá o risco do julgamento” .

Isto era tudo o que eles tinham a dizer a este respeito, que os assassinos deliberados estariam sujeitos à espada da justiça, e os ocasionais estariam sujeitos ao julgamento da cidade de refúgio. A s cortes de julgamento ficavam nos portões das suas cidades principais. Os juízes, normalmente, eram vinte e três; eles julgavam, condenavam e executavam os assassinos; assim, qualquer pessoa que matasse estava sujeita ao seu julgamento.

Mas este comentário sobre esse mandamento era falho, pois ele dava a entender que: 1. A lei do sexto mandamento era apenas externa, e não proibia nada além do ato de assassinato, e deveria restringir os desejos interiores, dos quais nascem as guerras e as peleja

Este era realmente o proton pseudos – o erro fundamental dos professores judeus, dizer que a lei divina proibia somente o ato pecaminoso, e não o pensamento pecaminoso; eles estavam inclinados a haerere in corticeae – descansar na letra da lei, e nunca investigaram o seu significado espiritual. Paulo, embora sendo um fariseu, não o fez, até que, pela chave do décimo m andamento, a graça divina o levou ao conhecimento da natureza divina de todas as demais coisas (Rm 7.7,14).

Outro engano era o de que esta lei era meramente política e cívica, dada por causa deles, e com a intenção de ser uma orientação para os seus tribunais, e nada mais; como se somente eles fossem o povo de Deus, e a sabedoria da lei devesse morrer com eles.

A explicação que Cristo deu deste mandamento.

Nós estamos certos de que, de acordo com a sua explicação, seremos julgados no futuro; portanto, devemos ser governados agora. O mandamento é extremamente amplo, e não deve se r limitado pela vontade da carne, ou pela vontade dos homens.

Cristo lhes diz que a ira irrefletida é assassinato no coração (v. 22). “Qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão” estará infringindo o sexto mandamento.

Aqui, por ”seu irmão” devemos entender qualquer pessoa, mesmo que se trate de alguém inferior a nós, como uma criança ou um servo, pois todos nós somos feitos de um único sangue. A ira é uma paixão natural; existem casos nos quais ela é lícita e salutar; mas é pecaminosa, quando nos iramos sem motivo. A palavra é eike, que significa sine causae, sine effectu, et sine modo – sem causa, sem nenhum bom efeito, e sem moderação.

Como consequência, a ira é pecaminosa: (1) Quando ocorre sem nenhuma provocação justa; seja por nenhuma causa, ou nenhuma boa causa, ou nenhuma causa justa e adequada; quando nos iramos com as crianças ou com os servos por aquilo que não pôde ser evitado, que foi somente uma questão de esquecimento ou de engano, de que nós mesmos poderíamos se r facilmente culpados, e pelo que não ficaríamos irados conosco; quando nos iramos devido a suspeitas infundadas ou por ofensas banais que nem merecem ser mencionadas. (2) Quando a ira ocorre sem visar nenhuma boa finalidade, meramente para mostrar a nossa autoridade, para satisfazer uma paixão bruta, para fazer com que as pessoas conheçam os nossos ressentimentos e p ara nos motivar à vingança; nestes casos, a ira é vã, e só se destina a magoar.

Se em alguma ocasião estivermos irados, isto deve rá se destinar a despertar o ofensor ao arrependimento, e a evitar que ele repita outra vez o que fez; para nos purificar (2 Co 7-.11) e para advertir aos outros. (3) Quando ela ultrapassa os limites. Quando somos duros e teimosos na nossa ira, violentos e veementes, cruéis e perversos, e procuramos ferir aqueles que nos desagradaram.

Isto representa uma infração ao sexto mandamento, pois aquele que se ira desta maneira chegaria a matar, se pudesse. Um homem deu o primeiro passo em direção a isto; quando Caim matou seu irmão, tudo começou com a ira; ele é um assassino aos olhos de Deus, que conhece o seu coração; pois é do coração que procede o assassinato (cap. 15.19).

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 52.

 

 

2- A cólera no contexto bíblico.

 

Tanto o salmista quanto o apóstolo Paulo escreveram que um servo de Deus pode irar-se, mas não deve pecar (Sl 4.4; Ef 4.26). A ira é uma emoção humana. Por isso, na Bíblia, vemos pessoas justas se irando contra o pecado, contra os atos desumanos, contra o desrespeito à Palavra de Deus (Os 4.1-3). Nosso Senhor manifestou ira contra os que faziam do templo um “covil de ladrões” (Jo 2.13-17). Entretanto, a ira não pode nos controlar e devemos examinar se ela provém de um espírito reto, de um coração puro, ou se é um a obra da carne, do tipo pecaminosa, orgulhosa, odiosa e vingativa (Gl 5.20). O imperativo bíblico é que a ira não pode nos dominar (Ef 4.26; Hb 12.15).

 

 

COMENTÀRIO

 

 

No versículo 21 Jesus começa fazendo um destaque em relação à ira. O verbo grego é orgizómenos e significa provocar, incitar à ira, ser provocado à ira, estar zangado, estar enfurecido. Como dissemos antes, Jesus não atentava apenas para o ato de matar alguém, mas, sim, ao que levava a pessoa a cometer o crime. Por isso, Ele quer reforçar o que é denominado de Principiis obsta, que quer dizer resiste aos inícios, que no caso aqui o princípio do homicídio é o ódio, a ira pecaminosa.

