9 LIÇÃO 4 TRI 2021 PAULO E A SUA DEDICAÇÃO AOS VOCACIONADOS

  9 LIÇÃO 4 TRI 2021 PAULO E A SUA DEDICAÇÃO AOS VOCACIONADOS  

9 LIÇÃO 4 TRI 2021 PAULO E A SUA DEDICAÇÃO AOS VOCACIONADOS

   

TEXTO AUREO

  “Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre o que o Espirito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (At 20.28)    

VERDADE PRATICA

  No Reino de Deus, a liderança mais antiga zela pelas lideranças mais novas. Os jovens vocacionados precisam de cuidado e zelo  

LEITURA DIARIA

  Segunda – Mt 10.7; Jo 21.15-17 O imperativo de Cristo como ponto de partida  

Terça – Gl 1.6; Rm 1.16 A vocação pastoral difere da vocação para a salvação  

 Quarta – Ef 4.11,12 O Senhor chama e ordena os vocacionados  

Quinta – At 20.24; Is 6,8-10 A vocação implica uma impulsão interior  

Sexta – 1 Sm 3.9 O vocacionado deve estar atento à voz do Senhor  

Sábado – Ef 1.17,18 Sabedoria, revelação e iluminação na vida do vocacionado    

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

 

Atos 20.17-34

  17- De Mileto mandou a Éfeso, a chamar os anciãos da igreja.

18- E, logo que chegaram junto dele, disse-lhes: Vós bem sabeis, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, como em todo esse tempo me portei no meio de vós,

19- Servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas lágrimas e tentações, que pelas ciladas dos judeus me sobrevieram;

20- Como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar, e ensinar publicamente e pelas casas,

21- Testificando, tanto aos judeus como aos gregos, a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo.

22- E agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer,

23- Senão o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações.

24- Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.

25- E agora, na verdade, sei que todos vós, por quem passei pregando o reino de Deus, não vereis mais o meu rosto.

26- Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos.

27- Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus.

28- Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.

29- Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho;

30- E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si.

31- Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós.

32- Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados.

33- De ninguém cobicei a prata, nem o ouro, nem a vestes.

34- Vós mesmos sabeis que, para o que me era necessário, a mim e aos que estão comigo, estas mãos me serviram.    

HINOS SUGERIDOS: 52, 126, 193 da Harpa Cristã

 

OBJETIVO GERAL

Afirmar o papel cuidador da liderança mais antiga acerca da mais jovem.  

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  Apontar é fixo como ponto de partida do aprendizado dos vocacionados;  

Assinalar ou legado doutrinário de Paulo para os novos líderes;  

Enfatizar o apelo de Paulo aos líderes.    

INTERAGINDO COM O PROFESSOR

  Uma das lições mais extraordinárias no ministério de Paulo é o seu investimento pessoal em formar novos obreiros. O apóstolo sabia que ele passaria brevemente, mas a Igreja permaneceria. Ele tinha uma consciência histórica a respeito da obra divina. Essa obra não terminaria nele, pelo contrário, avançaria até a volta de Jesus. É muito significativo conscientizar-se de que o Reino de Deus é muito maior do que qualquer interesse humano. A obra de evangelização e discipulado não pode parar por falta de novos obreiros. O Senhor chama as antigas lideranças para cuidar das mais novas, pois “grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara” (Lc 10.2).  

PONTO CENTRAL: A Liderança mais antiga deve cuidar das mais novas

 

COMENTÁRIO INTRODUÇÃO

Nesta lição, vamos estudar sobre o grande legado do apóstolo Paulo para os obreiros da atualidade. Sua maneira de ensinar os novos vocacionados, seu legado doutrinário para novos obreiros e seus apelos aos líderes para do rebanho de Deus. Temos muito o que aprender com a vida e o ministério do apóstolo dos gentios. Que o Espírito Santo fale aos nossos corações!    

Comentário

    Iremos perceber que o apóstolo Paulo tinha uma visão missionária e eclesiástica. A leitura do texto que serviu de base para a Revista de Escola Dominical traz a preocupação do apóstolo Paulo com a continuidade da obra do evangelho e a manutenção das igrejas por ele plantadas não só na Ásia, mas também no Oriente Médio e na Europa. No capítulo 20, Paulo faz um breve histórico de suas viagens missionárias e a preocupação com o futuro das igrejas plantadas. Ele declara ter a consciência tranquila quanto a sua responsabilidade ministerial com as igrejas, mas faz um alerta para as ameaças de “lobos devoradores” que procurariam entrar no “rebanho do Senhor” (a igreja) para matar as ovelhas de Cristo. Com os obreiros que estiveram com ele em Mileto, Paulo estava, de fato, despedindo-se, porque sabia que a sua batalha estava por terminar na terra. Para que compreendamos o tema deste capítulo, precisamos fazer uma breve digressão para o capítulo 19 de Atos dos Apóstolos, de quando Paulo chegou a Éfeso e encontrou apenas doze discípulos que ainda não tinham ouvido falar de Jesus senão nos sermões de Apolo, judeu de Alexandria, que conhecia apenas a mensagem profética de “João Batista” (Mt 3.1-17).

Apolo convenceu aqueles discípulos a batizarem-se com o “batismo de arrependimento” de João Batista. Eles não conheciam outro batismo, mas sabiam que o Messias anunciado por João Batista era aquele que batizaria com o Espírito Santo e com fogo. Entretanto, esses discípulos de Éfeso não sabiam ainda sobre o que aconteceu no dia de Pentecostes. Nada sabiam sobre o Espírito Santo, senão o que João Batista havia profetizado como aquele que viria depois dele, Jesus Cristo (At 19.4). Esse Jesus batizaria com o Espírito Santo e com fogo (At 19.2,6). Então, Paulo entendeu que deveria passar mais tempo com os efésios para ensinar-lhes sobre Jesus e o Espírito Santo. Ele mostrou-lhes que Jesus já havia passado pela morte de cruz e havia ressuscitado ao terceiro dia e que sua obra expiatória no calvário era suficiente para garantir-lhes a salvação de suas almas.

Mostroulhes também que eles deveriam receber o Espírito Santo em suas vidas para terem a capacidade de confessá-lo a todas as gentes. Orou por eles e impôs as mãos para que recebessem o Espírito, e o Espírito Santo veio sobre eles e “começaram a falar em línguas e a glorificar o Senhor (At 19.5,6). De fato, primeiro foram batizados em águas em nome de Jesus e depois foram batizados com o Espírito Santo com poder para serem testemunhas de Cristo. Porém, a situação é outra no capítulo 20 de Atos. Paulo entendeu que havia chegado o momento de ele ir a Jerusalém. Ele tinha pressa em chegar lá, mesmo contrariando seus companheiros, obreiros dispostos naquela região. Ele fez sua viagem de Trôade a Mileto, mas não retornaria a Éfeso para que seus amigos não o forçassem a permanecer por mais tempo em Éfeso. Então, ele envia uma mensagem aos obreiros em Éfeso, solicitando que eles viessem ao seu encontro em Mileto. Esses obreiros eram os colaboradores da igreja em Éfeso que administravam a igreja. Nessa oportunidade, Paulo não apenas se despede deles, como também os admoesta a que fossem fiéis à doutrina recebida. Enfim, qual a importância da igreja em Éfeso para o apóstolo Paulo? A comunicação do apóstolo na região deu-lhe a oportunidade de tornar Éfeso o lugar central de preparação de seus colaboradores para o exercício pastoral. Durante o tempo em que se dispôs a ficar em Éfeso, Paulo dedicou-se não só a doutrinar a igreja, como também a ensinar os obreiros vocacionados para a obra e prepará-los para serem os líderes nas igrejas plantadas por ele e abrirem outras em nome do Senhor. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

A relação mentoreado/mentor é muito preciosa e não pode ser tratada de modo superficial. Na verdade, esse relacionamento é um dom divino, algo parecido ao que Jesus diz a seus discípulos, seus mentoreados: Já não os chamo servos [hoje, uma palavra possivelmente semelhante seria “obreiros” ou “estudantes”], porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido. Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça (Jo 15.15,16). Ao referir-se a esta passagem, C. S. Lewis afirma que não escolhemos nossos amigos; Deus os escolhe para nós. Se, de um lado, essa afirmação nos leva a descansar no Senhor quanto a ele inserir pessoas em nossa vida e excluí-las dela, de outro lado, haverá situações em que teremos de tomar a iniciativa e nos esforçar a favor de nosso mentor ou mentoreado. E o caso da busca pela pessoa que será nosso cônjuge, por exemplo. Embora essa relação seja uma dádiva do céu, é preciso, para que dê certo, entregar nossa vida a ela! Uma relação de mentor e mentoreado é algo muito semelhante e precioso.

O aprofundamento é um processo longo, como ocorreu entre Jesus e os Doze. Foi necessário um ano e meio desde o primeiro chamado em João 1 até que Jesus os separasse como os Doze (Mc 3.13-19; Lc 6.12-16). Em certo sentido, o crescimento gradativo dessa relação pode ser comparado ao processo natural de amizade, namoro, noivado e casamento. O ideal é que seja lento e flua sem artificialismos e sem pressões. Para muitos, encontrar a pessoa certa para atuar como mentor (ou até para mentorear) é quase tão difícil como encontrar alguém para se casar, especialmente quando aquele que busca o mentor é também pastor. Mas vejamos o que dizem as Escrituras: “ […] busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta” (Mt 7.7). O significado desses verbos, em grego, demonstra uma ação continuada. Se não desistirmos, se realmente formos sérios em nossa procura, Deus nos revelará o líder pastoral, o discipulador ou o mentor de que precisamos. Lourenço Stelio Rega. Paulo e Sua Teologia. Editora Vida. pag. 48-49.    

 

I –  ÉFESO, O PONTO DE APRENDIZADO DO VOCACIONADOS

 

   1. O ponto de partida.

  Em lição anterior, vimos que Antioquia foi o lugar de desenvolvimento vocacional do apóstolo Paulo (At 13.1). Em Éfeso, o apóstolo permaneceu mais tempo e, por isso, dali surgiu um local estratégico para formar novos discípulos. Assim, preparar seus colaboradores vocacionados para atuar nas igrejas da Ásia era uma tarefa importante, pois o ministério de Paulo já estava mais independente dos apóstolos de Jerusalém, embora não perdesse a comunhão com a igreja mãe. Logo, sem uma boa preparação dos novos lideres, a obra de Deus não pode ser feita com eficácia. E preciso cuidar das novas vocações.    

Comentário

    Sem dúvida, foi a primeira escola de preparação dos que demonstravam vocação para o exercício do ministério cristão. Naturalmente, essa escola tinha características diferentes das escolas de Teologia dos tempos modernos, porque aqueles alunos não tinham livros em mãos e, certamente, faziam anotações em folhas de papiro ou em tábuas lisas de barro. Eles não tinham o Novo Testamento montado, impresso, e o conteúdo do ensino de Paulo era oral, fazendo comparações com as Escrituras do Antigo Testamento, que existiam não em profusão, mas em rolos enormes, especialmente os escritos dos profetas que profetizaram sobre Cristo. Éfeso foi o lugar onde Paulo permaneceu por mais tempo. É interessante saber que o ponto de partida para o desenvolvimento vocacional de Paulo foi em Antioquia, onde ele foi recebido pela igreja e, depois, enviado junto com Barnabé para o campo missionário. Porém, os anos haviam se passado, e Paulo estava amadurecido o suficiente para implantar um sistema de ensino de preparação dos seus discípulos. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.      

 

Paulo se demorou cerca de dois anos, no uso que fez da escola de Tirano, embora o termo talvez tenha sido usado de modo geral, o que significaria que o período poderia ter sido ainda mais dilatado. A permanência de Paulo em Éfeso, em sua totalidade, foi de mais de dois anos, pois Paulo mencionou, aos ouvidos dos pastores de Éfeso, em Mileto, quando se despedia deles a caminho de Jerusalém, que estivera entre eles pelo espaço de três anos. O fato é que Paulo já estava na cidade desde alguns meses, quando começou a utilizar-se da escola de Tirano.

Então, algum tempo depois, deixou esse local e passou a usar outro logradouro, talvez a casa de Priscila e Aquila. Não obstante, o tempo passado por Paulo em Éfeso pode ter sido de menos de três anos exatos, porquanto era muito comum, entre os antigos, arredondarem os números em seus cálculos da passagem do tempo. O evangelho exerceu poderosíssima influência sobre a Ásia Menor, bem como sobre o mundo ao redor, «…todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor…» A região geográfica aqui denominada «…Ásia…» não representa nem o território a que hodiernamente chamamos de Ásia Menor e nem, muito menos, ainda o continente asiático. Pelo contrário, indica a região que tinha a Lícia e a Frigia como suas fronteiras orientais, as praias do mar Egeu a oeste, o mar Mediterrâneo ao sul, e a Paflagônia ao norte. As*principais cidades dessa região eram Éfeso, Esmirna e Pérgamo; mas todas as sete cidades que aparecem no começo do livro de Apocalipse (capítulos segundo e terceiro), devem ser incluídas: Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia.

A Turquia moderna incorpora (essencialmente) a antiga Ásia. Quase não restam dúvidas de que foi durante esse tempo que essas cidades ouviram e receberam o evangelho, o que também significa que essas igrejas resultaram dos esforços do apóstolo Paulo durante a sua terceira viagem missionária. Em todas essas localidades habitavam muitíssimos judeus, alguns deles descendentes dos cativos de Ptolomeu Lago. Essa área era limitada pelo mar Mediterrâneo ao norte, ao sul e a leste. Essa é a área compreendida pela moderna Turquia ocidental. O idioma grego, nos tempos de Paulo, prevalecia nesse território. A província proconsular da Ásia compunha-se principalmente do reino de Pérgamo, que foi doado ao império romano por seu rei Atalo III, e incluía Lídia, Mísia, Cárias, e, ocasionalmente, Frigia.

O nome Ásia Menor não veio a ser usado senão a partir do século IV da era crista. O presente versículo indica ter havido um extenso ministério na Ásia, fato esse que não é descrito com quaisquer detalhes no livro de Atos. O vigésimo sexto versículo deste capítulo contém as palavras de Demétrio, um dos ourives da cidade de Éfeso, as quais se referem a como «…não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia…» se adorava à deusa Diana. No entanto, as atividades evangelísticas de Paulo agora ameaçavam todo aquele tão generalizado culto, e os ourives, fabricantes dos santuários dessa deusa, corriam o risco de sofrerem grande perda econômica. Naturalmente isso subentende a grande influência exercida pelo apóstolo aos gentios em todas aquelas áreas, que ordinariamente seriam consideradas inteiramente entregues à adoração pagã. O trecho de I Cor. 16:8,9 (que Paulo escreveu estando em Éfeso) alude a como se lhe abrira uma grande porta de serviço, enquanto ele estava ali, posto que também houvesse numerosos adversários. Cerca de quarenta anos depois disso, Plínio escreveu a sua famosa carta ao imperador Trajano, de Bitínia, na qual se refere ao cristianismo nos seguintes termos: «Pois o contágio dessa superstição se tem propalado não somente pelas cidades, mas igualmente pelas aldeias e pelos lugares do interior».

A passagem de Col. 1:6 contém a declaração paulina de que o evangelho chegou …em todo o mundo…, o que, naturalmente, significa o império romano de então. Todos esses fatores confirmam o quão rápida e eficazmente o cristianismo se espalhou naqueles primeiros anos de sua história. A despeito do fato de que Paulo contava com muitos auxiliares secundários, podemos afirmar com toda a verdade que foi ele, quase sozinho, através da ajuda do Espírito de Deus, quem estabeleceu o cristianismo por todo o mundo gentílico da época. Paulo foi, realmente, o apóstolo dos gentios. Quando ainda se encontrava em Éfeso, Paulo escreveu a sua primeira epístola aos coríntios, bem como uma outra epístola, a essa mesma comunidade cristã, que não possuímos como parte integrante de nosso N.T. canônico, e nem mesmo existe em qualquer outro sentido. (Ver I Cor. 5:9).

Alguns eruditos acreditam que foi também mais ou menos por essa época que Paulo escreveu a sua epístola aos Gálatas. No entanto, há mais indícios de que essa última foi registrada antes do concilio de Jerusalém (cuja narrativa ocupa o décimo quinto capítulo do livro de Atos), porquanto, de outro modo, haveria alguma referência, na mesma, aos decretos formais e às cartas enviadas pelos apóstolos às igrejas cristãs entre os gentios, e ao que Paulo certamente teria tecido referências, em sua epístola aos Gálatas, a fim de defender a sua posição em face da questão legalista. CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 413.      

 

ORGANIZAÇÃO DA IGREJA DE ÉFESO Paulo chegou a Éfeso e ouviu falar de Apoio, poucos dias depois desse ter ido para Corinto. A primeira providência de Paulo foi procurar seu velho amigo Aquila, o fabricante de tendas, e inteirar-se de tudo o que acontecera desde que deixara a cidade. Conheceu alguns crentes convertidos pela pregação de Apoio e, ao descobrir que esse os batizara no batismo de João, perguntou a 12 deles: – Vocês receberam o batismo do Espírito Santo quando creram? Os 12 cristãos fitaram-no surpresos e responderam: – Nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo. Havia, evidentemente, muita coisa a ser corrigida, e Paulo ofereceu-se bondosamente para realizar a tarefa. Depois de tê-los ensinado, batizou-os novamente, tanto homens como mulheres, em nome do Senhor Jesus, e impôs as mãos sobre eles. Uma nova igreja foi fundada naquele dia, composta de cristãos que, como os do Pentecostes, foram batizados no Espírito Santo. Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga de Éfeso e pregou ousadamente que Jesus era o Filho de Deus.