Na interpretação de Cristo em relação ao sexto mandamento (Êx 20.13; Dt 5.17), percebe-se que há um destaque mais elevado acima daquele exposto pelos escribas e fariseus, que era superficial e legalista. O Mestre fala de algo espiritual, não apenas a prática do ato em si, mas sua causa, no caso a ira, posto que a sua manifestação contra alguém já é o começo para a prática do homicídio contra o irmão. O Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal define muito bem a cólera na interpretação de Cristo:

Jesus ensinou que seus seguidores não deveriam nem pensar em se encolerizar a ponto de cometer um assassinato, pois já teriam então cometido um assassinato no coração. Aqui, a palavra “cólera” se refere a um desespero planejado e revoltado que sempre ameaça fugir do controle, levando à violência, aflição emocional, maior tensão mental, prejuízo espiritual e, sim, até à morte. A cólera nos impede de desenvolver um espírito agradável a Deus.

Observamos biblicamente que o primeiro homicídio praticado por Caim começou no seu coração, o qual foi dominado e impulsionado por uma cólera ou ira violenta a ponto de cometer o assassinato. O texto diz que por Deus não se agradar de Caim nem de sua oferta, mas ter atentado à oferta do seu irmão Abel, a ira nasceu de imediato em seu coração. Observe que o verbo irar do hebraico é charah, estar quente, furioso, queimar, tornar-se irado, inflamar-se. Esse sentimento fez com que Caim matasse seu irmão (Gn 4.5-8). O apóstolo João mostra quem de fato era Caim, quais as obras que dominavam seu coração e quem era o chefe de sua vida (1Jo 3.12).

O Senhor Jesus nos ensina que jamais devemos nutrir em nossos corações qualquer sentimento de cólera, ira, sem qualquer causa justa, no demais, é impossível um cristão verdadeiramente transformado alojar em seu coração uma ira odiosa contra o seu irmão, pois tem consciência de que, caso proceda dessa maneira, será passível de julgamento, pois aos olhos de Deus tal sentimento corresponde ao homicídio.

Quanto à questão da ira, o melhor é seguir o conselho de Paulo, que diz: “Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar” (Cl 3.8, ARA).81

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 80-81.

 

 

«A ira começa com a insensatez e termina com o arrependimento». (Henry George Bohn).

«Moderar verdadeiramente a mente e as palavras, quando estamos irados, ou de outra maneira qualquer manter a paz, reflete uma natureza incomum». (Cícero, Epistola e Quintum Fratrem).

«A ira e a insensatez andam de mãos dadas; o arrependimento leva ambas a se porem de joelhos». (Benjamim Franklin).

«Que as chamas de ira se acendam lentamente». (George Herbert).

«Quando estou irado então posso escrever, orar e pregar bem, pois então todo o meu temperamento é despertado, meu entendimento é aguçado e todas as preocupações e tentações mundanas desaparecem». (Martinho Lutero, em «Conversa à Mesa». Certamente Lutero era diferente nesse ponto, e o seu exemplo acerca da questão não pode ser recomendado).

«A melhor resposta para a ira é o silêncio». (Provérbio alemão).

«A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira». (Pro. 15:1).

«Há três falhas mediante as quais ofendemos a Deus quando nos deixamos arrastar pela ira. A primeira é quando a nossa ira se origina em causas pequenas, ou mesmo em causa nenhuma, ou, pelo menos, devido a injúrias e ofensas particulares. A segunda é quando saímos dos limites apropriados, deixando-nos arrastar a excessos da intemperança. E a terceira é quando nossa ira, que deveria Ser dirigida contra nós mesmos e contra o pecado, se volta contra os nossos irmãos». (Calvino, in loc.).

CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 4. pag. 611.

 

 

Paulo fala sobre a ira (4.26,27). “Quando sentirdes raiva, não pequeis; e não conserveis a vossa raiva até o pôr do sol; nem deis lugar ao Diabo.” Há dois tipos de raiva: a justa (4.26) e a injusta (4.31). Precisamos sentir raiva justa: a ira de Wilberforce contra a escravidão na Inglaterra é um exemplo de raiva justa. A raiva de Moisés contra a idolatria é outro exemplo clássico. A raiva de Lutero contra as indulgências é um dos mais claros exemplos desse ensinamento de Paulo. A raiva de Jesus no templo ao expulsar os cambistas é o exemplo por excelência desse princípio bíblico.

Se Deus odeia o pecado, seu povo também deve odiá-lo. Se o mal desperta sua raiva, também deve despertar a nossa (SI 119.53). Ninguém deve ficar raivado a não ser que esteja raivado contra a pessoa certa, no grau certo, na hora certa, pelo propósito certo e no caminho certo.

Paulo qualifica sua expressão permissiva sentirdes raiva com três negativos:236 1) “Não pequeis”. Devemos nos assegurar de que nossa raiva esteja livre de orgulho, despeito, malícia ou espírito de vingança; 2) “Não conserveis a vossa raiva até o pôr do sol”. Paulo não está permitindo a você ficar com raiva durante um dia, ele está exortando a não armazenar a raiva, pois pode virar raiz de amargura; 3) “Nem deis lugar ao Diabo”. O diabo gosta de ficar espreitando as pessoas zangadas para tirar proveito da situação, como fez com Caim.

Jay Adams, em seu livro O conselheiro capaz, fala sobre duas maneiras erradas de lidar com a raiva: a primeira delas é a ventilação da raiva. Há pessoas que são explosivas, que atiram estilhaços para todos os lados, ferindo as pessoas com seu destempero emocional. A segunda maneira errada de lidar com a raiva é o congelamento dela. O indivíduo não a joga para fora, mas para dentro. O resultado disso é a amargura. A solução para o congelamento da raiva é o perdão. E espremer o pus da ferida até o fim, fazendo uma assepsia da alma, uma faxina da mente, uma limpeza do coração.

LOPES, Hernandes Dias. EFESIOS Igreja, A Noiva Gloriosa de Cristo. Editora Hagnos. pag. 121-122.

 

 

3- O valor da pessoa humana.