Mas surgiram disputas tão acirradas quanto à sua mensagem, que o pequeno grupo de cristãos perdeu a esperança de obter quaisquer novos frutos na sinagoga. Semana após semana, os judeus tinham ouvido o Evangelho de Cristo dos lábios de Áquila e Apoio, e agora de Paulo. Mas não só se recusaram a crer, como também endureceram os corações contra Jesus e depreciaram a Paulo, advertindo o povo de que o Cristianismo era antagônico aos judeus. Saulo afastou-se triste da sinagoga, para jamais pisar nela. A fim de continuar seus ensinamentos, ele alugou o salão de palestras da escola pertencente a Tirano. Esse homem era professor de retórica e filosofia, e dava aulas todas as manhãs. Paulo reunia seus seguidores à tarde, argumentando com eles diariamente. Não só discutia as reivindicações de Jesus, como também respondia às muitas perguntas relativas ao Cristianismo e à vida paga. Provavelmente tratou de assuntos como casamento, divórcio, escravidão e alimento oferecido aos ídolos – temas que voltaria a abordar mais tarde em suas cartas. No espaço de dois anos, a igreja de Éfeso cresceu e floresceu, e o Evangelho de Jesus Cristo foi pregado em toda a Ásia romana.

 

COMBATENDO A ADORAÇÃO AOS ÍDOLOS Éfeso era o centro de uma grande província. O templo de Diana, ou Artemis, fora levantado ali havia mil anos. Quando nasceu Alexandre, o Grande, o templo queimara completamente e os asiáticos reuniram ouro e prata para reconstruí-lo. Cada família da província deu a sua contribuição, e o novo templo ficou tão magnífico que veio a ser considerado uma das sete maravilhas do mundo. No dia da sua inauguração, um príncipe persa atirou uma flecha de sua torre mais alta e declarou: “Aquele que ultrapassar essa distância, ao aproximar-se desse edifício, encontrará aqui um santuário e ficará livre da perseguição”. O imenso prédio era de mármore, com fileiras duplas de colunas entalhadas. Em toda a volta havia 14 degraus de mármore, subindo em camadas como as de um bolo de noiva, e na base de cada coluna, profundamente esculpidas na rocha, havia figuras de homens e mulheres em tamanho natural. No centro do grande templo havia uma câmara formada por pilares de jaspe verde. Das paredes pendiam caros presentes, enviados por todas as províncias vizinhas, e perto da entrada, encontrava-se um altar esculpido por Praxíteles. Uma grande cortina púrpura descia do teto e, detrás dela, havia uma estátua de madeira em forma de mulher, escurecida pelo tempo. Era Diana, a deusa dos efésios, que, segundo diziam, caíra do céu. O ídolo era hediondo; mas, oculto pela cortina mística, tornara-se objeto de adoração para milhões de pessoas.

Pequenas cópias da imagem tinham sido feitas de bronze ou prata, e algumas vezes de ouro, mostrando Diana como uma linda mulher, usando na cabeça uma coroa. Em cada casa havia uma dessas estatuetas, pois segundo acreditavam, a deusa era poderosa para afastar o mal. O templo de Diana tornara-se o centro da vida de Éfeso. Peregrinos do mundo inteiro iam visitá-lo. Mercadores deixavam seu dinheiro com os sacerdotes, acreditando ser o tesouro do templo o lugar mais seguro do mundo. Grande número de artesãos ganhava a vida explorando a superstição do povo e fabricando imagens para serem usadas como talismãs. Ball. Charles Ferguson. A vida e os Tempos do Apostolo Paulo. Editora CPAD. pag. 82.

 

   2. Paulo e o despertamento de novas vocações.

 

  O ministério de Paulo tomou uma proporção muito ampla Era um ministério internacional. Para levar as Boas-Novas aos centros culturais do mundo, ele não podia atuar sozinho. Por isso, o apóstolo arregimentou e investiu em pessoas que o auxiliassem a levar o Evangelho. Podemos citar nomes como os de Timóteo, Sópatro, Segundo, Trófimo (At 20.4), Tiquico (Ef 6.21,22: Cl 4.7:2 Tm 4.12; Tt 3.12), Tito, Aristarco (CL 4.10), Filemom, Gaio e tantos outros Essas pessoas recebiam ensinos diretamente de Paulo, ou seja, o ministério do apóstolo despertava novas vocações.    

Comentário

 

    Antioquia foi o começo de tudo na vida de Paulo, uma vez que a igreja tinha um plano de ação para a evangelização das outras cidades, e essa liberdade de ação foi sentida depois da assembleia em Jerusalém em Atos 15. Paulo sentiu-se mais livre das amarras judaicas para levar o evangelho não só para algumas regiões circunscritas pela missão antioquina, mas ele também conseguiu vislumbrar pelo Espírito o oeste da Ásia Menor e a Grécia. A cultura adquirida na Grécia e em Roma, além da cultura judaica, como fariseu que era, levou-o para os centros culturais do mundo com a finalidade de mostrar o evangelho de Cristo como algo capaz de fazer frente às maiores culturas do mundo. Por isso, quando esteve na Grécia, Paulo foi a Atenas, em especial no Areópago, onde se reuniu com os sábios e filósofos para apresentar a riqueza cultural do evangelho de Cristo. E, para não trabalhar só, ele reuniu alguns homens que demonstravam vocação de Deus para serem líderes na igreja e investiu neles com o ensino da “sã doutrina” (1 Tm 1.10) para serem autênticos missionários com a mensagem genuína do evangelho. Em destaque, alguns desses homens eram: Silas e Timóteo; depois, em Atos 20, Paulo sempre teve a cooperação de outros obreiros como Sóprato, Secundo, Trófimo (At 21.9) e Tíquico (Ef 6.2; Cl 4.7; 2 Tm 4.12; Tt 3.12). Como não lembrar de Tito, Aristarco (Cl 4.10), Filemom, Gaio, Áquila e Priscila e tantos outros mais. Esses nomes eram daqueles que receberam o ensino de Paulo. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.      

 

Neste contexto, contudo, deve-se recordar especialmente os colaboradores, que foram um instrumento valioso para promover a atividade das comunidades. Deve-se aqui distinguir dois tipos de colaboradores: aqueles que Paulo escolhia pessoalmente, independentemente das comunidades; e aqueles enviados pelas comunidades, que, por tempo determinado, eram colocados à disposição da obra missionária paulina. Entre os colaboradores mais diretos que Paulo pessoalmente escolheu, deve-se, em primeiro lugar, mencionar Timóteo. Paulo o convoca, como colaborador, logo no início de sua primeira viagem autônoma à Europa (cf. cap. 6.1). Ele provavelmente foi convertido por Paulo (ICo 4.17) e, a partir de então, acompanha o Apóstolo – tanto quanto podemos observar – ininterruptamente (cf. lTs 3.2 e Rm 16.21). Em quatro cartas paulinas (lTs 1.1; 2Co 1.1; Fm 1; F1 1.1), ele é nomeado como colaborador. Essa projeção de sua pessoa corresponde às manifestações de apreço que Timóteo experimentou na correspondência paulina (ICo 4.17; 16.10s; F1 2.20-22) e às de tarefas que Paulo lhe confiou (ICo 16.10s; lTs 3.2s; F1 2.20-22). O período pós-paulino considerou Timóteo como sucessor do Apóstolo dos gentios em Éfeso e na Ásia (1 e 2 Timóteo), e também recorda-se dele como co-autor de 2 Tessalonicenses e Colossenses. Imediatamente após Timóteo, deve-se citar Tito. Também este, conforme Tt 1.4, foi ganho por Paulo, para o cristianismo, no período antioqueno; tomou parte do Concílio Apostólico em Jerusalém, como cristão de origem gentílica e como companheiro de Paulo (cf. cap. 5.2 e G12.1-3); seu maior mérito foi, no meio da confusão da comunidade de Corinto, contribuir, decisivamente, como pessoa de confiança de Paulo, para que o Apóstolo não perdesse essa comunidade (cf. cap. 7.1 e 8.3). Depois que Paulo se retira de Antioquia, Tito volta a encontrá-lo somente em Éfeso.

Tal como Paulo, não deve ter tardado em retirar-se de Antioquia, depois que a comunidade antioquena assumiu orientação petrina, devendo ter ido para a missão na Ásia. Enquanto Timóteo ainda é citado em Romanos (16.21), falta aí uma referência a Tito. Se ele estivesse com Paulo em Corinto, durante a redação de Romanos, o Apóstolo certamente o teria citado. Assim, pode-se supor que, após ter ajudado a reconciliar Corinto e Paulo, Tito, a partir da Macedônia, tenha trilhado caminhos diferentes dos de Paulo. Uma tradição local cita a Dalmácia (2Tm 4.10). Conforme Tt 1.5, ele (mais tarde?) se encontra em Creta. O período pós-apostólico também elaborou uma gloriosa memória a Tito na carta pseudo-epigráfica Tito. A igreja antiga venerava-o como missionário e primeiro bispo de Creta. Na primeira viagem à Europa, Paulo é acompanhado, além de Timóteo, também por Silvano (Silas) (cf. cap. 6.1). Ele, como judeu-cristão, com orientação gentio-cristã, em Antioquia colocou-se do lado de Paulo (contra At 15.22-29).

Sua colaboração na primeira viagem missionária está assegurada por lTs 1.1; 2Co 1.19. Seu nome aparece no cabeçalho de lTs 1.1 antes que o de Timóteo, o que significa que ele certamente é um colaborador mais antigo. Depois da permanência de fundação em Corinto, seus vestígios desaparecem, já que 2Ts 1.1 é apenas uma duplicata de lTs 1.1, e levando em conta que também lPd 5.12 não permite conclusões seguras. De acordo com esta última citação, Silvano escreve 1 Pedro, de Roma, por ordem de Pedro. Isso talvez seja um indício de que ele tenha passado para a missão petrina. Sem dúvida alguma, esses três personagens são os mais importantes na missão paulina.

Eles têm em comum terem sido diretamente escolhidos por Paulo como colaboradores; são independentes das comunidades, como Paulo; vivendo sem laços familiares, sem ter propriedade nem endereço certo; sendo, pelo visto, em grande parte, sustentados pelo próprio Apóstolo (2Co 12.18). Eles não ostentam o título apostólico, são simplesmente colaboradores de Paulo. Essa tarefa eles assumem por um bom tempo. Paulo os integra no seu jeito de realizar a missão (cf. ICo 9) e pode, com a subordinação deles à sua missão, reforçar sensivelmente as suas tarefas. Ao lado desses três colaboradores, há poucos, que certamente não foram enviados, temporariamente, pelas comunidades a Paulo, mas que, por iniciativa paulina, exercem a missão na linha de Paulo, como, por exemplo, Apoio, durante algum tempo em Éfeso, e Epafras no vale do Lico (cf. cap. 7.1). Também Onésimo (Filêmon) é engajado por Paulo para serviços especiais. O fato de Sóstenes aparecer no cabeçalho de 1 Coríntios, testemunha igualmente a favor de seu pertencimento ao grupo de colaboradores, uma vez que, em outras ocasiões, só são mencionados junto com Silvano e Timóteo. Desses quatro colaboradores mais imediatos, pouco sabemos, porque estamos limitados por referências muito vagas ou breves relatos. BECKER., JURGEN. Apostolo Paulo, Vida, Obra E Teologia. Editora Academia Cristã. pag. 264-266.      

 

 

Paulo mentoreou muitas pessoas, no entanto foi com Timóteo que esse trabalho, sem dúvida, destacou-se mais claramente. A imagem de mentor transparece em 1 e 2Timóteo, em especial no início de 2Timóteo. Experimente numerar, nos versículos citados a seguir, cada palavra, frase ou conceito que você considere expressão típica de um mentor: Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus, a Timóteo, meu amado filho: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor. Dou graças a Deus, a quem sirvo com a consciência limpa, como o serviram os meus antepassados, ao lembrar-me constantemente de você, noite e dia, em minhas orações. Lembro-me das suas lágrimas e desejo muito vê-lo, para que a minha alegria seja completa. Recordo-me da sua fé não fingida, que primeiro habitou em sua avó Loide e em sua mãe, Eunice, e estou convencido de que também habita em você.

Por essa razão, torno a lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você mediante a imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio. Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele, mas suporte comigo os meus sofrimentos pelo evangelho, segundo o poder de Deus […]. Retenha, com fé e amor em Cristo Jesus, o modelo da sã doutrina que você ouviu de mim. Quanto ao que lhe foi confiado, guarde-o por meio do Espírito Santo que habita em nós. Você sabe que todos os da província da Ásia me abandonaram, inclusive Fígelo e Hermógenes […]. Portanto, você, meu filho, fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus. E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros (2Tm 1.1-8,13-15; 2.1,2). Lourenço Stelio Rega. Paulo e Sua Teologia. Editora Vida. pag. 42-43.      

 

 

   3. Paulo, um mestre inspirado.

 

  O apóstolo Paulo aproveitou a boa vontade de seus “filhos na fé” para aprendizado no Evangelho. Nesse ser tido, ele tornou-se um mestre inspirado para os que o ouviam (2 Co 2.12.13.17; 1 Co 4.17: 7.40; Gl 1.8,9), pois o após tolo recebera revelações do próprio Senhor (Gl 1.12). Assim, Paulo reunia vocacionados para dar-lhes instruções de como pastorear a igreja local. Não por acaso, temos três epistolas paulinas denominadas de “cartas pastorais” (1 e 2 Timóteo, Tito). Ali, há instruções sobre como pastorear uma igreja, falar com diversas pessoas da igreja local, segundo suas faixas etárias. A constituição e a preparação de novos líderes era um cuidado constante do apóstolo, Esse deve ser o nosso cuidado também, pois a estabilidade ministerial da igreja local depende disso.    

Comentário

 

    Nos textos de 1 Timóteo 3 e Tito 1, Paulo destacou qualificações que dizem respeito à reputação, à ética, à moralidade, ao temperamento, aos hábitos das pessoas e à maturidade espiritual e psicológica dos obreiros qualificados para exercer o ministério numa igreja local. Essas qualificações são requisitos indispensáveis e indiscutíveis para quem deseja “o episcopado” (1 Tm 3.1). Paulo soube aproveitar a boa vontade de “filhos na fé” e até de outros cristãos que se ligaram a ele para aprender. Para que alguém seja habilitado para o ministério, é preciso satisfazer os critérios estabelecidos no Novo Testamento. Não basta olharmos para as qualificações culturais, sociais, descobrindo nessas pessoas seus talentos e dons, mas eles precisam de qualidades morais e espirituais para corresponderem aos requisitos da Palavra de Deus. Depois da sua conversão, Paulo foi discipulado nos fundamentos da fé cristã por tutores como Barnabé, bem como Áquila e Priscila.

Ele tornou-se cooperador e aprendiz das verdades do evangelho e começou a pregar sobre Cristo, mas era, na verdade, carente de maiores conhecimentos sobre a “igreja do Caminho”. Entendeu que precisava mais do que boa vontade; por isso, por direção do Espírito, Paulo foi para o deserto da Arábia e lá passou um período de quase três anos para receber as revelações especiais dessas verdades (1 Co 9.1; 15.8; Gl 1.11,12-15). Depois dessas revelações, mesmo não tendo aprendido aos pés dos apóstolos de Jerusalém, ele tinha apenas conhecimento dos rudimentos da doutrina de Cristo do início da sua fé. Então, o caminho do deserto da Arábia levou-o a aprender diretamente com o Senhor Jesus para tornar-se apto a pregar e ensinar o evangelho como um mestre inspirado (1 Co 2.12-26; 4.17; 7.40; 14.6; Gl 1.8; Fp 3.15). Não foi a Jerusalém para aprender por duas razões básicas: primeiro, porque havia restrições quanto à sua conversão e chamado da parte dos cristãos e dos líderes de Jerusalém; segundo, porque não teve oportunidade para esse empreendimento.

Entretanto, tudo quanto ensinou ao longo do seu ministério não era e nem foi diferente da “doutrina dos apóstolos” (At 2.42). Paulo fez muitos discípulos que se destacaram na História da Igreja no primeiro século da era cristã. Seus discípulos aprenderam de quem havia tido revelações do próprio Senhor Jesus Cristo (Gl 1.12). Das várias igrejas fundadas por Paulo, destacavam-se ainda homens como Erasto, Gaio, Aris arco, Sosípatro, Jasão, Epafras, Epafrodito e tantos outros citados nas várias cartas paulinas. Em Éfeso, Paulo reunia seus discípulos para dar-lhes orientação de pastoreio das igrejas que eles haveriam de pastorear. Paulo não pregou outro evangelho, senão o mesmo recebido e pregado pelos apóstolos. Ele não teve a oportunidade de estar aos pés de Pedro, Tiago, João, André e outros, mas transmitiu as mesmas verdades que se constituíram a doutrina dos apóstolos (At 2.42). Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

OS AJUDANTES DE PAULO EM ÉFESO A obra do Senhor prosperou, e o testemunho da igreja de Éfeso tornou-se conhecido em toda a Ásia. Timóteo chegou da Europa e juntou-se novamente a Paulo. Erasto, outro crente, seguiu os passos de Timóteo e tornou-se um dos ajudantes de Paulo em Éfeso. De fato, essa igreja veio a ser o centro da divulgação do Evangelho. Existia uma via direta de comércio entre Éfeso e Corinto, e os mercadores iam e vinham; os crentes em Jesus também faziam frequentes visitas às outras igrejas. Através de um desses viajantes, ou talvez de Apoio, Paulo recebeu notícias perturbadoras de Corinto. Muitos cristãos tinham voltado ao mundanismo da vida paga, e a impureza penetrara na igreja, sendo aceita passivamente. Ball. Charles Ferguson. A vida e os Tempos do Apostolo Paulo. Editora CPAD. pag. 83.    

 

 

Vejo que o mentor, como o pai espiritual, o líder pastoral ou o discipulador, será bem-aventurado se reunir as qualidades de Paulo descritas nessas passagens. Vejamos brevemente algumas delas:

  • Relacionamento paternal e familiar. Paulo trata Timóteo, repetidas vezes, como filho (lT m 1.2,18 e 2Tm 1.2; 2.1). Hoje, parece que carecemos tanto de pais espirituais como de filhos. A desestruturação e o desajuste familiar na atual geração são terrível. Precisamos muito de pessoas que saibam gerar filhos espirituais.
  • Amor. Vale a pena destacar como Paulo se referia a Timóteo: “meu amado filho” (v. 2, grifo nosso). Palavras semelhantes foram ditas pelo Pai após o batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado” (Mt 3.17, grifo nosso).

As Escrituras trazem mais oito frases similares com referência a Jesus, o que mostra quão fundamental isso foi para a vida e a identidade de Cristo (v. Is 42.1; M t 12.18; 17.5; Mc 1.11; 9.7; Lc 3.22; 9.35; 2Pe 1.17). Muitos líderes e pastores não estão convictos de que são realmente amados, aceitos pelo Pai celeste ou por um mentor ou pai espiritual aqui na terra.

  • Intercessão: a ligação profunda entre Paulo e Timóteo transparecia no relacionamento de Paulo com Deus. O apóstolo lembrava-se de Timóteo constantemente, dia e noite (v.3). Que privilégio contar com um mentor intercessor!
  • Intimidade: Timóteo tinha liberdade de chorar com Paulo, e este não se envergonhava disso (v. 4). Na verdade, o próprio Paulo também sabia ser transparente e compartilhar emoções profundas que também o levavam às lágrimas. Dirigindo-se aos anciãos de Éfeso, a igreja que mais tarde Timóteo supervisionaria, Paulo afirmou que serviu “ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas” (At 20.19); instou-os a cuidarem de si mesmos e a vigiarem, lembrando-lhes “que durante três anos jamais [cessara] de advertir cada um [deles] disso, noite e dia, com lágrimas” (At 20.31). Não devemos nos surpreender de que nessa despedida “todos choraram muito, e, abraçando-o, o beijavam” (At 20.37). O verdadeiro mentor não só deixa o coração transparecer, a ponto de as lágrimas fazerem parte de sua vida e de seu ministério comum, como encoraja seus seguidores a fazerem o mesmo.
  • Saudade e alegria (v. 4): Paulo, afinal, possuía um lado afetivo e sabia expressá-lo. Desenvolveu uma ligação afetiva com seu mentoreado. Alegrava-se com ele e buscava de fato oportunidades de compartilhamento (v. 2Tm 4.9). Mais uma vez, a alegria de Paulo reflete a alegria do Pai no Filho, quando diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado” (grifos nossos).
  • Reafirmação do que é bom (v. 5): Paulo citava qualidades de Timóteo e das boas experiências que compartilharam. Não insistia sempre em que seu mentoreado precisava melhorar, mas comunicava um profundo sentimento de aceitação.
  • Exortação (v. 6): Paulo não só reafirmava claramente seu amor, sua aceitação e alegria, mas também sabia como desafiar seu mentoreado para o crescimento.
  • Ministração: mais que uma vez, Paulo impõe as mãos sobre Timóteo (v. 6) e, em oração, vê o Espírito Santo agir de forma sobrenatural na vida deste (v. lTm 4.14). O poder e a graça de Deus fluíam de Paulo para Timóteo.

Discernimento das necessidades do mentoreado: Paulo sabia que Timóteo sofria dificuldades por causa da timidez ou do medo, por isso ministrava-lhe diretamente a respeito (v. 7) com palavras que encorajaram milhares de outros Timóteos através dos anos. Desejo de manter o mentoreado junto a si: Timóteo foi chamado a participar da vida de Paulo e a segui-lo de perto (2Tm 3.10,11; 4.9), até em seus sofrimentos (2Tm 1.8). Paulo não escondia de Timóteo a realidade nem o fato de que a vida cristã apresentava desafios e dificuldades. Também não o deixou enfrentá-los sozinho. O mentor se parece ao Paracleto, que se aproxima de nós e nos chama para junto de si. Exemplo (v. 13): Paulo mostrou a Timóteo como ensinar e viver (2Tm 3.10,11), não como um ser perfeito, mas como alguém que permanecia em constante crescimento rumo à perfeição (Fp 3.11-14).

Reafirmação do chamado do mentoreado: Paulo lembrou Timóteo de manter viva a chama do dom de Deus que estava nele (v. 6) e ainda estimulou-o a guardar o que lhe fora confiado ou depositado (v. 14). Compartilhamento de dificuldades-, o mentor não se vale de máscaras para levar o mentoreado a crer que tudo está sempre bem (v. 15). Em vez disso, compartilha suas dores, suas decepções e sua solidão (2Tm 4.9-16). Discipulado-, o estilo de ensino de Paulo, ao contrário do professor, não se baseia em conteúdo e em programas, mas no que flui do coração de um pai para um filho espiritual (2Tm 1.2; 2.1,2). Paulo repassa sua vida e a de Cristo, para demonstrar as verdades que desejava que Timóteo aprendesse, e o fez não só por meio de seu exemplo de vida, mas também por seu relacionamento com o jovem discípulo (2Tm 2.3-17).

  • Orientação do mentoreado no pensamento estratégico: Paulo desafia Timóteo a reproduzir o que recebera dele. Mais que isso. Desafia-o a multiplicar-se escolhendo as pessoas certas para que estas, por sua vez, ensinem a outros o que receberam (2Tm2.2).

Lourenço Stelio Rega. Paulo e Sua Teologia. Editora Vida. pag. 43-46.

 

SÍNTESE DO TÓPICO I

 

Éfeso foi um ponto de partida para o despertamento de novos vocacionados.

 

SUBSÍDIO PEDAGÓGICO

  Tenha um olhar atento para que tipo de atenção o aluno tem. Temos pelo menos três tipos: a espontânea a passiva e a voluntária. A espontânea tem a ver com a reação natural em relação aos nossos sentidos como, por exemplo, um susto; a passiva, tem a ver com a reação diante de um objeto em direção ao individuo; a voluntária é a que o individuo executa por consciência e vontade própria. A classe da Escola Dominical pode ajudar ao aluno a desenvolver essa atenção voluntária tão importante para qualquer área da vida. Para obedecer a Cristo é preciso estar voluntariamente atento aos seus ensinos. Pense em estratégias que resultem no maior envolvimento voluntário do aluno com o conteúdo da lição.        

 

II –  O LEGADO DOUTRINARIO DE PAULO PARA OS NOVOS LÍDERES

 

   1. A advertência de Paulo a respeito dos judaizantes e dos gnósticos.

 

  a) Quem eram os judaizantes? Duran te o ministério de Paulo, muitos judeus acolheram a mensagem apostólica e tornaram-se cristãos, mas nem todos aceitavam a liberdade crista dos gentios. Por isso, alguns deles torceram o ensino do apóstolo, afirmando que a salvação dos gentios dependia da observância da Lei Mosaica. Assim, exigiam que os gentios convertidos observassem a Lei, tais como alguns aspectos: a prática da circuncisão, a guarda do sábado judaico a observância dos ritos que envolviam datas e comidas. Parecia que a graça de Deus não era mais suficiente. Contra isso, Paulo se levantou corajosamente (GL1.6-9). E o legado que ele nos deixou foi a defesa intransigente quanto à natureza graciosa da salvação. Disso, nenhum líder cristão pode abrir mão: a Salvação é por graça e não por mérito humano.    

Comentário

 

    Quando Paulo chegava a qualquer cidade que ele queria evangelizar, procurava uma sinagoga na cidade para expor sobre Cristo e a sua obra de salvação realizada por Ele no calvário. Esse assunto provocava grandes discussões, e Paulo tinha que sair, às vezes, fugido para não ser apedrejado pelos judeus. Sem temer as reações, ele falava da morte de Cristo e da maneira como os judeus de Jerusalém induziram os romanos a levá-lo para a cruz, e isso era uma afronta para os judeus que não aceitavam essa acusação e não queriam aceitar o fato de que, se Cristo era o Messias, não poderia ser crucificado. Contudo, Paulo ia mais diante no seu discurso falando também da ressurreição de Cristo.

O fruto desses discursos inflamados de Paulo produziu conversões não só de judeus, como também de muitos gentios e amigos dos judeus que aceitaram a sua mensagem e tornaram-se cristãos, mas alguns deles não conseguiam desvencilhar-se do judaísmo. Essa insatisfação dos judeus que se diziam convertidos a Cristo começaram a torcer o ensino genuíno de Paulo, afirmando que a salvação dependia da observância da Lei Mosaica e que os gentios deveriam obedecer a essa Lei para serem salvos. Entre as observâncias da Lei, estavam a prática da circuncisão, que era um rito moral e físico específico, especialmente para os homens, e também a guarda do sábado judaico e outros ritos que envolviam datas e comidas.

Tudo isso era exclusivo dos judeus, e, na verdade, esses judeus não haviam entendido a doutrina da graça de Deus. Para eles, a graça de Deus não era suficiente para a salvação, pois queriam, de fato, acrescentar essas leis e ritos à fé cristã; por isso, Paulo teve que ensinar que a graça de Deus era suficiente para obtermos a salvação em Cristo. Aos Romanos 3.24, Paulo escreveu: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”. É lamentável que, ainda em nossos tempos, igrejas que dizem ser evangélicas estão atreladas ao judaísmo e repetem ritos nos cultos. Ora, nós amamos os judeus e respeitamos a liturgia judaica, só que isso é especialmente deles e para eles. Os judaizantes modernos nem são judeus, mas são pessoas de outras raças que esquecem que não estamos sob a égide do Antigo Testamento, nem da Lei Mosaica, mas somos o povo do Novo Testamento. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

 

JUDAIZANTES Cristãos judeus que, durante o período apostólico e inicio do pós-apostólico, tentaram impor o modo de vida judaico aos cristãos gentílicos. O verbo grego, que literalmente significa “judaizar”, e encontrado somente uma vez no NT (Gl 2.14); onde na verdade significa “viver de acordo com os costumes e tradições judaicos”. Nessa passagem, Paulo cita parte de um breve dialogo que teve com Pedro vários anos antes: “Você e judeu, mas vive como gentio e não como judeu. Portanto, como pode obrigar gentios a viverem como judeus?” (NVI). A questão que preocupava Paulo não era simplesmente se uma pessoa seguiria ou não o modo de vida judaico, mas se pensava erroneamente que a salvação era obtida dessa maneira. Nos primeiros dias do cristianismo, a maioria dos cristãos — se não todos — era de judeus antes de sua conversão ao cristianismo.

Os poucos que eram originariamente gentios, tais como Nicolau de Antioquia (At 6.5), haviam se convertido ao judaísmo antes de se tornarem cristãos. Naquele tempo, a conversão ao judaísmo era realizada através de três passos separados: (1) circuncisão (para homens); (2) um banho ritual na agua; e (3) o acordo de tomar sobre si “o jugo da lei”, ou seja, obedecer aos 613 mandamentos da Lei Mosaica conforme interpretados e ampliados na Halaca judaica (decisões legais rabínicas). Seguir os costumes e tradições judaicos e observar as leis religiosas judaicas eram um modo de vida normal para os judeus cristãos, quer judeus de nascimento quer convertidos. Para eles, a crença em Jesus como o Messias esperado pelos judeus acentuava, porem não substituía, seu judaísmo. O cristianismo não era considerado uma religião distinta, e sim a forma mais verdadeira de judaísmo.

Esses judeus cristãos haviam sido circuncidados quando crianças, ou na conversão, e também praticavam leis dieteticas kosher e regras e rituais de purificação descritos na legislação mosaica e na tradição rabínica. Além disso, eles continuaram adorando no templo em Jerusalém (At 3.1; 21.26) até a sua destruição pelos romanos em 70 d.C., e certos judeus cristãos continuaram a se reunir nas sinagogas (v. Tg 2.2). Conquanto os primeiros cristãos começassem como um movimento predominantemente judeu, ele em breve se expandiu para o mundo greco-romano. Judeus cristãos foram forcados a deixar Jerusalém como resultado de perseguições (At 8.1; 11.19-24) e proclamaram ao evangelho onde quer que fossem. Filipe foi o responsável por levar o evangelho a Samaria, onde muitos samaritanos se tornaram cristãos (8.4-25). No dia de Pentecoste, muitos judeus de todos os lugares do mundo romano converteram-se à fé cristã (2.5-11).

 

Aparentemente, quando esses judeus cristãos neoconvertidos retornaram aos seus lares, carregararn o evangelho com eles. Embora a origem da comunidade cristã em Roma esteja envolta em mistério, é através dela que o evangelho primeiro chegou a Roma. Uma das preocupações centrais de Lucas, o autor de Atos, é mostrar como o cristianismo, que começou como uma seita do judaísmo em Jerusalém, pequena e perseguida, se espalhou por todo o mundo romano; ao fazê-lo, ela foi rejeitada pelos judeus e abraçada pelos gentios. O momento decisivo principal em Atos está no capítulo 10, onde Pedro é o meio pelo qual o centurião romano Cornélio, juntamente com toda a sua casa, aceitou o evangelho e começou a manifestar os dons do Espírito Santo. De acordo com Atos 10.45, “os judeus convertidos que vieram com Pedro ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado até sobre os gentios” (NVI).

 

O número crescente de gentios convertidos ao cristianismo forçou os judeus cristãos a encararem um problema muito difícil: um gentio deve primeiro se tornar um judeu a fim de ser um cristão? Alguns judeus cristãos davam uma resposta positiva a essa pergunta, e esses se tornaram conhecidos como o grupo da circuncisão (At 11.2; GI 2.12). Outros, tais como Pedro e Barnabé, e especialmente Paulo, discordavam vigorosamente. Enquanto esses dois pontos de vista radicalmente diferentes poderiam ter dividido a igreja primitiva em duas facções principais, essa possibilidade não se concretizou. Lucas conta a história de como, depois de uma primeira viagem missionária bem-sucedida (At 13.1—14.28), Paulo e Barnabé relataram à igreja em Antioquia que Deus abrira uma porta de fé aos gentios (At 14.27). A oposição dos judaizantes no grupo da circuncisão foi logo sentida, uma vez que alguns deles haviam ido da Judeia a Antioquia com o propósito expresso de defender a ideia de que a circuncisão era absolutamente necessária para a salvação (15.1). Muitos judeus cristãos haviam sido fariseus, como Paulo. Esses ex-fariseus particularmente insistiam que os novos convertidos, que eram gentios, fossem circuncidados e guardassem a Lei de Moisés (v. 5).

 

Eles na verdade exigiam que os gentios se convertessem ao judaísmo a fim de serem cristãos. Paulo e Barnabé debateram com membros do grupo da circuncisão antes de uma assembleia com os apóstolos e presbíteros em Jerusalém (At 15.4-12). A assembleia, liderada por Tiago, ο Justo (irmão de Jesus), escutou ambos os lados e decidiu estabelecer um compromisso. Uma carta às igrejas gentílicas foi elaborada, na qual se recomendava que os gentios convertidos ao cristianismo aderissem somente a algumas obrigações essenciais: (1) abstenção de comida sacrificada a ídolos, (2) abstenção do consumo de carne de animais estrangulados e (3) da imoralidade sexual (w. 23-29). Essas três obrigações foram provavelmente selecionadas porque se pensava que tinham sido características importantes daquelas leis consideradas como parte da aliança entre Deus e Noé de acordo com a tradição judaica. Uma vez que Noé era o ancestral de toda a humanidade, gentios e judeus, essas leis tinham validade universal. A aliança mosaica, por outro lado, pesava apenas sobre judeus, não sobre gentios. Por essa razão, o Concílio de Jerusalém determinou que a abstenção da carne sacrificada a ídolos, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual se aplicava a todos os cristãos, enquanto que a obrigação da circuncisão não. Julgando-se com base no restante do livro de Atos, é possível supor que a decisão do Concílio de Jerusalém foi satisfatória para os judaizantes do grupo da circuncisão. No entanto, mediante detalhes fornecidos por Paulo em muitas de suas cartas, descobrimos que não foi esse o caso.

 

Depois que Paulo resume os resultados do Concílio de Jerusalém para os cristãos gálatas (GI 2.1-10), ele relata como, mesmo depois do Concílio de Jerusalém, os judaizantes do grupo da circuncisão eram suficientemente poderosos para fazer com que mesmo Pedro e Barnabé se isolassem temporariamente dos cristãos gentílicos (de acordo com as leis de pureza rabínicas, alguém se tornava religiosamente impuro se comesse com gentios). A razão principal por que Paulo escreveu aos gálatas foi a de combater os judaizantes que haviam aparentemente invadido as comunidades cristãs na Galácia depois de sua partida. Esses judaizantes parecem ter persuadido com sucesso alguns dos cristãos gálatas de que a salvação estava disponível somente para os que eram circuncidados e guardavam a Lei Mosaica (5.12; 6.13). Ao menos alguns dos problemas experimentados pela igreja de Corinto parecem ter sido causados pelos judaizantes (2 Co 11.12-15,22), e eles haviam infectado a comunidade cristã em Filipos (Fp 3.2,3). Judaizantes também parecem ter feito algum progresso na igreja em Colossos.