 

Em Mateus 5.21,22 Jesus enfatizou o valor da pessoa humana. Por isso, chamar alguém de raça, que significa inútil, cabeça oca e vazia, é uma ofensa grave, igualada à blasfêmia. Ou chamar o outro de “louco”, do grego móros, que significa ímpio, incrédulo, é uma conduta moralmente desprezível. Observe que, para quem manifestasse esses tipos de comportamentos, o fim era se tornar réu do Sinédrio e receber a condenação para o fogo do Inferno, do grego Geena, respectivamente. Nesse sentido, nosso Senhor mostra que não só peca quem comete um homicídio, mas igualmente os que nutrem a cólera, o ódio e o rancor no coração. A vida humana tem um valor sagrado. Por isso, o patrão deve tratar bem o seu empregado e este, consequentemente, deve respeitar o patrão; o irmão não pode fazer acepção de pessoas para com o outro irmão, quer por causa da cor da pele, quer por diferenças econômicas, pois como o apóstolo Pedro disse: “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas” (At 10.34).

 

 

COMENTÀRIO

 

 

A valorização de Jesus pelo sexto mandamento é muito importante, pois com ela destaca seu apreço pela vida. Nesse mandamento está inserida a ideia de que também são dignos de morte aqueles que fizessem pronunciamentos desdenhosos, desrespeitosos contra o próximo, tal pessoa deveria ser condenada pelo Sinédrio judaico.

Duas palavras precisam ser analisadas aqui: a primeira é rhaká, um substantivo de origem aramaica com o sentido de vazio, sem sentido, pessoa que tem cabeça vazia, cabeça-oca, também se tratava de um termo de repreensão usado entre os judeus no tempo de Cristo, e, em um sentido bem claro, pode ser traduzido por estúpido; a outra é o adjetivo moros, cujo significado é tolo, ímpio, incrédulo, idiota, retardado mental. Quem usasse esse termo também deveria ser lançado no fogo do inferno, que no caso aqui envolveria a morte eterna, posto que seria o gehenna (Mt 10.28). Precisamos inferir o seguinte, quem nutre ódio pecaminoso, uma ira contra seu irmão, possivelmente dirá tais palavras injuriosas contra ele, de modo que quem as pratica estará cometendo homicídio de dentro do seu coração. Aos olhos de Deus, esse procedimento é reprovável e essa pessoa caminha a passos largos para o inferno, a morte.

É preciso muito cuidado quanto ao desprezo ou palavras de zombaria que se faz para com alguém, pois elas podem impulsionar pessoas a cometerem literalmente homicídio. É lamentável dizer, mas muitos não reconhecem o valor da vida humana e o respeito que se deve dar ao outro, que é imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27).

Sem pensar nas consequências, algumas pessoas usam expressões de baixo calão, ofendendo o seu próximo, contrariando a vontade de Deus.

Há em nosso meio pessoas que foram assassinadas com palavras por causa de zombarias, mentiras, fofocas, que perderam a boa reputação por histórias inventadas. Um cristão comprometido com o evangelho de Cristo jamais age dessa forma, primeiro por causa do seu compromisso para com Deus, e, em segundo lugar, porque tem consciência de que há de prestar contas a Deus por suas duras palavras: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36).

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 82-83.

 

 

O insulto proferido aqui, traduzido em algumas versões por raca (5.22), tem origem aramaica e significa “eu cuspo em você”. Corroborando essa ideia, Lawrence Richards diz que “raca” vem da palavra aramaica rak, que significa “cuspir”.6 Barclay acrescenta que chamar alguém de “raca” era o mesmo que chamá-lo de estúpido, idiota, imprestável.

E o mesmo autor ressalta: A ira persistente é má; piores ainda são as palavras de desprezo, mas o pior de tudo é a malicia que destrói o bom nome do próximo. O homem que é escravo de sua ira, e se dirige ao próximo com palavras de desprezo, destruindo seu bom nome, pode nunca ter assassinado alguém, mas em seu coração é um assassino.

LOPES. Hernandes Dias. Mateus Jesus, O Rei dos reis. Editora Hagnos. pag. 199-200.

 

 

Tolo. H á várias ideias sobre o sentido dessa palavra: 1. Por acaso, as letras dessa palavra grega concordam com as letras de certo termo hebraico que significa «rebelde·. Alguns acham que esse é o sentido que o autor quis dar aqui, como se tivesse usado outra palavra hebraica, como já usara «raca». Moisés e seu irmã o não puderam entrar na terra prometida, nem em parte, porque usaram esse termo quando repreenderam o povo de Israel (ver Núm. 20:10). 2. Provavelmente a palavra é grega, e significa «tolo». O termo era forte. Jesus mesmo usou essas palavras contra os escribas e fariseus, em M a t. 23:17,19.

CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 1. pag. 311.

 

 

SINOPSE II

A cólera é o primeiro passo para a prática do homicídio

 

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

“A verdadeira batalha pela lei do Reino não está nas simples ações externas ou efetuação de movimentos, pouco importando quão detalhados sejam; antes, a batalha é ganha ou perdida no coração, onde reside à vontade. […] A maioria dos pecados é premeditada; requerem-se ações anteriores e às vezes drásticas para evitar que a semente dê raiz e produza uma colheita amarga. Assim, os remédios de Jesus parecerão extremos, mas a malignidade tem de ser isolada e removida o quanto antes, para que haja uma melhor chance de recuperação. A prevenção é suprema. […] A proibição no versículo 21 não é a matança em geral, mas assassinato, matança que é contrária à lei. Jesus intensifica a lei indo ao âmago da questão: a vontade humana. O assassinato começa com a raiva; a pessoa tem de lidar com a raiva a fim de evitar o assassinato” (ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger (Eds.) Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p.45).

 

 

III- A “OFERTA DO ALTAR” E A DESAVENÇA

 

 

1- A oferta do altar.

 

Em Mateus 5.23.24, Jesus se dirige aos discípulos e faz com que cada um examine a si mesmo, pois um servo do Senhor não pode ofertar no altar com um coração cheio de ira e rancor. Afinal, dizer amar a Deus, mas odiar o irmão é cair na mentira (1 Jo 4.20). Para o judeu, ofertar era um ato sagrado e tal atitude fazia-o reconhecer a bondade de Deus para com ele (Gn 4.3,5; Êx 25.2; Lv 1.2; SI 66.13). Nesse sentido, o Senhor Jesus valorizava esse ato. Entretanto, não adiantava reconhecer a bondade de Deus, mas não se reconciliar com o irmão. Cabe ressaltar que o verbo grego para “reconciliar”, é diallassô, que significa mudar a mente de alguém, renovar a amizade com alguém. Ele é encontrado no Novo Testamento apenas uma vez, em Mateus 5.24. Portanto, o ensinamento de nosso Senhor é claro: não há relacionamento correto com Deus sem relacionamento verdadeiro com o irmão.

 

 

COMENTÀRIO

 

 

O cristão deve sempre fazer uma análise de seu coração e de sua vida espiritual (Mc 7.2,12; 2Co 13.5), especialmente em relação ao seu procedimento para com o seu irmão, vizinho, amigo, se realmente está agindo com ele em amor, sinceridade e verdade. Isso é interessante porque pode afetar tanto o nosso culto como nosso relacionamento com o Pai. Deus não irá se voltar para aquele que se diz cristão, mas está com o coração cheio de ódio, e não de amor. Essa pessoa jamais poderá trazer uma oferta a Deus quando estiver em inimizade contra o seu irmão, pois Ele jamais a receberá.

Nosso Mestre divino deixa óbvio que Deus não se interessa por um culto de nossa parte quando as atitudes do coração não são puras para com o nosso semelhante, pois quem odeia seu irmão é assassino (1Jo 3.15). Um cristão verdadeiro não tem sua língua para bendizer a Deus e amaldiçoar o seu irmão (Tg 3.9,10). Aquele que ama a Deus de verdade nunca vive em inimizade com o seu irmão, pois está consciente, segundo o apóstolo João falou, de que aquele que não ama o seu irmão que vê, jamais poderá amar a Deus, a quem não vê (1Jo 4.20).

Para os judeus, o ato de ir uma vez por ano levando oferta para sacrificar no altar do Templo em Jerusalém era o bastante.

Acreditavam que, dessa maneira, estariam cumprindo cabalmente a Lei. Porém, Jesus diz que para estar na presença de Deus e adorá-lo verdadeiramente é preciso muito mais do que dádivas naturais. É preciso estar com o coração totalmente puro, sem qualquer relacionamento pessoal rompido, e, caso isso tenha acontecido, que busque logo a reconciliação.

O escritor da carta aos Hebreus nos lembra de que nossa comunhão tem que ser tanto vertical, com Deus, como também horizontal, com o próximo, somente assim é que podemos ver ao Senhor (Hb 12.14). Deus não está interessado apenas no rito e cerimoniais culticos, isso porque muitos podem fazer isso por aparência, enquanto o coração está cheio de pecado, o que será pura hipocrisia. Perdoar aos outros e viver em comunhão é o que Ele deseja de cada um de nós, pois não haverá perdão divino para nossas ofensas se primeiro não aprendermos a perdoar o próximo (Mt 6.15).

Aquela prática que ainda acontece em algumas igrejas nos cultos de Santa Ceia, de sanar desavenças entre os membros, era uma prática presente na Igreja Primitiva. Que possamos continuar procedendo assim para que nossas ofertas e cultos sejam aceitos pelo Senhor.

Gomes. Osiel,. Os Valores do Reino de Deus: A Relevância do Sermão do Monte para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. 1ª edição: 2022. pag. 83-85.

 

 

De tudo isto, pode-se deduzir que nós devemos cuidadosamente preservar o amor e a paz cristãos com nossos irmãos, e, se alguma vez estes forem rompidos, devemos lutar por uma reconciliação, confessando a nossa culpa, humilhando-nos perante o nosso ir mão, implorando o seu perdão, e fazendo uma indenização ou oferecendo uma compensação pelo mal feito através de atos ou palavras, de acordo com a natureza da situação; e devemos fazê-lo rapidamente, por dois motivos:

Porque, até que isto seja feito, nós estaremos completamente incapacitados para a comunhão com Deus, nos rituais sagrados (w. 23,24). O caso suposto é: se “ teu irmão tem alguma coisa contra ti” , ou seja, se você o injuriou e ofendeu, seja isto real ou na percepção dele. Se você é a parte ofendida, não há necessidade desta demora; se você tem alguma coisa contra o seu irmão, resolva isto rapidamente. Nada mais precisa ser feito, a não ser perdoá-lo (Mc 11.25), e perdoar a ofensa. Mas se a disputa se iniciou no seu lado, e a culpa foi sua, no início ou ao final, de modo que “teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão”, antes de servir fazer a oferta no altar, antes de se aproximar solenemente de Deus, nos serviços de oração e louvor, ouvindo a Palavra ou os sacramentos. Observe: (1) Quando nos dirigimos a qualquer prática religiosa, é bom que aproveitemos a ocasião para uma séria reflexão e exame próprio.

Há muitas coisas a serem lembradas quando levamos a nossa oferta ao altar, se o nosso irmão tiver alguma coisa contra nós; então, se este for o caso, precisaremos considerar a questão para que façamos um acerto de contas. (2) As práticas religiosas não são aceitáveis perante Deus, se forem realizadas quando sentimos ira.