 

Assim disso Colossenses 2.16,17: “Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo” (NVI). De todos os apóstolos e presbíteros primitivos, Paulo foi um dos que mais se opôs à visão dos judaizantes, de que os gentios primeiro deveriam se tornar judeus a fim de serem cristãos.

 

Sua conversão dramática ao cristianismo, narrada três vezes em Atos (9.1-9; 22.6-16; 26.12-23) e ocasionalmente mencionada pelo próprio Paulo (ICo 9.1; 15.8; Gl 1.11-17), o convenceu de que a salvação poderia ser alcançada somente pela fé em Cristo. Uma vez que Jesus era o único caminho, todos os outros meios pelos quais as pessoas buscavam obter a salvação eram necessariamente inválidos e ilegítimos. Paulo estava plenamente consciente de que não era pelo fato de ser um judeu que cumpria a lei que ele seria justificado diante de Deus (Fp 3.2-11), e sim por sua fé em Cristo. Principalmente por causa da atividade persistente dos judaizantes, Paulo teve de insistir frequentemente na não validade da lei e na validade da fé como o meio de ser justificado diante de Deus.

 

Esse tema domina suas Cartas aos Romanos e aos Gálatas. O cristianismo judaico gradualmente se enfraqueceu e desapareceu, e, com ele, a insistência dos judaizantes de que os gentios vivessem de acordo com os costumes e tradições judaicos a fim de receber a salvação. O centro do cristianismo judaico tradicionalmente tem sido Jerusalém. Pouco antes da destruição da cidade e do templo, ao fim da revolta judaica de 66-70 d.C., muitos cristãos judeus fugiram para Pela, em obediência a uma revelação divina. A revolta fadada ao fracasso de Bar-Kochba (132-135 d.C.) também enfraqueceu o movimento, quando os cristãos judeus experimentaram perseguição nas mãos de judeus insurgentes. O cristianismo judeu posteriormente ficou ainda mais fraco e por fim desapareceu. Com o seu desaparecimento, a persistente noção de que os gentios devem primeiro se tornar judeus, a fim de serem cristãos, também morreu. Philip W. Comfort e Walter A. Elwell. Dicionário Bíblico Tyndale. Editora geográfica. pag. 1019-1021.  

 

  JUDAIZAR, JUDAJZANTES Essas palavras derivam do verbo grego (no original grego), em Gál. 2:14, que, em nossa versão portuguesa, é traduzido por «viverem como judeus». O termo aparece novamente nas cartas de Inácio (Maq. 8:1; Phil. 5). Na qualidade de bispo de antioquia, ele se opunha àqueles que insistiam sobre a necessidade da circuncisão, da observância do sábado e de outros costumes tipicamente judaicos, incluindo a guarda da lei como uma forma de vida meritória, a fim de se obter a salvação. A mensagem do Paulo combatia aqueles cristãos Judeus que ensinavam que a Igreja cristã, incluindo seus segmentos gentios, deveriam observar os ritos da legislação hebreia, a fim de obterem a salvação. Por isso foi que Paulo os combateu em termos tão contundentes, em sua epístola aos Gálatas. Na verdade, os judaizantes eram pessoas simples, sem um claro entendimento espiritual, que tentavam fazer a Igreja cristã voltar à posição de uma simples sinagoga.

 

Eles aceitavam as reivindicações messiânicas de Jesus, mas não entendiam que a doutrina paulina da salvação pela graça, mediante a fé, havia anulado a lei como método de obtenção da salvação e muito instrutivo que a epistola de Tiago, no Novo Testamento, que só veio a ser aceita como canônica após muito tempo, na realidade é um livro com tendências judaizantes, conforme o segundo capitulo, com sua insistência sobre a fé e as obras da fé, como bases para a justificação, prova amplamente. Afinal, não nos deveríamos surpreender diante disso. Pois o décimo quinto capitulo de Atos mostra-nos claramente que esse tipo de filosofia foi fortíssimo na Igreja primitiva, devido à preponderância numérica dos judeus sobre os gentios. O primeiro versículo daquele capitulo mostra-nos que alguns ensinavam que a circuncisão era necessária à salvação. E o quinto versículo do mesmo capitulo diz que, na Igreja primitiva, houve muitos convertidos dentre os fariseus. Naquele versículo, eles são chamados de «fariseus que haviam crido», Naturalmente, esses fariseus ensinavam, conforme aquele versículo o mostra, que tanto a circuncisão quanto a observância da lei eram necessárias à salvação da alma. Aqueles homens também insistiam que essa obrigação pesava não somente sobre os judeus, mas também sobre os gentios que se convertessem. Visto que eles tentavam fazer os cristãos tomarem-se judeus por religião (embora reconhecessem Jesus como o Messias), eles foram apodados de judaizantes.

 

Mas o concilio apostólico de Jerusalém (o primeiro e único verdadeiro concilio ecumênico, que realmente representava o cristianismo como um todo), cuja menção histórica se acha no décimo quinto capitulo do livro de Atos, decidiu que os costumes judaicos, incluindo a circuncisão, não eram obrigatórios para os cristãos, quer judeus, quer gentios, por não fazerem parte da dispensação do evangelho. Dizer que os judaizantes não eram verdadeiros crentes por não estarem convencidos quanto à doutrina paulina da justificação pela fé, e até se opunham à mesma, para dizermos o mínimo, é um anacronismo. O Novo Testamento reflete um período de transição, e foi preciso um longo tempo para que a Igreja cristã se tomasse essencialmente paulina, quanto à sua perspectiva, até abandonar a perspectiva refletida na epístola de Tiago. Obviamente, outro tanto está acontecendo em grandes segmentos da cristandade atual. Também deve ser dito que nem todos os eruditos concordam que a Igreja cristã foi inicialmente tíaguina, e se mais tarde, paulína, embora admitam que esses dois apóstolos encaravam as mesmas verdades de dois ângulos diversos. CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 619.    

 

 

b) Quem eram os gnósticos? Havia cristãos adeptos do gnosticismo. Eles acrescentavam elementos filosóficos à fé crista que corrompiam a sã doutrina. Era uma filosofia prejudicial ao evangelho que Paulo ensinou. Os gnósticos se consideravam mais espirituais que os demais. Para eles, o espirito era mais importante que o corpo, e ensinavam que o corpo é matéria imprestável. Da implicação desse ensino resultava a banalização da graça de Deus. Uma graça que não requer arrependimento, santidade e disciplinas espirituais não é graça verdadeira. O apóstolo Paulo refuta esse falso evangelho, dizendo: “E a mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espirito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23). Seu legado para nós no século XXI: não banalize a maravilhosa graça de Deus.

 

Comentário

 

    Uma das heresias mais perigosas que ameaçava a Igreja Primitiva por mais de três séculos consecutivos era o gnosticismo. Entre as suas teorias filosóficas, eles ensinavam que a matéria era perversa e que só o espírito é bom no homem. Eles ensinavam um dualismo em relação ao espírito e à matéria. Ensinavam que qualquer coisa feita pelo ou através do corpo – não importando o pior pecado que se cometa através do corpo – não significava nada porque a vida verdadeira, dizem eles, existe apenas no reino espiritual. Os gnósticos ensinavam que o corpo físico de Jesus não era real e que parecia apenas ser físico, por isso negavam a humanidade de Cristo. Entretanto, a Bíblia rejeita essa heresia e ensina que Jesus foi verdadeiro homem e verdadeiro Deus (1 Jo 4.1-3).

Portanto, sua humanidade e sua divindade era e é uma realidade. Alguns cristãos eram adeptos do gnosticismo e queriam acrescentar à fé cristã os seus conceitos filosóficos, que corrompiam a sã doutrina. Eles afirmavam que eram mais espirituais que os demais porque não eram presos às coisas materiais, que eram desprezíveis na sua filosofia. Para eles, o espírito era mais importante que o corpo, ensinando que o corpo é matéria que para nada presta; por isso, tudo o que fizessem com o corpo não afetaria o espiritual. Para eles, o importante era o espiritual. Sendo assim, qualquer pecado de ordem física – glutonaria, bebedice, adultério, fornicação e outros pecados via corpo – não afetaria o espírito.

A ideia era que com o corpo serviriam as coisas do corpo, e com o espírito, as coisas do espírito. Entretanto, Paulo refuta essa ideia quando escreveu aos tessalonicenses: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23). Os gnósticos rejeitam a Bíblia como única fonte da verdade e como regra de fé e prática; além disso, colocam ao lado da Bíblia outra fonte de prática, que são os evangelhos gnósticos, que se constituem de uma variedade de escritos filosóficos. Eles gostam de citar a Bíblia tomando textos isolados que concordem com suas ideias. Os líderes da igreja precisam estar aptos para confrontar essas heresias e fortalecer a “sã doutrina” na vida da igreja. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

GNOSTICISMO Pensamento religioso diferenciado pelas afirmações acerca do conhecimento obscuro e místico, enfatizando o conhecimento mais que a fé. Até meados do século 20, o gnosticismo foi considerado uma heresia cristã que se desenvolveu através da mescla da experiência e do pensamento cristãos com a filosofia grega. Mais recentemente, muitos estudiosos definem os gnósticos mais amplamente como devotos de uma visão religiosa que emprestou ideias de mui tas tradições religiosas. Os significados desses termos e práticas emprestados foram moldados nas expressões mitológicas da salvação experiencial. Gnosticismo como heresia Durante o século 20, muitas descobertas de documentos gnósticos têm permitido aos estudiosos definir o gnosticismo mais acuradamente. Antes do século 20, grande parte da informação disponível referente aos gnósticos vinha de autores cristãos primitivos (heresiólogos) que escreveram tratados contra os hereges e, no processo, descobriram algumas de suas crenças e práticas. Esses heresiólogos, tais como Irineu, Tertuliano e Hipólito viam os gnósticos como desvirtuadores do cristianismo. Os gnósticos desenvolveram muitas interpretações equivocadas da Bíblia, especialmente da narrativa da criação e do Evangelho de João. Na verdade, os autores gnósticos Herácleon e Ptolemais são os primeiros comentaristas conhecidos sobre o quarto Evangelho. A ira dos apologistas cristãos é bem resumida por Irineu, quando ele compara o intérprete gnóstico a alguém que rasga uma bela imagem de um rei e então a remonta na imagem de uma raposa.

 

Aparentemente, vários gnósticos continuaram como membros de igrejas locais e alguns serviram em altos cargos. Há especulação de que Valentino possa ter sido considerado um possível candidato a bispo de Roma. Além disso, Marcião, o lendário herege cristão, reinterpretou Paulo de tal maneira que o Deus do AT se tornou o deus do mal, e Cristo se tornou o mensageiro do bom Deus da graça. Muitas tendências gnósticas heréticas têm estado associadas a Marcião, que desenvolveu seu cânon censurado do NT e, por conseguinte, forçou os cristãos a reagirem esclarecendo próprio cânon. O cristão primitivo Eusébio (d. 339 d.C.), que selecionou algumas das primeiras obras perdidas de heresiólogos como Hegésipo, também fornece percepção acerca da hostilidade dos cristãos contra vários gnósticos como Marcião, Basílides, Taciano, Satornilo, Dositeu e o chamado pai de todas as heresias, Simão, o Mago. Tipos de gnósticos

  1. O tipo iraniano de mito gnóstico que surgiu na Mesopotâmia é uma adaptação do zoroastrismo.

Os mitos são construídos com um dualismo horizontal, no qual os poderes opostos do bem (luz) e do mal (escuridão) são considerados como claramente iguais em força. No primeiro estágio do mito, um segmento da luz é capturado pela escuridão invejosa quando a luz transcende e alcança o reino ocupado pela escuridão. A captura da luz tem sido vista por alguns estudiosos como a “queda” cósmica iraniana. Uma vez que os gnósticos são normalmente identificados com as partículas de luz capturadas, uma grande tarefa de seus mitos é descrever o processo pelo qual as partículas de luz (encapsuladas dentro do corpo dosgnósticos) são liberadas. O corpo, ou “carne” no sentido grego, é meramente uma cobertura ou tumba sem valor, enquanto o espírito — a centelha no homem ligada ao divino — é a parte que busca libertação e retorno à felicidade celestial. No sistema iraniano, as forças da luz se reagrupam e fazem um contra-ataque parcialmente bem-sucedido às forças da escuridão. Então, principalmente por meio da obra de um mensageiro estranho de força que obteve um ponto de apoio no mundo, as forças do bem são capazes de desafiar a obra dos captadores do mal e fornecer conselho (gnosis) a seus devotos. Essa gnosis leva à salvação ou libertação.

  1. O mito gnóstico do tipo sírio, que surgiu principalmente na Síria, na Palestina e no Egito, é mais complexo e envolve um dualismo vertical.

Nesse sistema há somente um ser ou grupo de divindades supremas (não dois, como no sistema horizontal). Seu dualismo é normalmente explicado como resultado de uma falha, ou erro, no bem. O erro no bem, por exemplo, é frequentemente atribuído ao membro mais inferior no bom panteão. A deidade culpada é normalmente chamada de Sofia (o termo grego para “sabedoria”, que indica a opinião negativa gnóstica da busca do filósofo grego por sabedoria). Esse mito gnóstico detalha como, em vez de estar satisfeito com sua posição na vida, a Sabedoria deseja a Profundidade Suprema. Uma vez que esse deus supremo não consegue tolerar a distorção e a fraqueza na divindade, ele deve excluir o desejo da Sabedoria a partir do reino celestial. Esse desejo é exilado em um céu inferior, é personalizado como a Sabedoria Inferior (às vezes chamada de demiurgo), e se torna o criador do mundo. Como deidades inferiores, o criador e os deuses subordinados (frequentemente chamados de fates) são incapazes de perceber o reino celestial superior e se consideram falsamente os seres supremos.

 

A deidade superior tortuosamente manobra a Sabedoria Inferior criando seres humanos e dando vida a eles por meio do processo de passar adiante o fôlego de vida. Sem conheci mento, no ato da criação, a Sabedoria Inferior não somente dá vida aos seres humanos, como também passa adiante partículas de luz divina. Desse modo, com a ajuda de um salvador — um mensageiro estranho de conhecimento enviado pela divindade superior e frequentemente chamado de Jesus — a humanidade é capacitada a perceber ainda mais que o criador e conquistar o torpor espiritual que se abateu sobre ele, quando seu espírito foi envolvido pelo criador em um corpo terreno. E como consequência da divisão dentro da deidade nesse sistema, a história bíblica do jardim do Éden é radicalmente reinterpretada. O criador fornece uma árvore da vida (que é uma designação incorreta) e na verdade oferece o cativeiro à humanidade. O deus inferior também proíbe o acesso à árvore do conhecimento (gnosis), que aparece em sua criação sem a sua autorização, sendo fornecida pela deidade superior com o propósito de despertar os gnósticos para o estado do qual eles vieram. Porque somente essas pessoas que têm partículas de luz são capazes de serem salvas, o processo de salvação na maioria dos mitos gnósticos, é determinista.

 

Além disso, a salvação verdadeiramente ocorre no fim da vida do gnóstico quando ele busca escapar do mundo criado. Simultaneamente à fuga, o gnóstico arranca os elementos criados do corpo a partir do seu espírito e sobe através das fatos até o reino celestial. Com respeito a ambos os sistemas do gnosticismo, descobertas recentes têm esclarecido nossa compreensão dos mitos. Novas fontes primárias para o tipo iraniano de gnosticismo tornaram-se disponíveis durante a primeira metade do século 20 e incluem a publicação do Saltério maniqueu (1938) e de um livro maniqueu de homilias (1934).

 

Novas fontes primárias para o tipo sírio de gnosticismo tornaram-se disponíveis através da publicação do manuscrito de Berlim em 1955, porém de forma mais significativa nosso conhecimento tem recentemente aumentado por meio dos códigos descobertos, normalmente designados como manuscritos Nag Hammadi. Compreendendo o propósito gnóstico Talvez um dos maiores problemas para os leitores não iniciados no gnosticismo esteja em compreender o propósito dos mitos gnósticos. Os mitos frequentemente parecem tão estranhos que os lideres são tentados a coçar a cabeça e se perguntar como alguém com alguma inteligência poderia acreditar nessas histórias mirabolantes. Deve se perceber, no entanto, que os autores do mito estavam buscando comunicar elementos de relações inexplicáveis entre o humano e o divino. O cativeiro do mal no mundo e seu relacionamento com um Deus bom têm expandido a mente dos maiores teólogos e filósofos da história. Os gnósticos desenvolveram sua resposta ao problema do mal transferindo de volta a culpa deste mundo ou para Deus ou para as divisões do reino divino.

 

Ao compartimentalizar o bem e o mal, foi decidir-se o destino de alguém pelos alinhamentos feitos por ele (a). No entanto, o papel do mal foi visto como tão forte neste mundo que os gnósticos, como os filósofos gregos antes deles, concluíram que o mundo era um contexto sem esperança para a vitória do bem. Consequentemente, eles abandonaram o mundo ao deus mau e desenvolveram uma teologia que se concentrasse na salvação como um processo de fuga do mundo. Sua teoria também forneceu uma salvação enquanto na terra: uma vez que os gnósticos continham partículas de luz divina, eles eram na verdade imortais, e seu espírito, embora existente em um contexto mau, não seria no fim contaminado.

 

O corpo, e toda a sua volúpia e desejos animalescos inferiores, seria destituído do espírito ao elevar-se através dos reinos da divindade inferior para ser reunido ao reino espiritual divino após a morte. Alguns gnósticos, de fato, carregavam a ideia da não contaminação a níveis ridículos, com sistemas desenvolvidos, onde relações sexuais com várias pessoas representavam encontros divino-humanos — quanto mais, melhor! Outros tendiam a apoiar comportamentos mais ascéticos, quando buscavam conformar o corpo miserável ao estilo de vida do espírito incorruptível. Uma das realidades que os intérpretes gnósticos encontraram foi o fato de que nem todos aceitavam suas teorias. Consequentemente, eles desenvolviam métodos místicos para fazer distinção entre vários tipos de pessoas. Usando ideias sugeridas por Paulo em ICoríntios 2 e Romanos 8, os gnósticos desenvolveram uma categorização altamente sofisticada de pessoas.

 

As pessoas pneumáticas, ou espirituais (i.e., gnósticas), eram divinas em sua origem, oriundas de partículas de luz. As pessoas carnais eram formadas totalmente de substâncias feitas pelo criador e jamais poderiam herdar o reino divino. Os cristãos que eles viam lutando para serem obedientes à mensagem bíblica, no entanto, eram um tipo de mistura. Eles necessitavam desesperadamente de desenvolver a sua salvação e, se fossem obedientes como pessoas físicas, poderiam obter alguma forma de aceitação. Esse elitismo dos gnósticos e sua distorção da mensagem cristã esclarecem a hostilidade dos cristãos em relação aos gnósticos. Os mitos eram as formulações metodológicas que os gnósticos usavam para expressar suas elaborações teológicas. Para entender, o leitor precisa da chave da gnosis, ou conhecimento. A interpretação dos mitos era, na verdade, um tipo primitivo de demitologização, semelhante ao processo que Rudolf Bultmann, um teólogo e estudioso do NT, do início do século 20, empregou para interpretar a Bíblia. Os autores gnósticos estavam entre as mentes mais brilhantes de seu tempo. Sua criatividade deve ser admirada. Sua teologia, no entanto, deve ser rejeitada como sendo uma distorção da mensagem bíblica. Veja Nag Hammadi, Manuscritos de. Philip W. Comfort e Walter A. Elwell. Dicionário Bíblico Tyndale. Editora geográfica. pag. 751-753.    

 

GNOSTICISMO. um termo derivado do grego yvcõaiç, conhecimento, e aplicado de modo variado a movimentos dentro, ou relacionados ao Cristianismo primitivo.

  1. Conotações. Até muito recentemente o termo era geralmente aplicado de forma coletiva à maioria daqueles movimentos do 2- séc., que se denominavam cristãos, ou que em grande medida, tomavam emprestado das fontes cristãs, mas que foram rejeitados pela principal corrente da tradição cristã (representada em pais como Irineu, Hipólito e Epifânio). Nenhum dos pais ou dos próprios grupos, no entanto, aplicam o título neste sentido, os primeiros usaram-no somente para certos grupos e indicavam simplesmente todas “as heresias”, o último uso foi o nome distinto de um grupo em particular. Há, contudo, algumas características comuns, entre elas uma preocupação dominante para com o conhecimento. Uma vez que estas características comuns (indicadas abaixo) aparecem em algumas outras formas de religião helénica contemporânea, e visto que esta preocupação para com o conhecimento é evidente no NT, há atualmente uma tendência para usar este termo de forma mais ampla. Alguns empregam este termo para qualquer forma de ensino dualista com princípios nitidamente opostos de bem e mal, que oferece o conhecimento como uma chave para a luta, e outros o aplicam ao mito do redentor supra mundano encontrado em algumas formas de religião helénica, aparentemente derivadas de fontes orientais, provavelmente iranianas. Apartir de diferentes pontos de vista, portanto, o termo tem sido aplicado à seita de Qumrã, a Paulo, ao quarto evangelho e aos pais alexandrinos. Parece ser melhor, no momento, utilizarmos o termo para movimentos cristãos e pós-cristãos do 2- séc., sem prejudicar a questão de seu significado para as origens cristãs.
  2. As características comuns do Gnosticismo. Qualquer pessoa que ler os livros de Irineu ou Hipólito contra as heresias ficará chocada com a ampla variedade destes movimentos; há sistemas gnósticos que testam as exigências intelectuais, outros que confiam em algo que não faz sentido e em truque de prestidigitador. Há líderes gnósticos que são (de modo muito relutante) acéticos magnânimos, e outros que são charlatões desenfreados. Todavia, todos eles oferecem conhecimento — e de uma forma ou grau que não pode ser encontrado fora de seus ensinamentos.
  3. Esta preocupação com o conhecimento une a mais alta e a mais baixa forma de gnosticismo. Em suas formações mais baixas, o conhecimento oferecido diz respeito simplesmente ao poder e aos segredos do futuro — os mesmos tipos de coisas para as quais as pessoas consultavam astrólogos e videntes, entretanto colocando num ambiente religioso. Nas formas mais elevadas, refere-se à especulação abstrata, atracando-se com problemas que eram obstáculos para os pagãos instruídos: como surgiu o bem e o mal no mundo, e como eles se relacionam com Deus? As vezes, também, é o conhecimento especial sobre Jesus que é proferido, como a base do secreto, fontes rigorosamente guardadas. O conteúdo essencial do conhecimento, oferecido em muitos dos sistemas que conhecemos, está resumido em uma passagem preservada em Clemente de Alexandria: “quem fomos, o que devemos nos tomar, o que fomos, onde fomos colocados, para onde nos apressamos, de que somos redimidos, o que é o nascimento, que é renascimento” (Excerpta es Theodoto 78.2). Nisto está implícito o pensamento da alma individual que entra no mundo vindo do lado de fora e passa por ele: e o gnóstico busca a chave tanto para as origens do mundo mal quanto para a salvação dele.

O conhecimento e a salvação eram palavras- chave de muitas religiões do 2- séc.: isto era o que as pessoas queriam das religiões de mistério e explica sua popularidade contemporânea. Os mestres gnósticos procuravam responder a estes anseios de um modo que fosse tanto cristão quanto compatível com as suposições básicas sobre Deus e o mundo sustentado pela maioria das pessoas daqueles dias. Estas suposições podiam ser formadas pela filosofia, mitologia ou astrologia contemporâneas; e em sistemas gnósticos diferentes estes fatores aparecem em graus diferentes. O que eles têm em comum é o desejo de serem contemporâneos.

 

Não havia nada peculiarmente gnóstico nas suposições comuns: estas podem ser encontradas, por exemplo, no escritor anti-cristão Celso, a quem ninguém podia referir-se como gnóstico. Celso acreditava que Deus é tão totalmente transcendente que ele não pode ter nenhum contato direto com o mundo; que a matéria é inerentemente má e não pode ter nenhum contato com Deus; e que os homens, ou pelo menos alguns homens, têm dentro de si uma centelha do divino que está agora encarcerada na prisão material do corpo. O homem é, assim, uma criatura de origem mista, uma mistura de incompatibilidades. (Origenes, Contra Celsum, passim). É por estas razões que Celso considera o Cristianismo auto-condenável: a reivindicação de que Deus tomou-se homem é impossível, uma vez que Deus e a matéria não podem se misturar. (Os mitos antigos falavam de deuses aparecendo em formas humanas: ninguém sugeriu que eram humanos enquanto nestas formas.). Os gnósticos, contudo, estão tentando ajustar as suposições de Celso com a proclamação cristã. Não surpreendentemente, ambos devem doar algo: as proporções, e assim o grau de aproximação do Cristianismo tradicional, varia em sistemas diferentes.

 

Em alguns, como o sistema de Valentino, (que foi um sério candidato ao bispado em Roma), uma confissão cristã um tanto ortodoxa poderia ter sido feita, embora houvesse pouco espaço para ela no sistema em si; em outros, como (aparentemente) a seita ofita, toda a pretensão de dar continuidade à principal corrente do Cristianismo foi deixada de lado, embora isto não impeça empréstimos, em grande escala, da Bíblia e da tradição cristã. E, obviamente, os movimentos evoluíram e mudaram; Basílides, por exemplo, parece ter sustentado um ponto de vista cristão ortodoxo razoável (Hipólito Refutation 7.26); mas em cinqüenta anos, Irineu nos diz que os seguidores de Basílides acreditavam que Jesus nunca fora crucificado. (AgainstHeresies 1. 19.1 ls.). Quanto ao movimento como um todo, contudo, podemos dizer: (a) Ele é racionalista. Está buscando responder perguntas que estão fora do escopo do AT e das testemunhas apostólicas, e fazer suposições inteiramente não-bíblicas. (b) Ele é místico, no sentido de buscar a identificação com e a absorção no divino (veja, por exemplo, a liturgia ofita espetacular por Origenes citada pela Origem, Contra Celsus 6.31). (c) Ele é mitológico, empregando um sistema de mitologia para expressar a verdade, como um suprimento essencial para (ou, em alguns casos, substitui) a tradição bíblica.

  1. O ponto crucia! do Gnosticismo.

O choque entre as suposições cristãs e as gregas chamou a atenção para a origem do mal no mundo. Para aqueles que csontruíam sobre as suposições gregas, isto poderia ser formulado da seguinte forma: Como a alma originalmente divina tomou- se encarcerada na matéria, e como ela pode fugir? Para os mestres que acreditavam no amor e na bondade de Deus, isto propõe problemas particulares. A resposta mais comum é dar um esquema mitológico, no qual a redenção toma-se um drama encenado entre as forças cósmicas — “os principados e potestades” do NT — as forças astrais em muitas das religiões contemporâneas.

  1. A revisão da teologia cristã. A tradição cristã central, representada nos apóstolos, manteve as características peculiares da fé judaica, da qual originou-se: monoteística, histórica, escatológica, ética e exclusivae. O Redentor continuou a ser chamado de “Cristo’’, uma tradução direta do hebraico “Messias”. A preocupação judaica com as intervenções de Deus na história humana foi conservada e ampliada — a pregação concentrando-se de fato, nos eventos históricos da vida, morte e ressurreição de Jesus. Embora a lei tenha sido abandonada, a ideia de um compromisso moral diretamente observada por Deus permaneceu. A crença, peculiarmente judaica na ressurreição e no julgamento final, foi conservada e as Escrituras judaicas continuaram a ser lidas. Embora a ideia de um povo de Deus, definida pela descendência física, desapareceu, a solidariedade de um único “Israel de Deus”, em continuidade ao Israel do AT significava a consciência contínua de uma única comunidade adoradora, uma “terceira raça” ao lado dos judeus e dos gentios. A reformulação gnóstica foi obrigada a chocar-se com todos estes elementos.
  2. A doutrina de Deus. Deus é concebido como afastado de toda a criação material. Esta fenda é preenchida por uma hierarquia de seres intermediários, em uma ordem descendente de magnitude. Estes são eões, geralmente unidos em pares de sizías (geralmente macho e fêmea), e são chamados coletivamente de “o pleroma” (plenitude). O mais antigo pode ser o resultado do ato criador de Deus; os outros emanam dele. Há mitos diferentes quanto à origem de nosso mundo; mas todos concordam que foi um erro, um acidente, a obra de um ser ignorante ou a brincadeira de um anti-deus. Uma imagem do universo material é aquela do aborto auto-gerado por um desejo desordenado de um eão fêmea (,Sophia “sabedoria”); e alguns sistemas tentam reconciliar esta concepção com passagens como João 1.3, descrevendo o Logos na criação como dando forma ao aborto disforme, o qual, desta forma, combina com os princípios de bem e mal. Em outros sistemas, do qual o mais influenciável foi o de Marcião, a criação é obra de um Demiurgo, uma divindade inferior.
  3. O Antigo Testamento. Claramente este esquema não reflete o Deus Criador/Vingador do AT. Consequentemente, mestres como Cerdo e Marcião abandonam francamente o AT, e consideram-se como libertando a Igreja dos grilhões dos judaizantes. Uma vez que uma pessoa consegue realmente ser radical com o AT sendo realmente radical com o NT, muitos dos que desejaram manter contato com os escritos apostólicos foram

forçados a tentar acomodar o AT. Uma longa e cuidadosa carta da teologia valentiniana de Ptolomeu (em Epifânio, Panarion 33) oferece uma divisão tripartida do AT: parte é de Deus, parte de Moisés agindo como um legislador; parte era dos anciãos; parte é eterna, ainda que incompleta; parte era temporária e agora está abolida; parte é simbólica, e agora está transformada.

  1. A natureza da autoridade. O Ptolomeu, já mencionado, diz a seu correspondente, “Você aprenderá a ordem e a origem a todos estes (eões) se você se julga digno de conhecer a tradição apostólica que temos recebido por sucessão, juntamente com a confirmação de todas as nossas palavras pelos ensinamentos do Salvador”. Isto é, ele está exigindo o acesso à fonte superior do conhecimento secreto. Gnósticos valentinianos e outros de “direita” louvaram da boca pra fora a mesma autoridade que a principal corrente da Igreja: o Senhor e seus apóstolos. Eles tiveram que mostrar que possuíam conhecimento confiável transmitido pelos apóstolos (e desta maneira, por último, do Senhor), o qual outros cristãos não possuíam. Os valentinianos reivindicavam uma tradição de um discípulo de Paulo chamado Teudas; os basilidianos de Pedro através de um Glauquias, e de Matias. Grupos mais exóticos frequentemente escolheram Tiago, o irmão do Senhor, como sua fonte, ou Tomé (Didimo, “o gêmeo” sendo tomado como o gêmeo do Senhor) como estando muito próximo da pessoa do Salvador. O agora famoso Evangelho de Tomé (Ditos 12) insinua que Tomé é a fonte de tradição superior a Mateus e Pedro, os apóstolos associados aos primeiros dois evangelhos.

 

  1. Encarnação e expiação. Se a transcendência de Deus implica na impossibilidade de seu contato com a matéria, como poderia Deus tomar um corpo humano, ainda menos sofrer em um? Há várias respostas gnósticas, dependendo do grau de aproximação à tradição cristã central. Alguns rejeitam a ideia de encarnação como um todo: Cristo era somente uma “aparição” de Deus em forma humana. Ele somente pareceu sofrer. Outros falaram do Logos divino repousando no justo, mas humano, Jesus — mas sendo levado à Paixão (o grito de abandono, Mc 15.34, foi considerado ser evidência disso). Outros novamente usaram a linguagem tradicional, mas não enfatizaram os eventos históricos da encarnação, mas as relações entre os elementos desordenados do Pleroma, que a encarnação corrigiu. Para Basílides o fato importante parece ser que Jesus tinha dentro de si todos os elementos da criação; sua paixão está relacionada à ordem desta confusão (Hipolito Réfutation 7.27). Ele está basicamente interessado na questão, De onde vem o mal? ao invés da questão, Como o pecado é perdoado? Igualmente, Valentino, no Evangelho da Verdade (descoberto em Nag Hammadi), usa a linguagem tradicional sobre a cruz sem encontrar um lugar limpo para este evento muito mundano neste complexo drama da redenção entre os eões.

 

  1. Pecado e salvação. O mal está associado à matéria, ignorância, deformação, deturpação. Consequentemente, a salvação é lançar fora a profanação em vez de receber o perdão por ofensas. A salvação vem como uma iluminação que dissipa a ignorância, triunfando sobre o material. O Evangelho é principalmente um meio do homem conhecer a verdade; os corpos cósmicos recebem a mesma instrução.
  2. Julgamento e ressurreição eram fontes constantes de dificuldades para aqueles que procuravam a saída do corpo na imortalidade. A ressurreição, e toda a dimensão escatológica associada a ela, está, obviamente, faltando nos esquemas gnósticos.
  3. A igreja e a vida cristã. Algumas escolas dividiam a humanidade em três, de acordo com o elemento predominante em suas constituições — o material (que estava sem salvação), a “psíquica” que poderia receber alguma purificação, e a espiritual, a elite capaz de receber os mistérios profundos. Naturalmente a terceira classe eram os gnósticos, a maioria dos cristãos formava a segunda classe. A igreja toma-se o clube dos iluminados, não a sociedade dos redimidos. A concepção de que a matéria é o assento do mal, conduz ao ceticismo, celibato e vegetarianismo em alguns sistemas, e paradoxalmente à licenciosidade em outros, onde a “liberação” da matéria significava que seus efeitos eram inconsequentes.
  4. A origem do Gnosticismo. Pesquisadores continentais têm frequentemente argumentado que o Gnosticismo possui uma origem pré-cristã, a figura de um redentor cósmico tomada de fontes orientais, especificamente iranianas, que são também a fonte primária de seu dualismo. Alguns até o veem como a essência do Cristianismo dos gentios (de fato, paulino) como uma sobreposição do Redentor Gnóstico sobre o Jesus

histórico. No entanto, ninguém ainda mostrou que o Redentor Gnóstico tenha existido antes da era cristã, e os documentos do Qumrã têm mostrado que a linguagem de Paulo e João sobre o conhecimento estava firmemente enraizada na tradição judaica. R. M. Grant sugere que o Gnosticismo em si é de origem judaica: o fruto da especulação não-ortodoxa trabalhando sobre uma estrutura apocalíptica, queda de Jerusalém, em 70 d.C. fez ser reavaliada. Certamente os documentos de Nad Hammadi sugerem o efeito da especulação judaica.