A inveja, a maldade e a falta de caridade são pecados tão desagradáveis a Deus, que nada que venha de um coração onde estas coisas ainda predominem pode agradá-lo (1Tm 2.8). A s orações feitas com ira são escritas em amargura (Is 1.15; 58.4). (3) O amor ou a caridade são tão melhores que todos os holocaustos e sacrifícios, que Deus deseja que a reconciliação com um irmão ofendido ocorra antes que a oferta seja feita. Ele se satisfaz por esperar pela oferta, em lugar de tê-la quando somos culpados e estamos envolvidos em alguma disputa. (4) Embora estejamos incapacitados para a comunhão com Deus devido a uma disputa continuada com um irmão, ainda assim isto não pode ser uma desculpa para a omissão ou para a negligência em relação ao nosso dever: “Deixa ali diante do altar a tua oferta”, em outras palavras, “para que, de outra forma, quando tiver ido embora, você não se sinta tentado a não voltar”. Muitos expressam este pensamento como a razão p ela qual não vêm à igreja ou participam da Santa C eia, por estarem com algum problema com o próximo. E de quem é a culpa? Um pecado jamais irá justificar outro, mas irá dobrar a culpa. A falta de amor jamais poderá justificar a falta de piedade. O problema pode ser facilmente superado. Nós devemos perdoar àqueles que nos fizeram mal; e àqueles a quem nós fizemos mal, devemos compensar, ou pelo menos fazer uma proposta e desejar a restauração da amizade, para que se a reconciliação não acontecer, não seja por nossa culpa; e então vir e ser bem recebido, vir e oferecer a nossa oferta, e ela será aceita. Portanto, não devemos deixar que o sol se ponha sobre a nossa ira nenhum dia, porque devemos orar antes de dormir. Também não devemos d eixar que o sol nasça sobre a nossa ira em um dia que consagramos ao Senhor, porque este é um dia de oração e adoração.

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 53.

 

 

Há aqui uma importante mudança do plural (segunda pessoa) para o singular, uma mudança que aparece nas versões [portuguesas] (de “vós” para “tu”) e na tradução dada acima de “vocês” em “Vocês ouviram o que foi dito” e em “Eu, porém, lhes digo”, para “você” em “Portanto, quando você levar sua oferta”, etc. Quando a mudança é reconhecida, vê-se claramente que Jesus está personalizando muito agora. Ele então se dirige a cada indivíduo em particular. Que cada homem examine o seu próprio coração.

A própria palavra “portanto” revela que o que Jesus está prestes a dizer depreende-se diretamente daquilo que acaba de afirmar. E uma aplicação positiva da regra de que o coração deve estar sempre cheio de amor em vez de ira e ódio. Revela também que a atitude de amar a Deus e, portanto, trazer-lhe uma oferta, não combina com a atitude de não amar ao irmão, e de permanecer inimizado com ele. “Se uma pessoa não ama ao irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.20b).

A ilustração apresentada por Jesus é aquela, segundo o costume dos judeus, de uma pessoa que traz uma oferta ao altar (cf. Gn 4.3-5; Êx 25.2; Lv 1.2ss; SI 66.13). Naturalmente, se essa pessoa está fazendo isso de maneira apropriada, ela está meditando sobre a bondade de Deus para com ela. Em meio às suas meditações, lhe ocorre o seguinte: “Visto que Deus tem sido tão bondoso para comigo, como deveria tratar o meu irmão?”

De repente um pensamento lhe fere a mente: “Meu irmão Jônatas (ou qualquer outro nome) e eu não mais nos falamos. Entre ele e eu há algo de que ele considera como razão justa para acusar-me. O que eu devo fazer a respeito?” Nessa situação, em plena harmonia com o princípio que acaba de enunciar, Jesus diz (por assim dizer): “Não conclua o seu ato de devoção. Deixe a sua oferta no altar, vá imediatamente e visite o homem que se sente ofendido com você. Entre os dois (ôia) que se busque outro relacionamento, completamente diferente e melhor (cóUxrfl); ou seja, reconcilie-se com o seu irmão. Então volte e termine de oferecer a sua oferta.”

Segundo o original, estritamente Jesus está dizendo: “Se… você se lembrar que o seu irmão tem algo contra você…” O que significa esse “algo”? Significaria que, se você souber de alguém que, mesmo no mínimo grau, acha falta com você, você não pode levar essa oferta até que consiga que ele aprove tanto a você mesmo como a todos os seus caminhos? Se essa fosse a verdade, quão poucos seriam os atos de culto e devoção! Não creio que a intenção de Jesus tenha sido algo assim tão pouco prático. Este “algo” deve ser de natureza muito mais importante para ser qualificado de ofensa.

A próxima pergunta é: “Deve ser uma queixa justa, ou seja, deve o outro (o ofendido) ter um motivo justo para queixar-se antes de você dedicar-lhe os seus esforços a fim de conseguir a reconciliação?” Lenski pode ser tomado como representante daqueles que respondem no afirmativo (op. cit., p. 214);

Ridderbos, daqueles que respondem no negativo (op. cit., Vol. I, p. 110). Minha inclinação é concordar com Ridderbos. Se eu sei que meu irmão ainda pensa que tem o direito de estar insatisfeito comigo, não deveria esforçar-me em reconciliar-me com ele? É tão fácil encontrar um motivo (uma desculpa?) para não proceder assim!

Com relação aos vv.23 e 24, igualmente, Jesus está enfatizando o verdadeiro significado espiritual do mandamento. Em diversos lugares, o Antigo Testamento ensina que em certas circunstâncias as oferendas não são aceitáveis a Deus (Gn 4.5; 1 Sm 15.22; Is 1.11; Jr 6.20; Rm 5.22; Mq 6.6 — para mencionar apenas umas poucas passagens). A oferta deriva o seu valor do coração do doador (Mc 12.41-44; Lc 21.1-4; Hb 11.4; cf. Jo 3.16!).