 

A “heresia colossense” combinou características judaicas e ascéticas, atividades filosóficas e veneração de poderes astrais (Cl 2.16-23), e quando Paulo fala de todo o pleroma habitando em Cristo (Cl 1.19), é tentador vê-lo tomando a palavra que os gnósticos usaram em seu esquema de seres intermediários, desinfetando-a e substituindo-a, por assim dizer, por Cristo. Mas nem os colossenses, nem os coríntios, ou os grupos atacados nas epístolas pastorais ou em 1 João, mostram um sistema gnóstico do tipo refletido nos movimentos do 2- séc. Os coríntios deleitaram-se indevidamente no conhecimento (ICo 8.1; 13.8) e na sabedoria (1 Co 1.17), estavam infelizes com a ideia de ressurreição (ICo 15), incluindo tanto aqueles que questionavam se um cristão deveria casar-se (1 Co 7) como aqueles cuja “liberação” os tomava indiferentes à ação de seus corpos (ICo 6.12-18). Outros possuíam “a falsamente chamada” gnosis (lTm 6.20), mitologias e genealogias (lTm 1.4), espiritualizavam a ressurreição (2Tm 2.18), brincavam com as “fábulas judaicas” (Tt 1.14) e conheciam tanto o asceticismo austero (lTm 4.3) como complacências sexuais (2Tm 3.6). Os anciãos temiam que os mestres de um “fantasma” docético de Cristo (lJo 4.1-3).

 

Tudo isso mostra quão fértil solo a Igreja Primitiva fomeciau para o ensino gnóstico: mas não mostra nenhum sinal do Gnosticismo sistematizado do 2- séc. A literatura hermética, dentre a qual há algumas características pré-cristãs, com a sua busca mística por iluminação e renascimento, também lembra frequentemente um dos documentos gnósticos; e as religiões de mistério (com problemas notórios de materiais datados que as apresentam) fornecem outros paralelos. Tudo isso simplesmente reflete o que foi indicado anteriormente, que o Gnosticismo foi um fruto natural do 2- séc. de buscas religiosas do mundo helénico, com suas suposições gregas, religião oriental e fatalismo astrológico. Essas tendências não constituíam um sistema, mas, no contato com um sistema ou pregação articulada, eles eram capazes de formar um. Entrando em contato com o Cristianismo, eles tomaram o Redentor cristão e gnosticizaram-no, pegaram a pregação cristã e tiraram-na das raízes do AT, pegaram a tradição bíblica e procuraram fazê-la responder os problemas da filosofia grega, pegaram as convicções cristãs sobre o fim e expurgaram características judaicas ofensivas como a ressurreição e o julgamento. O Gnosticismo era parasita, e tomava a sua forma de um sistema ao qual se fixava. Observado por um outro ponto de vista, era cultural, um resultado de uma tentativa de digerir e “primitivizar” o Cristianismo.

 

Não deve nos surpreender, portanto, que algumas das mesmas tendências apareçam em outros cristãos do 2- séc., mesmo entre aqueles que ocasionaram a derrota eventual do Gnosticismo cristão. Pode ser difícil para nós que temos formação em outra forma de pensar, o qual não tem as mesmas suposições inerentes, entender as atrações do sistema gnóstico, ou as agonias e dificuldades de muitos teólogos cristãos da corrente principal. É uma medida de sua grandeza que, compartilhando de muito da intelectualidade gnóstica, pela fidelidade ao Cristo histórico e a tradição bíblica, eles produziram um “primitivo” pensamento cristão greco-gentio, que conservou a pregação primitiva e as Escrituras como um todo. Sendo um fenômeno crescente, essencialmente a partir de uma situação histórica e cultural particular, o Gnosticismo provavelmente não sobreviveria daquela forma por muito tempo. A crise gnóstica veio com a ascensão do iranianismo genuíno, uma religião de Mani (277 d.C.) radicalmente dualista, a qual foi espalhada pelo Império Romano a o partir do 3S séc. O maniqueísmo certamente enfrentou os cristãos gnósticos com uma escolha crucial: não poderia ser possível ficar no meio termo entre a corrente principal do Cristianismo e os livros de Mani.

  1. As fontes do Gnosticismo. Até anos recentes, os escritores gnósticos eram conhecidos quase que exclusivamente por intermédio dos escritos de seus opositores. Dentre eles, temos Irineu, Against Heresies; Hipólito, Refutation of All Heresies; e Epifânio, Panarion, os quais nos oferecem trechos de boms tamanho dos escritos gnósticos. Nos últimos vinte anos tem ocorrido uma gradual publicação de itens de uma biblioteca gnóstica descoberta em Nag Hammadi, no Egito, contendo uma tradução cóptica de obras de caráter bem diversificado. Esta inclui também muitos escritos além da tradição cristã e alguns manique- anos, como por exemplo, o Evangelho da Verdade,

provavelmente de Valentino, e o Evangelho de Tomé, que consiste em ditos atribuídos ao Senhor ressuscitado e inclui diversas variantes gnósticas sobre ditos sinóticos. Embora ainda haja tanto para ser feito no estudo destes documentos, a conclusão que emerge até então, é que os pais primitivos, com toda sua linguagem afiada, dificilmente nos direcionam erroneamente. MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 2. pag. 1043-1047.      

 

 

   2. O compromisso de Paulo com o Senhor (At 20.19).

 

  O apóstolo não se preocupava apenas em lidar com os falsos ensinos que deturpavam a fé cristã. Ele preocupava-se em viver de maneira coerente com o que ensinava Por isso, sua vida era sem ostentação, pois desejava refletir a humildade de Cristo (At 20.18). Em sua despedida dos obreiros de Éfeso, o apóstolo procurou deixar um testemunho de amor ao Senhor e à sua Igreja. Nesse senti- do, aprendemos com Paulo que não podemos pensar numa coisa, desejar e executar outra. Agir assim é viver numa profunda incoerência e confusão espiritual. É preciso pregar os ensinos de Cristo e refleti-los tanto na vida privada quanto na pública.    

Comentário

 

    A preocupação do apóstolo Paulo não era somente lidar com os falsos mestres e ensinos que deturpavam a fé cristã. Quando os encontrou em Mileto, ele mais uma vez deu o seu testemunho pessoal para afirmar-lhes que, durante seu ministério, desde o encontro que teve com Cristo, procurou viver uma vida coerente com aquilo que ensinava nas igrejas. Era um modo especial de afirmar que a vida pessoal e pública do obreiro é de fundamental importância perante a igreja. Ele teve uma vida sem ostentação, mas viveu-a com “humildade” perante o Senhor e perante todos os que conviviam com ele. Ele não tinha de que se envergonhar, nem por isso demonstrava qualquer resquício de arrogância perante aqueles amigos e obreiros, mas, ao apresentar o seu testemunho pessoal nessa despedida, ele continuava a ser um servo de Cristo desprendido para servir ao Senhor e dar a sua vida por Ele, assim como Ele deu a sua vida por todos. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

 

No original grego, o pronome «…vós…» é enfático, assinalando o fato de que Paulo apelava não meramente para suas próprias opiniões e para os seus próprios argumentos, alicerçado em qualquer ideia que fizesse de si mesmo e de seu comportamento em Éfeso, mas sim, apelava para aquilo que os seus irmãos de Éfeso mesmo eram capazes de admitir, por conhecimento próprio. «…desde o primeiro dia…» Isso aconteceu cerca de quatro anos antes, na primavera do ano de 51 ou 52 d.C. «Paulo, nesse sermão, se alicerça principalmente sobre esse ‘vós bem sabeis’, em sua exortação àqueles pastores de Éfeso, estribado em seu próprio exemplo, a fim de que cumprissem fielmente os seus deveres. Pois esse é 0 verdadeiro modo de censurar, por meio do que também a autoridade é acrescentada à doutrina, em que um mestre nada prescreve senão aquilo que ele mesmo fez antes.

 

Não era coisa indevida que Paulo se referisse às suas próprias virtudes. Nada existe de menos tolerável, nos servos de Cristo, do que a ambição e a vaidade; porém, posto que todos conheciam bem quanta modéstia e humildade havia naquele homem santo, ele não precisou temer de que incorria na suspeita de vangloriar-se…Realmente ele salientou grandemente os seus labores, a sua paciência, a sua constância, e outras virtudes; mas, com que finalidade? Certamente não para que fosse pessoalmente aplaudido por seu auditório, mas afim de que a sua santa exortação atingisse mais profundamente aos corações, e para que ela ficasse bem fixa em suas mentes. Paulo também atirou noutro alvo – que a sua integridade e retidão, no trato com os outros, posteriormente servissem para recomendar a sua doutrina». (Calvino, in loc.). (Quanto a um paralelo notavelmente parecido com esse discurso de Paulo, apresentado pelo profeta Samuel, ver I Sam. 12:3). Paulo estivera entre aqueles crentes em simplicidade e em piedosa sinceridade (ver II Cor. 1:12); comportara-se de modo santo, justo, inculpável e gentio (ver I Tes. 2:7,10).

 

Os povos antigos não reputavam a humildade como uma virtude, em seus sistemas éticos ordinários, e Aristóteles chegou a classificá-la como um vício de deficiência, sendo 0 extremo oposto da arrogância. Porém, o sistema ético ensinado pelo Senhor Jesus era muito diferente do que os filósofos diziam, provavelmente porque Cristo pôs, em perspectiva muito melhor, a majestade de Deus e a dependência do homem ao criador e também aos seus semelhantes. A verdadeira humildade consiste em uma das manifestações do amor, porquanto o indivíduo arrogante é justamente aquele que deprecia os seus semelhantes, se não chega mesmo a desprezá-los. O homem humilde, por outro lado, dá valor aos seus semelhantes e procura elevá-los, ao invés de procurar diminuí-los e arrastá-los para baixo.

Ora, é claro que a humildade revela um aspecto do ‘ amor cristão. Trata-se de uma admirável qualidade, que não se pode descobrir frequentemente entre pessoas de baixa condição, e muito menos entre aqueles que podem usar de poder e autoridade. As lágrimas de Paulo são referidas aqui. «…lágrimas…» nascidas do intenso desejo pelo bem-estar espiritual de seus convertidos e demais irmãos na fé, nascidas da sensibilidade para com os abusos praticados por indivíduos odiosos, ímpios e desvairados. Um dos sinais de alta cultura e civilização é a misericórdia, até para com os animais. Quanto mais sem civilização é uma cultura, tanto maior é a crueldade e a tortura a que os homens sujeitam os animais.

As civilizações mais cultas, entretanto, respeitam até mesmo o reino animal e muito mais ainda aos seres humanos. Quanto mais deve um crente no Senhor Jesus Cristo demonstrar sensibilidade e ternura para com a humanidade! Paulo era um homem profundamente intelectual, mas não da variedade seca e empedernida. Tinha o seu lado emocional, e não se envergonhava de demonstrá-lo. Paulo menciona novamente as suas lágrimas no trigésimo primeiro versículo, em demonstração de ansiedade e tristeza pelo bem-estar, especialmente pelo bem-estar espiritual de seus irmãos na fé, que passavam por sofrimentos e tribulações. Paulo se refere às suas lágrimas, que brotaram quando escrevia a incisiva carta que escreveu aos crentes de Corinto (ver II Cor. 2:4), e até mesmo quando denunciava os apóstatas sensuais (ver. Fil. 3:18).

«…provocações…» é palavra que se refere, de modo geral, às tribulações e sofrimentos que Paulo teve de enfrentar, mas, em particular, às perseguições tanto dos gentios como dos judeus, que se opuseram a ele em Éfeso. Em contraste com quase todas as demais narrativas do livro de Atos, aquela que concerne a Éfeso não envolve planos homicidas dos judeus, embora Paulo também tivesse sido forçado, naquela cidade, a abandonar a sinagoga (ver Atos 19:9). Porém, apesar de que a perseguição em Éfeso, segundo o registro de Atos, partiu principalmente da parte dos gentios, é razoável supormos que os judeus dali também foram causa de muitos apertos para os cristãos, acerca do que Paulo nos fala em suas epístolas aos crentes de Corinto. (Ver também Rom. 15:30,31). Os trechos de suas epístolas aos Coríntios que se referem aos sofrimentos de Paulo, são: I Cor. 4:10; 15:3 e s.;’16:9; II Cor. 1:4-10; 7:5 e 11:23. O décimo primeiro capítulo da segunda epístola aos Coríntios informa-nos especialmente sobre o que Paulo sofreu às mãos de homens desprezíveis e desvairados de ódio. Verdadeiramente ele teve de lutar com as feras, em Éfeso, segundo lemos em I Cor. 15:32).

 

As «…ciladas dos judeus…» não dizem respeito às ações de Demétrio, e, sim, essencialmente, a perseguições e tentativas de homicídio não registradas, mas tão-somente subentendidas, conforme aparecem nas notas expositivas oferecidas mais acima. «.,.servindo ao Senhor…» são palavras que se derivam de um verbo que indica o serviço de um escravo, expressão essa usada por seis vezes nas epístolas de Paulo, conforme se vê nos trechos de I Tes. 1:8; Rom. 12:11; 14:18; 16:18; Efé. 6:7 e Col. 3:24. Noutros livros bíblicos essa expressão só aparece uma vez no evangelho de Mateus e outra vez no evangelho de Lucas (Mat. 6:24 e Luc. 16:13), e em ambas as vezes o serviço prestado é a Deus. Com frequência Paulo chamou a si mesmo de escravo de Cristo, usando 0 substantivo dessa palavra. (Ver Rom.· 1:1; Gál. 1:1; Fil. 1:1 e Tito 1:1). Essa expressão, pois, é distintivamente paulina, evidenciando que Lucas o citou diretamente nesse discurso registrado no livro de Atos, certamente por tê-lo ouvido pessoalmente. CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 440-441.    

 

O primeiro compromisso do líder não é com a obra de Deus, mas com o Deus da obra. O relacionamento com Deus precede o trabalho para Deus. O primeiro chamado do presbítero é para andar com Deus e, como resultado dessa caminhada, fazer a obra de Deus. Em Atos 20.19 Paulo testemunha como serviu a Deus com humildade e lágrimas por causa das ciladas dos judeus. Três fatos devem ser aqui destacados:

  1. O líder está a serviço de Deus, e não dos homens.

O líder serve a Deus, ministrando aos homens. Quem serve a Deus não busca projeção pessoal. Quem serve a Deus não anda atrás de aplausos e condecorações. Quem serve a Deus não depende de elogios nem desanima com as críticas. Quem serve a Deus não teme ameaças nem se intimida diante de perseguições. Quem teme a Deus não teme os homens, nem o mundo, nem mesmo o diabo. O pastor não pode vender sua consciência, mercadejar seu ministério nem compactuar com esquemas mundanos ou eclesiásticos para auferir vantagens imediatas. Judas vendeu Jesus por dinheiro. Demas ficou cego pelos holofotes do mundo e abandonou as fileiras daqueles que andavam em santidade. Muitos obreiros, de igual forma, são atraídos pela sedução do poder, do dinheiro e do prazer e perdem a honra, a família e o ministério. Precisamos ter claro em nosso coração a quem estamos servindo. Não servimos a interesses de pessoas ou grupos. Não servimos àqueles que alimentam a síndrome de Diótrefes e pensam tolamente serem os donos da igreja. O pastor deve estar a serviço de Deus.

  1. O líder deve servir a Deus com senso profundo de humildade.

Muitos batem no peito, anunciando arrogantemente que são servos de Deus. Outros, besuntados de orgulho, fazem propaganda de seu próprio trabalho. Outros servem a Deus, mas gostam dos holofotes. Há aqueles que fazem do serviço a Deus um palco onde se apresentam como os atores ilustres sob as luzes da ribalta. Um servo não busca autoglorificação. Fazer a obra de Deus sem humildade é construir um monumento para si mesmo. E levantar outra modalidade da Torre de Babel.

  1. O líder não deve esperar facilidades pelo fato de estar servindo a Deus.

Quem serve a Deus com humildade e integridade desperta polêmica e muita hostilidade no arraial do inimigo. Paulo servia a Deus com lágrimas. A vida ministerial não lhe foi amena. Em vez de ganhar aplausos do mundo, recebeu ameaças, açoites e prisões. Paulo manteve sua consciência pura diante de Deus e dos homens, mas os judeus tramaram ciladas contra ele. Viveu num campo minado. Enfrentou inimigos reais, porém, às vezes ocultas. Nem sempre Deus nos poupa dos problemas. Às vezes, ele nos treina nos desertos mais tórridos e nos vales mais profundos e escuros. LOPES. Hernandes Dias. Atos. A ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos. pag. 410-412.    

SÍNTESE DO TÓPICO II

 

A advertência de Paulo a respeito dos judaizantes e dos gnósticos revela compromisso com o Senhor, maior legado do apóstolo às novas gerações.

 

SUBSÍDIO TEOLÓGICO

 

  Judaizantes Um termo extra bíblico designado aqueles que agiram como judeus e/ou buscavam assim influenciar outros baseado na acusação de Paulo de que a atitude de Pedro forçaria os gentios judaizarem-se (Gl 2:14). Os comentários referem-se a homens como judaizantes que buscavam importa a circuncisão judaica e outros legalismos sobre as gentios como, por exemple, os falsos irmãos que queriam levar toda a igreja para a escravidão da al vos aqueles que ensinavam: vos não circuncidardes… não podeis salvar-vos (At 15.1), Paulo atacou os Judaizantes na Galácia que obrigavam os homens a se circuncidar (Gl 6:17)  

 

Gnosticismo […] Atualmente se aceita que o movimento surgiu em um ambiente judaico-cristão. Isto não nega a presença de prováveis elemento pré-cristãos no gnosticismo. [It evidente que o movimento teve inicio em um ambiente hebraico-cristão [-] [Os gnósticos Acreditavam em uma divindade transcendente indescritível que é puramente espirito (Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD 2006, pp.871, 1103).    