A ilustração que se encontra nos vv.23 e 24 significa que a reconciliação pode esperar até que uma pessoa leve uma oferenda ao altar ou entre na igreja? De modo algum. O tempo para reconciliação é sempre agora mesmo.

HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento. Mateus. Editora Cultura Cristã. pag. 420-421.

 

 

2- Evitando a desavença.

 

Os versículos 25 e 26 de Mateus 5 têm relação com os versículos 23 e 24, mas uma conotação diferente: os versículos 23 e 24 dizem respeito à adoração; os 25 e 26 dizem respeito ao processo legal. Ambos, porém, procuram advertir os discípulos quanto ao problema da desavença entre irmãos. Nos versículos 25 e 26, nosso Senhor enfatiza que é preciso buscar uma solução para a desavença entre irmãos fora do tribunal. Naquela época, quando a pessoa era sentenciada, pagaria até o último kodrantes (de origem latina), que significa quadrante (aproximadamente quarta parte de um “asse”), a menor moeda de cobre romana, valendo cerca de um quarto de um centavo. Nosso Senhor, portanto, nos convida a sanar as desavenças entre nós e, assim, preservamos o bom testemunho. Atentemos para a reflexiva indagação do apóstolo Paulo: “Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos e não perante os santos? […] Não há, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos? ” (1Co 6.1,5).

 

 

COMENTÀRIO

 

 

Porque, até que isto seja feito, estaremos expostos a muitos perigos (w. 25,26). É arriscado não procurarmos um acordo, e rapidamente, sob dois aspectos: (1) Um aspecto temporal Se a ofensa que causamos ao nosso irmão, ao seu corpo, aos seus bens ou à sua reputação, for tal que exija alguma ação na qual ele possa recuperar danos consideráveis, é sábio de nossa parte, e é a nossa obrigação p ara com a nossa família, evitar isto por meio de uma submissão humilde e uma satisfação justa e pacífica, para que, de outra maneira, ele não recupere os danos p ela lei e não nos coloque numa prisão.

Em um caso como este, é melhor entrar em acordo, nas melhores condições que pudermos, do que suportarmos alguma punição; pois é inútil disputar com a lei, e existe o perigo de sermos esmagados por ela. Muitos arruínam as suas propriedades e os seus bens persistindo obstinadamente nas ofensas que fizeram, que poderiam ter sido resolvidas de modo pacífico, se cedessem em algo, rapidamente, no início do problema. O conselho de Salomão no caso de responsabilidade é: “Vai, humilha-te… e livra-te” (Pv 6.1-5). E bom chegar a um acordo, pois a pena da lei é cara. Embora devamos se r misericordiosos com aqueles sobre os quais estamos em vantagem, ainda assim devemos se r justos com aqueles que têm vantagens sobre nós, desde que sejamos capazes. “Concilia-te depressa com o teu adversário”, em outras palavras, para que ele não se exaspere com a sua teimosia, e não se sinta provocado a insistir com as máximas exigências, e não deixe de fazer o abatimento que a princípio teria feito. Uma prisão é um lugar incômodo para aqueles que são levados a ela pelo seu próprio orgulho e desperdício de oportunidade, pela sua própria teimosia e tolice.

(2) Um aspecto espiritual. “Vai reconciliar-te… com o teu irmão”, seja justo com ele, seja amistoso com ele, porque enquanto continuar a disputa, assim como você estará incapacitado para trazer a sua oferta ao altar, incapacitado para participar da mesa do Senhor, também estará incapacitado para morrer. S e você persistir neste pecado, existe o perigo de você ser repentinamente levado pela ira de Deus, de cujo julgamento você não poderá escapar nem se isentar. E se você for o responsável por esta iniquidade, você estará perdido para sempre. O inferno é uma prisão para todos aqueles que vivem e morrem na maldade e na falta de amor, pois todos são contenciosos (Rm 2.8), e desta prisão não há resgate, não há redenção, não há fuga, por toda a eternidade.

Isto se aplica à g rande questão da nossa reconciliação com Deus, por meio de Cristo: “ Concilia-te depressa com [ele]… enquanto estás no caminho”. Observe que: [1] O grande Deus é um adversário para todos os pecadores, antidikos – um adversário legal; Ele tem uma controvérsia com eles, uma ação contra eles.

[2] É nosso interesse e star de acordo com Ele, nos familiarizar com Ele, para podermos estar em paz (Jó 22.21; 2 Co 5.20).

[3] E prudente fazermos isto rapidamente, enquanto estamos no caminho. Enquanto estamos vivos, estamos no caminho; depois da morte, será tarde demais para fazê-lo; portanto, não dê descanso aos seus olhos antes que isto seja feito. [4] Aqueles que continuam em uma situação de inimizade com Deus estão continuamente expostos à prisão da sua justiça, e aos exemplos mais temíveis da sua ira. Cristo é o Juiz, a quem os pecadores impenitentes serão entregues. Pois todo o julgamento foi confiado ao Filho. Aqueles que o rejeitarem como Salvador jamais poderão escapar dele como Juiz (Ap 6.16,17). É atemorizante se r entregue, desta forma, ao Senhor Jesus, quando o Cordeiro se tornará o Leão. O s anjos são os encarregados a quem Cristo os entregará (cap. 13.41,42); os demônios também são um tipo de encarregados, tendo o poder de serem os algozes da morte de todos os incrédulos (Hb 2.14). O inferno é a prisão em que serão lançados todos aqueles que continuarem em um estado de inimizade contra Deus (2 Pe 2.4). [5] Os pecadores condenados continuarão ali por toda a eternidade; eles não poderão partir porque jamais poderão pagar a dívida por seus pecados. Mesmo passando a eternidade em tormentos, jamais conseguirão pagá-la totalmente. A justiça divina só pode ser satisfeita através do sacrifício feito pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 53-54.

 

 

O quadro muda um pouco. Na aplicação anterior do sexto mandamento (vv.23 e 24), o irmão que deve ser apaziguado é descrito como tendo “algo (uma ofensa) contra ti”. Aqui (vv.25 e 26) o adversário está planejando iniciar — e de fato já poderia ter iniciado — um processo jurídico.289 Como no caso anterior, aqui tampouco é indicado se o adversário está moralmente no direito (de assim agir). Tampouco é declarado de forma definida a natureza do assunto em disputa, embora o v.26b (“até que pagues o último centavo”) poderia indicar uma dívida em dinheiro. Em todo caso, “você”, a pessoa a quem Jesus se dirige, deve fazer tudo quanto for possível para alcançar uma “boa disposição” (literalmente) com o teu adversário. Você deve tentar fazer as pazes com ele. Você deve fazer toda tentativa para estabelecer os fatos “fora do tribunal”, enquanto você ainda tem a chance de se entender com ele; portanto, privativamente, sem envolver os juízes ou o tribunal. A não ser que você faça isso, quando a decisão processual pode ser contra você, o resultado poderá ser que o juiz o entregue ao seu “subordinado” ou assistente, o “oficial” que executa as ordens do juiz. Então você será lançado na prisão e ali ficará até que pague o último centavo,29ü ou seja, dali jamais sairá!

É claro que as palavras do Senhor têm um sentido mais profundo. Em última análise, ele está falando não de um juiz terreno, e, sim, celestial; nem de uma prisão terrena, e, sim, do inferno. Que esse é o significado, evidencia-se de uma comparação não só com o v.22b, mas também com 18.30 e 35. É o coração que deve estar correto. E a disposição interior que deve estar dominada pelo amor para com os outros. Essa é a única maneira de cumprir o sexto mandamento.

Para resumir, é como se nos vv.25 e 26 Jesus estivesse dizendo: “Não se surpreenda com a urgência de meu mandamento de reconciliar-se com o seu adversário; porque, se você passar desta vida com um coração ainda em desacordo com o seu irmão, condição que ainda não tentou mudar, essa falha testificará contra você no dia do juízo. Além disso, se você morrer com esse espírito de ódio ainda em seu coração, jamais escapará da prisão do inferno.”

Pode-se suscitar a seguinte pergunta: “O peso repousa tão somente sobre mim e de forma alguma sobre a pessoa que se fez meu adversário?” Ou, expressando-o de outra forma: “Admitido que sou o infrator — pelo menos é assim que me vê o meu adversário —, não é o seu dever perdoar?” A resposta é fornecida pelas seguintes passagens: Mt 6.12,14; 18.21-35. Está implícito nestas mesmas passagens que quando já fiz tudo quanto estava ao meu alcance para chegar à reconciliação e o adversário ainda se recusa a ser justo, e a perdoar quando for o caso, a culpa agora repousará somente sobre ele.

O sexto mandamento, pois, é uma questão que envolve o coração, não apenas os atos exteriores.

HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento. Mateus. Editora Cultura Cristã. pag. 421-423.

 

 

Aqui Jesus nos oferece um conselho bem prático. Recomenda evitar problemas maiores, solucionando as diferenças que tenhamos com outros quando ainda estamos a tempo de fazê-lo.

Jesus traça o quadro de dois adversários que se dirigem ao tribunal e fala que se acertem entre si antes de chegar diante do juiz, porque se não o fazem, e se a lei segue seu curso, será muito pior, o que, pelo menos um dos dois, deverá enfrentar no futuro. A imagem de dois adversários que se dirigem juntos ao tribunal poderá nos parecer muito estranha e até improvável, mas era algo que ocorria com relativa frequência na antiguidade.

Na lei grega havia um procedimento denominado prisão sumária (apagogi) no qual a parte ofendida podia proceder à prisão de quem o tinha ofendido. Agarrava-o pela gola de sua túnica, de tal maneira que se lutasse para escapulir-se podia chegar a estrangular-se. É obvio, as causas que justificavam este tipo de prisão eram muito poucas. O infrator devia ser descoberto in fraganti, “com as mãos na massa”. Os crimes que autorizavam a este tipo de prisão eram o assalto, o roubo de roupa (os ladrões de roupa eram uma praga nos banheiros públicos da antiga a Grécia), o “carteirismo” e o sequestro (na antiga a Grécia era muito comum o sequestro de escravos especialmente capacitados e idôneos). Além disso podia prender-se sumariamente a alguém que procurasse exercer os direitos de cidadão quando estes lhe tinham sido tirados, ou ao que voltava à sua cidade ou estado depois de ter sido exilado deles. Em vista deste costume, não era pouco comum ver em qualquer cidade grega a dois litigantes dirigindo-se juntos para os tribunais.

Mas é evidente que o mais provável é que Jesus estivesse pensando em termos da prática no judaísmo. Este tipo de situação não era de modo algum impossível sob as disposições da lei judia. O litígio a que se faz referência nesta passagem é evidentemente um caso de dívidas impagáveis, quando, de não chegar a um acordo, “deverá pagar-se até o último centavo”. Estes casos eram julgados sempre pelo conselho local de anciãos. Indicava-se uma hora em que os litigantes deviam comparecer juntos ante o tribunal, e em qualquer aldeia ou população pequena, não era difícil que se encontrassem no caminho. Quando se determinava a culpabilidade de um acusado, ele era entregue ao oficial cuja responsabilidade era assegurar o cumprimento da sentença. Em caso contrário, tinha autoridade para encarcerar o rebelde, até que este fizesse o que o tribunal lhe tinha obrigado fazer. Evidentemente esta era a situação que Jesus tinha em mente. Suas palavras podem significar duas coisas.