 

III – PAULO APELA AOS LÍDERES

 

 

       1. Sobre o desprendimento de obreiro para realizar a obra de Deus (At 20.24).  

 

O apóstolo fala sobre b desapego material na vida do obreiro O versículo 24 mostra que Paulo tinha o coração livre da avareza e da ganancia Sua vida mostra que o desprendimento das coisas materiais e plena depender cia em Deus são características inegociáveis na vida do obreiro cristão podemos nos perder ministerialmente por causa da avareza e da ganância. Lembremos do exemplo de Paulo que procurava não ser “pesado” as igrejas que pastoreava e visitava (2 Ts 3.8).    

Comentário

 

    Quando fui chamado por Deus de modo pessoal e direto em 1963, na Assembleia de Deus de Blumenau – SC, eu era um jovem que fugia da ideia de ministério. Estava na igreja e regia os corais na época, mas não queria ser pastor algum dia, ainda que minha vocação viesse de berço. Naquele culto, fiz o desprendimento do meu coração e de tudo o que pudesse prender-me. No dia seguinte, fui chamado pelo meu chefe onde eu trabalhava e foi-me feita a proposta para preparar-me e estudar numa faculdade, a fim de ser um futuro diretor naquela empresa. Mas, naquele culto especial, aceitei o desafio de Deus em minha vida e desprendi-me 100% de todos os meus sonhos. Nesse desprendimento vivo até hoje, 58 anos depois, porque a chama da vocação ainda não apagou.

 

Acredito que Deus busca homens e mulheres capazes de desprenderem-se de todas as outras coisas da vida para obedecer a sua vocação. Esse desprendimento implica total abnegação das coisas materiais e plena confiança no cuidado de Deus para suprir todas as necessidades. Paulo tinha o coração livre da avareza e da ganância, ao contrário de muitos obreiros que têm perdido ministerialmente por causa da avareza e da vaidade pessoal. Paulo, pelo contrário, procurou nunca ser pesado financeiramente para as igrejas que ele pastoreava e, quando recebia alguma ajuda, era para dar continuidade ao seu ministério, mas ele preferia fabricar tendas para vender do que depender daquelas igrejas. Não há nenhum erro em as igrejas ajudarem no sustento de seus obreiros, nem mesmo daqueles que ensinam e pregam a Palavra de Deus. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

 

O corpo físico é apenas instrumento da alma, o qual também nos foi dado com o propósito específico de ajudar-nos a desempenhar as missões que nos foram destinadas por Deus. Quando o corpo físico de alguém é usado com maus propósitos, como no caso dos indivíduos que são sensuais, ambiciosos, que buscam a fama e as riquezas, além de outros empreendimentos meramente terrenos, seu corpo é impropriamente usado, e a missão que foi dada a esse alguém não está sendo devidamente cumprida. Por si mesma, a vida física não pode ser considerada como algo precioso; porém, na medida em que tornar-se veículo da alma, para fazer o bem, para cumprimento das missões que nos são dadas pelo Senhor Deus, então a vida física se reveste de valor. De fato, certas coisas podem ser feitas melhor neste mundo do que nos lugares celestiais. E é por essa razão que nos é dada a nossa peregrinação terrestre, a fim de que nossas almas possam prosperar espiritualmente, a fim de que implantemos os pés e prossigamos no caminho de volta a Deus persistentemente. Esse é o próprio sentido e o propósito da vida, em que o corpo físico nos serve de veículo.

 

E embora sejamos seres essencialmente espirituais, o corpo físico nos capacita a manifestar isso nesta dimensão terrestre, onde temos muito que fazer e muito que aprender. Todavia, à parte desse grande propósito de nossa carreira e «ministério», a vida física fica extremamente reduzida em seu valor. Todos os homens espirituais, que sentem profundamente, em sua própria alma, que têm alguma missão especial a realizar, reconhecem exatamente o que Paulo estava querendo expressar aqui. Sabem de quão pouco valor é a própria existência física, e quão desperdiçada é a vida vivida exclusivamente para a carne. No entanto, também sentem que é urgente preservar o corpo físico, a fim de que a missão da alma possa ser adequadamente cumprida por meio dele. Com todas essas verdades podemos comparar as palavras do apóstolo Paulo, o qual escreveu: «Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé» (II Tim. 4:7). Que maior satisfação, realização e alegria pode haver do que chegar um crente ao fim de sua vida terrena, sabendo que cumpriu devidamente a sua missão, completando o que lhe foi dado para fazer, sendo capaz de dizer algo semelhante ao que lemos aqui!?

«…carreira…» talvez seja alusão a uma corrida. O sentido é a missão determinada para alguém, o destino terreno de uma alma. Todos os homens têm uma carreira a completar, porquanto todas as coisas são imersas em desígnio e propósito, ainda que nem todos os homens queiram realmente cumprir esse destino com o mesmo zelo e perfeição que foram exibidos por João Batista e pelo apóstolo Paulo. Devemos notar que o mais importante é levarmos a bom termo aquilo que é esperado de nós, e que a felicidade, conforme esse termo é usualmente compreendido, não é 0 alvo imediato da vida, embora isso seja eventualmente prometido e possa ocorrer do outro lado da porta de Deus, isto é, após a transição a que denominamos de morte física. A conduta ideal, por conseguinte, não consiste na busca pela felicidade, nem da alegria e nem do prazer; mas consiste antes na tentativa de conhecermos e cumprirmos a carreira ou destino que nos está proposta. E interessante que esse conceito não difere grandemente da ideia aristotélica de que «virtude» é «função». Assim sendo, a virtude de qualquer instrumento ou de qualquer vida humana, é uma certa função que tal instrumento ou pessoa pode realizar, tornando-os úteis para a sociedade, como elementos valiosos da mesma. Assim também, em um sentido eminentemente espiritual, todos os homens são sem igual, incumbidos de uma missão toda especial. (Ver o trecho de Apo. 2:17 quanto a esse tema).

 

Ê entristecedor 0 fato de que muita gente passa toda a sua existência terrena sem qualquer tentativa ou sem fazer a mínima ideia de conhecer qual é a missão de sua vida. Quão grande é o privilégio de alguém em viver e conhecer a Cristo, em ter a esperança radiosa da vida eterna, em ter algo de útil para fazer, que lhe dirija os passos, dando sentido à sua existência neste mundo! E então pregar que a morte está vencida, e que só existe como uma bênção e uma transição para uma vida superior. «.. .evangelho…» No livro de Atos esse vocábulo se encontra somente neste versículo e no trecho de Atos 15:7. (Quanto a notas completas sobre o seu significado, e no que consiste o evangelho cristão, ver Rom. 1:16).

 

O evangelho inclui tudo quanto leva os homens à perfeita e completa transformação de seus seres segundo a imagem moral e metafísica de Cristo, «A frase, em sua inteireza, são notavelmente paulina (referindo-se à alusão que Paulo faz à sua ,carreira’). Pode-se comparar isso com Fil. 3:12, onde o mesmo verbo parece sugerir imediatamente o ‘dromos’ (palavra aqui traduzida por ‘carreira’). (Ver Gál. 2:2; ICor. 9:24 e II Tim. 4:7)». (R.J. Knowling, in loc.). (Quanto a expressões similares àquelas aqui empregadas, e que dizem respeito ao ministério que o Senhor deu ao apóstolo Paulo, ver II Cor. 4:1; 5:18 e I Tim. 1:12). «A vida é doce, e naturalmente nos é cara, pois ‘tudo quanto o homem tem dará pela sua vida’ (ver Jó 2:4); nem tudo quanto um homem tem, incluindo a sua própria vida, se é que compreende corretamente a si mesmo e aos seus próprios interesses, haverá de dar, ao invés de perder o favor de Deus e arriscar-se a perder a bênção da vida eterna». (Matthew Henry, in loc.). CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 443-444.    

 

 

O apóstolo Paulo sintetiza o seu ministério em três verdades sublimes ao declarar aos presbíteros de Éfeso: Porque em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, conquanto que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus (20.24). Destacamos a seguir essas três verdades:

  1. Vocação (20.24). Paulo diz que recebeu o ministério do Senhor Jesus. Não se lançou no ministério por conta própria; foi chamado, vocacionado e separado para esse trabalho. Paulo não se tornou pastor porque buscava vantagens pessoais. Não entrou para as lidas ministeriais buscando segurança, emprego ou lucro financeiro. Não entrou no ministério com motivações erradas. O mesmo Senhor que lhe apareceu em glória no caminho de Damasco, esse também o chamou, o separou, o capacitou e o revestiu de poder para exercer o ministério. E o senso de vocação que dá ao pastor forças nas horas difíceis. A certeza do chamado divino é que lhe dá direção em tempos tenebrosos. E a convicção de que o Espírito Santo nos constituiu bispos sobre o rebanho que nos dá paz para continuarmos no trabalho, mesmo diante de circunstâncias adversas.
  2. Abnegação (20.24). Paulo diz que não considerava a sua vida preciosa para si mesmo desde que cumprisse o seu ministério. O coração de Paulo não estava nas vantagens auferidas do ministério. Ele não atuava no ministério cobiçando prata ou ouro. Não participava de uma corrida desenfreada em busca de prestígio ou fama. Seu propósito não era ser aplaudido ou ganhar prestígio entre os homens.

Na verdade ele estava pronto a trabalhar com as próprias mãos para ser pastor. Estava pronto a sofrer toda sorte de perseguição e privação para pastorear. Estava disposto a ser preso, a sofrer ataques externos e temores internos para pastorear a igreja de Deus. Estava pronto a dar a própria vida para cumprir cabalmente seu ministério.

  1. Paixão (20.24). A grande paixão de Paulo era testemunhar o evangelho da graça de Deus. A pregação enchia o peito do velho apóstolo de entusiasmo. Ele sabia que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê. Sabia que a justiça de Deus se revela no evangelho.

Sabia que a mensagem do evangelho de Cristo é a única porta aberta por Deus para a salvação do pecador. Paulo se considerava um arauto, um embaixador, um evangelista, um pregador, um ministro da reconciliação. Sua mente estava totalmente voltada para a pregação. Seu tempo era totalmente dedicado à pregação. Mesmo quando estava preso, Paulo sabia que a Palavra não estava algemada. LOPES. Hernandes Dias. Atos. A ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos. pag. 416-417.        

 

 

   2. Sobre o cuidado pessoal do obreiro (At 20.28).

 

  Paulo tinha uma liderança exemplar diante das pessoas, mas ele sabia que isso não bastava. Por isso, no versículo 28, ele diz: “Olhai, pois, por vós mesmos”. Assim, aconselhou os obreiros que olhassem para si mesmos. As vezes na caminhada ministerial, mens. Entretanto, a experiência nos ensina que não somos intocáveis pelas circunstâncias externas. É preciso cuidar do corpo, da alma e do espirito. Assim, antes de cuidar do rebanho de Deus, o obreiro deve zelar pela sua saúde física, emocional e espiritual. Portanto, devemos cuidar de nós mesmos para cuidar do povo de Deus.    

Comentário

    Imaginem o ex-arrogante Saulo de Tarso no passado, e agora um homem que tinha consciência do seu papel como servo de Cristo e, por isso, procurou ter um comportamento físico, social e espiritual do qual podia declarar: “me portei no meio de vós com humildade” (At 20.18). No seu testemunho pessoal, ele procurou dizer àqueles homens como se sentia naquele momento de despedida para servir de exemplo a todos os seus discípulos como alguém que não tinha a vida por preciosa, desde que pudesse cumprir com fidelidade o seu ministério. Suas palavras em Atos 20.24 foram: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus”. Não era seu objetivo falar de si mesmo, mas certamente o fez para deixar aos seus colaboradores o exemplo a ser imitado no ministério pastoral. Então, ele volta-se para esses discípulos e diz a eles: “Olhai, pois, por vós mesmos” (At 20.28). Era como se estivesse dizendo de modo incisivo: “prestem atenção” sobre suas atitudes pessoais perante suas famílias, perante Deus e perante as igrejas sob o pastoreio.

A liderança de Paulo era exemplar diante de todos, mas ele aconselhou aos seus obreiros que tivessem um olhar introspectivo para suas próprias vidas e a imagem que as igrejas teriam sobre cada um deles. Nenhum ministro de Cristo no pastoreio de uma igreja pode passar a ideia de super-homem, de inatingível ou intocável, como se não pudesse ser atingido por forças externas ou não se cansasse e não precisasse cuidar do seu corpo, da sua saúde. Antes de querermos cuidar do rebanho de Deus, devemos cuidar de nós mesmos para estarmos em condições saudáveis de cuidar do povo de Deus. A Igreja de Cristo não é curral eleitoral, nem deve ser tratada como mera entidade social, porque a Igreja pertence a Deus, e ninguém pode assenhorear-se da Igreja como se fosse dono dela. Pastor não é chefe de boiada, nem trata os crentes como se fossem o seu gado. Pedro disse que a igreja “é povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pe 2.9). Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

«.. .Atendeipor vós epor todo o rebanho…» Sim, pois o sangue do Senhor Jesus Cristo é que havia sido derramado em resgate por esse rebanho, motivo pelo qual o rebanho assim comprado deve ser considerado como dotado de valor incomensurável. Outrossim, o ministério da Palavra é divinamente selecionado e santificado, através da atuação do Espírito Santo. Através desse fato se pode perceber a seriedade de ser alguém ministro de Jesus Cristo. O que o apóstolo Paulo queria dizer aqui foi admiravelmente bem expresso por G.V. Lechler (in loc.): «Nenhuma culpa cabe a mim; só pode caber a vós mesmos. Por conseguinte, cumpri a vossa parte com fidelidade, cuidando tanto de vós mesmos como do rebanho inteiro. A congregação, por assim dizer, é um rebanho, que deve ser alimentado e protegido dos lobos devoradores. Espera-se que os anciãos prestem tal serviço, por serem eles os ‘supervisores’ nomeados». «Agora ele aplicava esse discurso a eles; e através de muitas razões mostrou que deveriam vigiar diligentemente, mostrando que só se sentia tão ansioso porque a necessidade do momento assim lhe exigia.

 

O primeiro motivo apresentado é que eles estavam vinculados ao rebanho sobre o qual haviam sido postos. O segundo motivo exposto é que não haviam sido chamados para ocupar essa função da parte de qualquer homem mortal, e, sim, através do Espírito Santo. O terceiro motivo é que não era nenhuma honra sem importância ter o privilégio de governar a igreja de Deus. O quarto motivo é que o próprio Senhor havia declarado, mediante testemunhos tão evidentes, quão grande importância dá ele à sua igreja, visto que a redimiu com o seu próprio sangue». (Calvino, in loc.). Posto que tão augusta incumbência foi confiada aos supervisores ou pastores, é necessário que eles se esforcem continuamente por se aprimorarem, bem como aos seus dons e à sua maneira de ensinar.

 

Portanto, a preguiça mental entre os ministros da Palavra, que algumas vezes se evidencia tanto, deveria ser substituída pelo estudo diligente, a fim de que aumente o seu cabedal de conhecimentos, para que possam oferecer mais abundantemente o pão aos seus respectivos rebanhos. É cena deveras entristecedora—mas tão comum—a dos ministros que atravessam ano após ano de vida, sem envidarem qualquer esforço no sentido de aprimorarem sua apresentação, mas tão-somente repetem e refazem seus cansativos sermões. Por outro lado, forçoso é dizer que apesar do estudo, do conhecimento e do treinamento intelectual serem necessários, tudo isso será praticamente inútil a menos que seja acompanhado pelo ministério do Espírito Santo, operando tanto no homem interior do pregador como nas almas da congregação para a qual ele ministra. CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 447.      

 

 

  1. O líder precisa cuidar de si mesmo antes de cuidar do rebanho de Deus.

A vida do pastor é a vida do seu pastorado. Há muitos obreiros cansados da obra e na obra porque procuram cuidar dos outros sem cuidarem de si mesmos. Antes de pastorearmos os outros, precisamos pastorear a nós mesmos. Antes de exortar os outros, precisamos exortar a nós mesmos. Antes de confrontarmos os pecados dos outros, precisamos confrontar os nossos próprios pecados. O pastor não pode ser inconsistente. Sua vida é a base de sustentação do seu ministério. O sermão mais eloquente pregado pelo pastor é o sermão da vida. O sermão mais difícil de ser pregado é aquele que pregamos para nós mesmos.

  1. O líder precisa cuidar de si mesmo para não praticar o que condena.

O ministério não é uma apólice de seguro contra o fracasso espiritual. Há grande perigo de o pastor acostumar-se com o sagrado e perder de vista a necessidade de temer e tremer diante da Palavra. Os filhos de Eli carregavam a arca da aliança com uma vida impura. A arca não os livrou da tragédia. Muitos pastores vivem na prática de pecados e ainda assim mantêm a aparência. Muitos pastores saem dos esgotos da impureza, navegando no lamaçal de sites pornográficos, e depois sobem ao púlpito e exortam o povo à santidade. Essa atitude torna os pecados do pastor mais graves, mais hipócritas e mais danosos do que os das demais pessoas. São mais graves porque o pastor peca contra um conhecimento maior; mais hipócritas, porque o pastor condena o pecado em público e, às vezes, o pratica em secreto; e, mais danosos, porque quando um pastor cai, mais pessoas são atingidas.