(1) Pode ser simplesmente uma recomendação de ordem prática. Em repetidas oportunidades a experiência da vida nos ensina que se não solucionarmos uma diferença a tempo, se não encontrarmos a tempo a paz que acabe com uma disputa, a situação se fará cada vez mais complicada e difícil de resolver por bem. Muitas vezes as diferenças entre duas pessoas produziram diferenças entre suas famílias, que as gerações futuras herdaram, terminando por dividir uma igreja ou uma comunidade. Se no princípio um dos dois litigantes tivesse pedido desculpas, ou admitido sua falta, poderiam ter evitado muitas situações penosas. Se alguma vez nos encontrarmos em desacordo com outra pessoa, devemos procurar esclarecer as coisas o mais breve possível e restaurar a paz. Isto pode requerer de nossa parte a humildade necessária para reconhecer que agimos mal e pedir perdão; pode requerer que, embora nós tenhamos a razão, demos o primeiro passo reconciliatório. Quando algo anda mal nas relações pessoais, nove entre cada dez casos a imediata ação reconciliatória conseguirá solucionar a diferença. Mas se não se toma esta decisão imediatamente as relações continuarão deteriorando-se, e o azedume se estenderá cada vez mais, como uma mancha de azeite.

(2) É possível que Jesus tivesse em mente algo muito mais decisivo que isto. É possível que o significado de suas palavras fosse: “Acerte suas diferenças com seu irmão enquanto você vive, porque algum dia – não se sabe quando – sua vida acabará, e você terá que comparecer ante o tribunal de Deus, o Juiz final de todos.”

O dia mais importante do calendário judeu era o dia da Expiação. Sustentava-se que os sacrifícios deste dia valiam para expiar os pecados conhecidos e os desconhecidos; mas até este dia tinha suas limitações. O Talmud diz claramente: “O Dia da Expiação não serve para expiar as ofensas que o homem tenha cometido contra Deus. O Dia da Expiação não serve para expiar as ofensas que o homem tenha cometido contra seu próximo, a menos que o mal tenha sido reparado previamente.”

Aqui nos encontramos novamente com o fato básico, fundamental – ninguém pode estar em boas relações com Deus a menos que esteja em boas relações com seu semelhante. Deve viver a vida de tal maneira que ao chegarmos ao fim da vida estejamos em paz com todos os nossos semelhantes.

É possível que não seja necessário escolher uma destas duas interpretações das palavras de Jesus. Possivelmente Jesus pensasse em ambas as coisas quando as pronunciou. Neste caso seu propósito teria sido nos ensinar o seguinte: “Se você quer ser feliz neste mundo e na eternidade, nunca cultive o rancor nem deixe sem curar a divisão entre você e seu irmão. Aja de maneira imediata para eliminar a barreira que a ira levantou entre vocês.” .

BARCLAY. William. O Novo Testamento. Mateus. pag. 156-158.

 

 

SINOPSE III

Antes de ofertar, o seguidor de Cristo deve reparar qualquer tipo de desavenças.

 

 

AUXÍLIO VIDA CRISTÃ

“[Mateus] 5.23,24 – Relações rompidas podem dificultar o nosso relacionamento com Deus. Se tivermos uma mágoa ou uma queixa contra um amigo, devemos solucionar o problema o mais breve possível. [Mateus] 5.25-26 – Na época de Jesus, uma pessoa que não pudesse pagar sua dívida era lançada na prisão até que o pagamento fosse efetuado. A menos que alguém pagasse a dívida por ela, provavelmente morreria ali. É um conselho prático para solucionarmos as diferenças com os nossos inimigos, antes que a ira deles venha a causar-nos maiores dificuldades (Pv 25.8-10).

Você pode não entrar em uma discordância que leve aos tribunais, mas até os pequenos conflitos podem ser mais facilmente resolvidos se as pazes foram feitas logo. Em um sentido mais amplo, esses versículos nos aconselham a agir rapidamente, procurando ter a paz com os nossos semelhantes, antes que sejamos obrigados a apresentar-nos perante Deus” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio Janeiro: CPAD, 2004, p.1225).

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Como servos de Cristo que vivem os as verdades do Evangelho, não deixemos que pensamentos, palavras e ações firam o nosso próximo, nem deixemos que as desavenças se tornem disputas entre nós. Em caso de desavenças e desentendimentos, à luz das Escrituras, deve-se reconciliar-se imediatamente, seguir em paz com todos (Hb 12.14), pois é isso que o nosso Deus desejou quando escreveu: “Não matarás! ”

 

 

REVISANDO O CONTEÚDO

 

1- Que ideia a palavra Antinomismo traz? A palavra traz a ideia de que os cristãos não precisam obedecer à lei moral do Antigo Testamento.

 

2- O que o Antinomismo rejeita?

O antinomismo rejeita todo tipo de normas morais, deixando a pessoa livre para pecar.

 

3- O Senhor Jesus anulou o sexto mandamento?

Jesus não anulou o sexto mandamento do Decálogo (Êx 20.13; Dt 5.17). Contudo, sua interpretação foi mais elevada e profunda, pois revelou que a ira ou cólera contra um irmão é um tipo de homicídio no coração.

 

4- Qual o imperativo bíblico para a ira?

O imperativo bíblico é que a ira não pode nos dominar (Ef 4.26; Hb 12.15).

 

5- Qual o ensinamento de nosso Senhor quanto à desavença?

Nos versículos 25 e 26, nosso Senhor enfatiza que é preciso buscar uma solução para a desavença entre irmãos fora do tribunal. É preciso sanar as desavenças entre nós e, assim, preservar os bom testemunho.

 

ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

 

Acesse mais:  Lições Bíblicas do 1° Trimestre 2022 

 

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