  1. O líder precisa cuidar de si mesmo para não cair em descrédito.

Há pastores que perderam o ministério porque foram seduzidos pelos encantos do poder, embriagados pela sedução do dinheiro e acabaram presos às teias da tentação sexual. Há pastores que causaram mais males com seus fracassos do que benefícios com seu trabalho. Se um pastor perder a credibilidade, perde também o seu ministério. A integridade do pastor é o fundamento sobre o qual ele constrói seu ministério. Sem vida íntegra não existe pastorado. Hoje, assistimos com tristeza a muitos pastores gananciosos que mercadejam a Palavra e vendem a consciência no mercado do lucro. Há obreiros que são rigorosos com os crentes, mas levam de forma frouxa sua vida pessoal. Há pastores que apascentam a si mesmos, e não ao rebanho. Amam a sua própria glória em vez de buscar a honra do Salvador. LOPES. Hernandes Dias. Atos. A ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos. pag. 412-413.          

 

3. Sobre a ameaça de “lobos cruéis” no rebanho de Deus (At 20.29,30).  

 

A metáfora dos “lobos cruéis” se refere aos falsos mestres que incutiam doutrinas estranhas na mente dos incautos. Esses lobos eram predadores espirituais do rebanho de Deus, destituídos de misericórdia e amor. Nesse sentido, o apóstolo convoca os obreiros a terem o compromisso de cuidar de cada ovelha do rebanho, ensinando-a e protegendo-a. Portanto, estejamos atentos contra os predadores que atacam o rebanho do Senhor. Precisamos desempenhar.com fidelidade, o nosso papel de guardiões e protetores do rebanho de Deus.    

Comentário

 

    Essa metáfora de “lobos cruéis” usada por Paulo referia-se a falsos mestres, que eram influenciados por doutrinas estranhas, querendo enganar os cristãos e dividir a mente dos incautos. Esses “lobos cruéis” eram predadores espirituais que invadiam o rebanho de Deus e não tinham misericórdia nem amor. Paulo queria que os homens que fossem escolhidos para servirem como obreiros nos serviços da igreja tivessem o compromisso em cuidar de cada crente, ensinando a sã doutrina. A linguagem metafórica para rebanho lembra “pastor e ovelhas”. Naturalmente, há ovelhas dóceis e também ovelhas indóceis. Entretanto, o pastor precisa estar atento contra todos os predadores, que são lobos cruéis que atacam quando ninguém está atento. Todo pastor precisa saber que o rebanho é do Senhor Jesus e que as ovelhas não são sua propriedade. Os pastores são apenas cuidadores desse rebanho. Por isso, o papel preponderante do pastor é ser guardião e protetor do rebanho de Deus. Cabral. Elienai,. O Apostolo Paulo, Lições de Vida e Ministério do Apostolo do Gentios para a Igreja de Cristo. Editora CPAD. Ed. 1, 2021.    

 

«…lobos…» não se refere essencialmente àqueles que faziam oposição ao cristianismo externamente, a exemplo de Demétrio (conforme o registro do décimo nono capítulo do livro de Atos). Pelo contrário, a alusão é a certos indivíduos, falsos cristãos, postados dentro das fileiras da igreja, supostos ministros de Jesus, jamais servindo de bom exemplo para os crentes; e, em suas doutrinas, ensinavam coisas que degradavam a pessoa de Cristo, desviando os homens para inúteis especulações, em nada proveitosas para a alma. Esses «lobos», encarados pelo prisma da história da igreja primitiva, pertenciam a diversas classes, a saber:

  1. A passagem de I Tim. 1:4 fala sobre uma dessas classes, sendo significativo que ali o apóstolo Paulo menciona a questão como o cumprimento específico de sua advertência acerca dos falsos mestres. Eram homens que davam importância a fábulas e genealogias intermináveis. Na epístola a Tito, tais fábulas são denominadas fábulas judaicas. Primariamente, eram especulações de várias modalidades, em que abundavam os comentários judaicos sobre as Escrituras do A.T. e sobre as tradições do judaísmo, que procuravam esclarecer grande gama de questões teológicas. Essas «genealogias» aludiam primariamente à mania judaica de traçar cada indivíduo a sua árvore genealógica, especialmente depois que tais registros foram destruídos ou, pelo menos, confundidos, após os diversos cativeiros e retornos a que foi sujeitado o povo judeu. Todavia, a maioria dos intérpretes também pensa que Paulo repreendia aqui as noções gnósticas de emanações divinas, como hierarquias angelicais e genealogias dos «aeons» espirituais. (Ver as notas expositivas em I Tim. 1:4, quanto a detalhes sobre o assunto).
  2. Formas primitivas do gnosticismo já existiam na-era apostólica. O evangelho de João serviu de resposta parcial a algumas dessas formas. Os gnósticos ensinavam que Cristo pertencia â ordem dos anjos, sendo o criador e deus deste mundo terreno, embora houvesse outras criaturas inteligentes, em outros mundos, dos quais Cristo não é nem o criador nem deus. Alguns indivíduos gnósticos não atribuíam a Cristo qualquer posição elevada, dentro das imaginárias hierarquias dos poderes espirituais, exceto no que diz respeito a este globo terrestre.
  3. Outros elementos gnósticos supunham que o corpo é o veículo do princípio maligno, se não o próprio princípio maligno da natureza humana. Isso porque imaginavam que a própria matéria é má, por si mesma, não podendo ter sido criada pelo Deus supremo. Assim sendo, para os gnósticos, não importava coisa alguma o que se fizesse com o corpo, razão pela qual se davam licença a todas as formas de imoralidade, já que pensavam que a morte física punha fim ao_ corpo e à sua malignidade, libertando a alma para buscar a bondade. É bem provável que os falsos discípulos, mencionados em II Tim. 3:6, pertencessem a essa categoria, tendo anteriormente seguido o gnosticismo. Esse trecho bíblico diz: «…penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões». Assim agiam tais gnósticos ou o que quer que seja, por pensaram que é matéria indiferente aquilo que acontece ao corpo físico; e toda e qualquer forma de imoralidade era por eles permitida e sancionada, já que isso, na opinião deles, em nada prejudicaria a alma, o homem essencial.
  4. É quase indubitável que os judaizantes também estivessem aqui em foco. Esses eram os que negavam a graça de Deus, forçando os gentios a observarem as leis cerimoniais do judaísmo, requerendo que se circuncidassem os convertidos ao cristianismo, e pregando que a salvação da alma só pode ser dada através desses meios.
  5. Também havia aqueles que causavam divisões entre os irmãos, produzindo brechas no rebanho, por procurarem glória para si mesmos, ainda quando não ensinassem qualquer doutrina falsa, segundo pode estar implícito no trigésimo versículo.
  6. Mas também é provável que Paulo tenha falado em termos gerais, tencionando incluir qualquer ministro da Palavra que realmente não contribua para o benefício da igreja de Deus, incluindo talvez mesmo aquela variedade dos que agiam fora do ministério, os quais, ainda que pregassem a correta doutrina cristã, não tinham verdadeiro interesse e preocupação pelas ovelhas, mas antes, eram mercenários, impulsionados pelo egoísmo e pela ganância.

O trecho de Apo. 2:2 mostra-nos que os crentes de Éfeso agiram com discernimento contra os falsos profetas. Muito antes disso, o Senhor Jesus havia advertido a respeito dos profetas falsos, que não poupariam ao rebanho. (Ver Mat. 7:15). São esses os «bodes» (dentro do simbolismo bíblico), traidores como Judas Iscariotes: «…falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo» (II Cor. 11:13). «Jesus advertiu que, nos últimos dias, muitos mestres falsos haveriam de cativar as mentes daqueles que não estivessem ainda bem fundamentados na verdade. Da mesma maneira que Satanás com frequência se transmuta em anjo de luz (II Cor. 11:14), não admira que seus obreiros enganadores com frequência se apresentem como apóstolos de Cristo.

 

É extremamente importante, pois, que estejamos bem versados na Palavra, a fim de não sermos seduzidos por esses ‘apóstolos’ atraentes, mas perigosos». «Se o apóstolo Paulo esteve atarefado a vida inteira em conflitos com os mestres falsos, seria uma miopia inconcebível se ele houvesse imaginado que tais perigos cessariam após a sua partida; e seria ainda mais inconcebível se, munido de tais pressentimentos, ele tivesse deixado negligentemente de avisar à igreja. O aspecto vago da descrição sobre os mestres heréticos, por si mesmo, serve de prova da genuinidade do trecho, porquanto um escritor qualquer de data posterior teria falado de forma menos generalizada, podendo identificar mais facilmente algum erro doutrinário corrente». (R.J. Knowling, in loc.).

 

Talvez estejam aqui em foco os simples causadores de divisões, aqueles que se mostram tão egoístas, tão famintos, por poder e autoridade, que chegam ao extremo de dividir as ovelhas a fim de obterem seguidores. As coisas «…pervertidas…» que eles profeririam não seriam, necessariamente, doutrinas falsas, e, sim, mentiras e calúnias, insinuações, coisas degradantes contra seus semelhantes, o que mostra ser um vício tão prevalente no cristianismo da atualidade. Naturalmente essas coisas também podem envolver doutrinas falsas e destrutivas. «O lamentável disso tudo é que tais líderes da dissensão sempre podem obter certo número de seguidores». (Robertson, in loc.). «As epístolas pastorais, a segunda epístola de Pedro e a epístola de Judas suprem uma evidência abundantíssima sobre quão clara era a previsão do apóstolo. Himeneu e Alexandre e Fileto afirmavam que a ressurreição já havia passado (ver I Tim. 1:20 e II Tim. 2:17); indivíduos maus e sedutores se tornariam cada vez piores (II Tim. 3:13); havia aqueles que resistiam à fé, como Janes e Jambres haviam resistido a Moisés (ver II Tim. 3:8); profetas falsos haveriam de trazer heresias condenadoras, negando ao próprio Senhor, que os comprara(ver II Ped. 2:1); e tudo isso fazia parte da excrescência geral da era apostólica, do que o apóstolo Paulo via apenas o gérmen.

 

A tristeza de tudo isso aumenta ante o pensamento que homens como Himeneu e Fileto talvez estivessem realmente presentes, escutando as advertências do apóstolo, que os avisou, por conseguinte, em vão». (E.H. Plumptre, in loc.). «…dentre vós mesmos…» são palavras que subentendem que alguns daqueles mesmos anciãos ou supervisores seriam motivadores das divisões entre os rebanhos, aqui descritas; mas talvez signifique, mais simples mente, «dentre as próprias igrejas que vós representais». «…para arrastar os discípulos atrás deles…» Segundo a exposição feita por Adam Clarke, in loc., abaixo estão as três grandes causas das divisões na igreja cristã:

  1. Os superintendentes perdem a vida de Deus, negligenciando as almas do seu povo, tornando-se avaros de lucro, oprimindo à sua gente por meio de extorsões seculares.
  2. Os membros das igrejas, assim negligenciados, oprimidos e irritados, alienam suas mentes de seus pastores rapaces.
  3. Homens dotados de pontos de vista sinistros tiram vantagem desse estado momentâneo de distração, fomentam a discórdia e pregam a necessidade de ‘divisão’; e assim uma parte do povo se torna separado do grande corpo, associando-se àqueles que alegam cuidar de suas almas e que dizem não dar qualquer valor às coisas seculares. Nesse estado de distração, é altíssima prova do amor de Deus pela sua herança quando se pode encontrar alguém, dotado do verdadeiro espírito e da verdadeira doutrina apostólica, que se levante para conclamar aos crentes de volta à verdade primitiva, restaurando a disciplina primitiva.

Uma das razões mais importantes que explicam por que as divisões podem ser feitas com tanta facilidade no meio evangélico, e por que os causadores de divisões geralmente são tão prósperos no cristianismo, é que os crentes vivem tão famintos de alimento sólido (ensino substancial na Palavra) que, mui naturalmente, se sentem indispostos, tal como um indivíduo qualquer se sente, quando padece de fome física e anda exausto. Se os crentes fossem espiritualmente bem alimentados, com o pão do céu, seria muito mais difícil causar divisões entre eles. Toda a divisão, em uma igreja ou grupo de igrejas, com frequência serve de sinal do estado de depauperamento espiritual que tem dominado essa igreja ou grupo. CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. Vol. 3. pag. 447-448.    

 

O líder precisa proteger o rebanho dos ataques externos (20.29). Paulo alerta que existem lobos do lado de fora buscando uma oportunidade de entrar no meio do rebanho para devorar as ovelhas. O pastor deve ser o guardião e o protetor do rebanho. Como Davi, ele precisa declarar guerra aos ursos e leões, protegendo o rebanho de seus dentes assassinos. Há muitos falsos mestres com suas perniciosas heresias tentando entrar na igreja. O pastor precisa estar atento! Certa feita, num domingo de manhã, uma mulher bem vestida e acompanhada por uma comitiva entrou no templo e assentou-se no terceiro banco enquanto eu pregava. Ela me fez chegar às mãos um bilhete com os seguintes dizeres: “Pastor, o Espírito Santo me mandou hoje aqui, porque tenho uma mensagem a entregar a esta igreja”. Li o bilhete, coloquei-o no bolso, terminei de pregar, impetrei a bênção apostólica e me dirigi à porta para cumprimentar o povo.

Aquela mulher colocou o dedo no meu nariz e me acusou: “O senhor impediu que o Espírito Santo falasse à igreja hoje”. Eu respondi: “Deus falou à igreja, a senhora é que não ouviu, pois eu preguei a Palavra de Deus e, quando essa Palavra é exposta com fidelidade, é o próprio Espírito Santo quem fala, pois só ele tem o poder de aplicar a bendita Palavra”. E disse-lhe mais: “Como eu poderia dar-lhe apalavra sem a conhecer, sem saber de onde vem e para onde vai e no que crê?”. Mais tarde, soube que, naquela mesma semana, a mulher provocou grandes estragos em algumas igrejas da cidade. Precisamos acautelar-nos dos lobos, ou seja, dos falsos mestres. John Stott avisa que, se os líderes cristãos ficam sentados, ociosos, e não fazem nada, ou viram as costas e fogem quando surgem as falsas doutrinas, receberão o terrível título de “mercenários” que não se preocupam com o rebanho de Cristo. Então, também se dirá dos convertidos como se disse a respeito de Israel: Assim se espalharam, por não haver pastor, e se tornaram pasto para todas as feras do campo (Ez 34.5).

O líder precisa proteger o rebanho dos ataques internos (20.30). O perigo vem não apenas de fora, mas também de dentro. Alguns se levantam no meio da igreja declarando coisas perniciosas e arrastando atrás de si as ovelhas. Há lobos vestidos com peles de ovelhas dentro da igreja. Há falsos mestres enrustidos que buscam uma ocasião para se manifestarem e provocarem estrago no arraial de Deus. O pastor precisa ser zeloso no ensino, não dando guarida nem chance aos oportunistas que se infiltram no meio da igreja para disseminar suas heresias. LOPES. Hernandes Dias. Atos. A ação do Espírito Santo na vida da igreja. Editora Hagnos. pag. 419-420.  

SÍNTESE DO TÓPICO III

O apóstolo Paulo apela para que os obreiros tenham desprendimento material, cuidado espiritual e prudência para fazer a obra de Deus.    

SUBSÍDIO TEOLÓGICO

  “Frequentemente, sentimos que a vida é um fracasso, a menos que estejamos alcançando o reconhecimento, a diversão, o dinheiro e o sucesso. Mas Paulo considerava que sua vida não teria valor se ele não usasse para a obra de Deus. O que ele acrescentou à vida era muito mais importante do que aquilo que havia ganho dela. O que é mais importante para você o que ganha da vida ou o que você acrescenta a ela? Disposição é uma qualidade necessária a qualquer pessoa que deseje fazer a obra de Deus. Paulo era uma pessoa disposta, e a mete mais importante de sua vida era falar aos outros a respeito de Cristo. Não é de admirar que Paulo tenha sido o maior missionário cristão. Deus procura outros homens e outras mulheres que priorizem a grande tarefa que Ele lhe deu para fazer” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, p. 1533).    

CONCLUSÃO

  A vida do apóstolo Paulo deixa um grande legado para os obreiros da atualidade. Sua maneira de despertar novas vocações, sua herança doutrinária para a nova geração de trabalhadores e seu apelo aos obreiros para cuidar do rebanho de Deus são marcos importantes para nortear os ministérios dos vocacionados de Deus. É tempo de desenvolver novas vocações.    

PARA REFLETIR

 

A respeito de “Paulo e sua Dedicação aos Vocacionados”, responda:

 

  • Em que lugar Paulo permaneceu mais tempo em seu ministério?

Em Éfeso, o apóstolo permaneceu mais tempo.    

  • Quais são as epistolas destinadas ao pastoreio de igrejas?

Não por acaso, temos três epistolas paulinas denominadas de “cartas pastorais” (1 e 2 Timóteo, Tito).    

  • O que os judaizantes procuravam exigir dos cristãos gentios?

Eles exigiam que os gentios convertidos observassem a lei, tais como: a prática da circuncisão, a guarda do sábado judaico, a observância dos ritos que envolviam datas e comidas.    

  • Qual era a implicação do ensino dos gnósticos? A implicação desse ensino resultava na banalização da graça de Deus.

 

  • O que Atos 20.24 mostra?

Mostra que Paulo tinha o coração livre da avareza e da ganância.    

ELABORADO: Pb Alessandro Silva.                

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